Raul Cézar de Albuquerque

Velhas Coisas – Raul Cézar de Albuquerque

Num dia desses de estranhas inquietações,

Eu resolvi ir ao velho quarto ver o que tinha ali.

Sinceramente, não medi as minhas ações,

Mas, chegando lá no quarto, eu me surpreendi.

Acabei não ligando para as minhas restrições

E a alguns desejos bem próprios eu atendi.

Aquele amontoado de perdidas lembranças

Cobertas por uma camada de poeira densa

Lembrou-me do tempo em que eu tinha esperanças

E em que a vida era, pelo menos, intensa.

Com dificuldade, achei o meu velho paletó,

O que usei na noite em que a conheci.

Ainda tive que bater um pouco para tirar o pó.

Deu-me uma súbita vontade de sair só por sair.

Vontade diferente da de quando eu saía só,

No meio da noite, para tentar me divertir.

Insatisfeito, busquei uma lembrança mais antiga,

E acabei achando o meu lenço amarelo.

Ele já tinha sido branco, digo antes que você diga.

Pertencera ao meu avô, era o nosso elo.

Não sei o porquê, mas ele me lembrava de uma briga,

Enquanto me trazia a imagem de algo belo.

E, quando vi a calça social com riscos de giz,

Quase não me contive, pois fora o último presente.

O último que ela me dera. Depois, não fui feliz.

Eu precisava dela pra ser. E continuo dependente.

Tive de esticar-me para alcançar o chapéu.

O que comprei para a viagem de nossas vidas.

Porque, para ela, Buenos Aires era o céu.

Era a mais clara expressão das alegrias vividas.

Peguei uma camisa branca comprada recentemente.

Depois me vesti das lembranças achadas.

Decidi sair, e fui me arrumando lentamente.

Fui revivendo cada toque e fala da minha amada.

Caminhei pacientemente até a saída.

Pensei em sair pra rever velhos amigos e o resto do povo.

Pensei até em restaurar a ampulheta falida.

Abri a porta. Respirei fundo. Eis que tudo se fez novo.

( Raul Cézar de Albuquerque – 22-24/01/2012 )

*

UMA LEMBRANÇA…

Eu lembro-me da última vez em que a vi.

Eu nunca tinha visto nada igual,

Por isso tive certeza de que não me confundi.

Foi assim que a vi: estática e triunfal.

No meio de tanto nada.

Apenas olhei a mancha rósea na paisagem.

Na verdade, avermelhada.

Na verdade, não era miragem.

É, era ela. Era a minha emoção.

Era o meu sentimento todo ali.

Naquela imagem parecendo ilusão.

Naquele mundo sobre o qual nunca li.

Naquela mentira que era de coração,

Apaixonei-me logo pelo que vi.

Era ela com seu sobretudo vermelho,

Que, em vias normais, indicaria paixão,

Mas, no meio de todo aquele gelo,

Indicou apenas uma forte recordação.

A roupa vermelha e a expressão pálida,

O sorriso simples e a alegria notória,

O tempo frio e a presença cálida,

Tudo poetizava sutilmente sua história.

Depois deste último encontro à distância,

Hoje, vejo-a tão seca, sóbria e sincera.

Parece que já passou aquele desejo ou ânsia.

Tudo por ela já não ser quem era.

Raul Cézar de Albuquerque

Raul Cézar de Albuquerque – 06/01/2012 )

*

– MEMÓRIA PROUSTIANA –

Ele ia andando com muita rapidez

E passou por um painel luminoso.

E ele nem se lembrou do que fez

Quando era menor e mais curioso.

Se ele, ao menos, percebesse

A existência daquele painel,

Ou se ele apenas escolhesse

Ter uma vida menos ao léu…

Ele lembraria o quanto se deslumbrou

Na primeira vez em que passou por ali.

Lembraria que, de repente, ele parou

E, por causa das luzes, não quis sair.

Lembraria o quanto ficou feliz

Por causa das cores que se alternavam,

Cores diferentes das cores de giz

Que na escola os professores usavam.

Ele lembraria o quanto foi feliz,

Era perceptível que ele era feliz, pois sorria.

Ele tinha tudo o que sempre quis,

Porque ele não queria tudo o que via.

Mas o menino antes feliz, agora cresceu.

Não melhorou em nada, apenas enrijeceu.

Tornou-se chato, mas não amadureceu.

Tornou-se comum, não buscou algo só seu.

Mas acho que ele nem teve culpa em crescer,

Talvez não conhecesse os efeitos colaterais.

Não sabia que teria que deixar de viver,

Que iria ficar sem tempo, sem vida e sem paz.

Mas o menino deslumbrado ainda existia,

Só ficou soterrado por tantas seriedades,

Por essa vida de eterna correria

E pela crença em tantas disparidades,

Estas que não existem no dia-a-dia,

Estas entre mentiras e verdades.

O menino feliz não morreu,

Só não achou alguém para expô-lo.

[esta mensagem é para o nosso eu,

esta é a mensagem do nosso consolo.]

Raul Cézar de Albuquerque | 14/12/2011 )

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