Roberto Prado Barbosa Junior

ovo – Roberto Prado Barbosa Junior

Texto carinhosamente dedicado ao Claricianos:
Rita,
Ana Maria,
Alexandre Costa,
Marilda e
Geraldo

gema cercada por clara
clara dentro duma casca
como algo assim tão simples
torna-se tão transcendental?
ovo
um mistério
uma crença
um dogma
cegamente creem
não discutem com não-iniciados
ovo
antes um alimento simples
básico
natural
agora
com seguidores
herméticos
que se reúnem em câmaras escuras
em labirintos sem ariadnes
ovo
que precedia o pinto
ovo
que precedia o frango
ovo
que se quebrava
fritava
ovo
ovo
ovo
os claricianos morrerão de fome
ante a terrível
hipótese de se devorar um
ovo
seguem em busca da explicação
do entendimento
atrás de luzes
de verdades
iluminação
ovo
cuja a única confusão era
explicá-lo
um palíndromo
pobre ovo
de comida de pobre
a mote de intelectuais
ovo
fruto da humilde galinha
ovo
embala noites de queijo, vinho e
discussões

(Roberto Prado Barbosa Junior)

*

AH! O AMOR

Para O Mário e sua bárbara dor

não sofras meu jovem
tu ainda não sabes nada de nada
e sofres por tão pouco
lá frente
no futuro
(por isso não te mates ainda)
tu verás que aquilo não era dor
talvez fosse
quando muito
um beliscão no orgulho
ferido, sim, eu reconheço
mas não são dores de amores
sofres
sim, outra vez reconheço
sofres, mas não sofres a falta dela
sofres, mas é por não tê-la e o outro sim
sofres, pois outros braços que não teu
a abraçam
outros lábios que não o teu
a beijam
outro teto que não o da tua casa
a abriga à noite
mas isso, embora doa muito,
não é amor
pode ser o despeito
a vontade assassina
(segure essa onda)
de torcer o pescoço do rival
que até pouco tempo
apresentavas como mais que amigo:

– um irmão!

pense assim
tudo passa
o que tens é uma paixão
uma febre
uma doença de verão
passageira
amanhã
(por isso pedi para que não te matasses)
rirás disso
e não rirás sozinho
rirás e muito
em companhia desses
que hoje te atormentam
e fazem de tuas noites
pesadelos suarentos e arfantes
cuida-te hoje
para tenhas amanhãs
siga em frente
nem olhes para os lados
(exceto é claro, na hora de atravessar ruas)
e, preste atenção
lá no horizonte
que não é assim tão distante
verás, sem sombra de dúvida, acolá
outra(s) garota(s)
e comentarás rindo
(via e-mail?, telefone?)
com esse canalha de seu,
hoje ainda, odiado ex-amigo:

– cara, encontrei a mulher da minha vida!

e, pode até, ser ela
pode também não ser
mas nesse dia
nem sequer
te lembrarás que um dia
sofrestes por essa que agora
me leva a te escrever essas linhas.

(Roberto Prado Barbosa Junior)

*

VITRINES

foi entre as vitrines
que a viu
e sentiu-se visto
olhares cruzaram
promessas no ar
ele
um velho sátiro
ela
uma ninfeta
digna dum nabokov da melhor safra
ela com a mãe
ele, ex-mulher
manequins testemunhas mudas
cabides cúmplices sem culpa
corredores de lingerie
inflamando os desejos
o rubro à sua frente
serão das peças
ou de seus olhos?
que como o velho poeta
trazia também as retinas cansadas?
ela, de soslaio
ele, a vibrar
o não-dito
o não-feito
o desejo no ar
a lolita ali
tão à sua frente
tão absurdamente distante
era como ver a luz das estrelas
e saber que nunca iria tocá-las

– será que ela percebeu o seu latejar?

desejo a lhe sair pelos poros
ele sente fulgir
seus olhos o traem
suas mão suam
ela vai com a mãe
antes de sumir olha-o
a ponto de fazer seu sangue ferver
mas é tarde demais
ele está velho
ele está perdido
ele está, hoje, com a ex-mulher do lado…
por que hoje?
por que justamente hoje?
Ele então
sofre a dor da perda
sofre a dor de saber nunca mais outra chance
sofre por sentir-se tão vivo
sofre a dor das escolhas desse domingo…

(Roberto Prado Barbosa Junior)

*

Roberto Prado Barbosa Junior
blog: http://blogdonemesis.blogspot.com.br/

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