Rebeca dos Anjos

Rebeca dos Anjos

 

SingularidARTE – ( Rebeca dos Anjos )

Há algo que deve ficar claro: letras que brotam nas pontas dos dedos são mais do que as letras vistas com olhos de ponta. Só nas pontas dos dedos estão o cheiro, a textura e o sangue bombeado por singular coração. Atenção:

Quando digo singular, digo único.
Sinônimos aos olhos de ponta.
Nas pontas dos dedos,
Singula.

Singular é verbo
Parente de vírgula
Coisa que único algum é
Aqui Dentro,
Lugar
Onde
Sou.

( Rebeca dos Anjos )

*

Poema de quem ama

Cuido de tudo para que o todo se instale
Arrumo as flores
Acendo as velas
Ponho à mesa
O que aquece o estômago

(Dizem ser no coração que o amor brota
Mas eu, quando sinto pontadas de amor
São como borboletas
Borboletando dançantes
Encostando nas paredes do meu estômago)

Visto-me
Cubro-me de cheiro
Deixo rosadas as bochechas e rosa viro
Botão pronto para abrir
Quando a porta abrir
E trouxer o riso bobo do meu amor

Ah, como me embriaga o riso bobo do meu amor!
Neste momento as borboletas sorriem
A que mora na minha nuca
Bate asas pedindo um beijo molhado
Que faça das asas
Flor com gotas de orvalho
Feitas de saliva doce

Amo
Com meu vênus em leão
O meu amor divino
E leoa recebo sua cabeça em meu peito
Encaixada em meus seios
Sentindo nossas respirações
Nossas inspirações
Profundas
Que inundam a rotina
De cor

Para além das contas
Planos
Horas tortas
Roda fora
Para além do tempo
Nomes
Títulos
Regras
Normas
Para além do laço, até
O amor está
O amor é

( Rebeca dos Anjos )

*

Movimento Antropofágico

Devoro a vida

Do sangue venenoso extraio a afirmação da minha verdade.
Não é o escuro que alimenta o claro?

O sentir o gosto elástico dos
Nervos
Compasso das
Fibrilações
Exercícios para o
Maxilar
Que sustenta minha apetitosa boca
(que eu mesma mordo, quase arranco, quando na desesperança de bocas melhores, que lançam hálitos frescos)
Não é fresca a verdade?

Fresca e amarga a verdade primitiva
Fresco e amargo ser primitivo
Fresco e amargo é ser

(O primeiro de tudo
É livre
Do contágio
Portanto, é)

Não permito que o invasor
Devorador como sou
Coloque sobre a minha face
A máscara que mascara
Sua boca com dentes frágeis
Consumidor de garfo e faca e liquidificador:
Educação para maxilares que desconhecem o bom devorar

Aprenda:

Antropofagicamente
Meto a cara
Enfio os dentes na vida
Me lambuzo
Do duro
Do mole
Do líquido
Das partes
Para ter a cara limpa
Boca aberta e exposta
Primitiva
Desprotegida
Sem máscaras
Boca que alimenta os pés
Que andam sem rumo
Para o progresso,
Este indigerível

Entenda:

Depois de engolir a vida
Talvez vomite
Ao menos
Palavras ímpares,
Minha própria vida

( Rebeca dos Anjos )

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