A mulher mais bonita da cidade

A mulher mais bonita da cidade – Charles Bukowski

 

Tradução de Bruno Ferreira do conto “The most beautiful woman in town”, de Charles Bukowski, revisado online por Fabio Rocha (caso tenha a referência bibliográfica completa, me envie, que atualizo aqui.)

 

Cass era a mais jovem e bonita de 5 irmãs. Cass era a garota mais bonita da cidade. 1/2 indígena com um corpo flexível e estranho, com um corpo e olhos ardentes como de uma cobra. Cass era um fogo fluido ambulante. Ela era como um espírito preso numa forma incapaz de contê-la. Seus cabelos eram negros e longos e macios e ondulados assim como seu corpo. Seu espírito estava ou lá em cima ou lá embaixo. Não havia meio-termo para a Cass. Alguns a chamavam de louca. Os idiotas diziam isso. Os idiotas nunca entenderiam a Cass. Para os homens ela não passava de uma máquina de sexo e eles não se importavam se ela era louca ou não. E Cass dançava e flertava, beijava os homens, mas exceto por um caso ou outro, quando chegava a hora de ir para a cama, Cass dava um jeito de se esquivar, iludia os homens.
Suas irmãs lhe acusavam de abusar de sua beleza, ou de não usá-la o suficiente, mas Cass tinha cabeça e espírito; ela pintava, dançava, cantava, fazia coisas de argila, e quando as pessoas estavam machucadas ou no espírito ou na carne, Cass sentia muita empatia por elas. Só que sua cabeça era diferente; só que sua cabeça não era prática. Suas irmãs tinham inveja dela porque ela atraía seus homens, e elas tinham raiva porque sentiam que ela não os usava da melhor maneira. Ela tinha o costume de ser gentil com os mais feios; os homens considerados bonitos lhe revoltavam — “Sem colhões,” dizia, “sem graça. Ficam se exibindo com seus lóbulos da orelha perfeitos e seus narizes bem estruturados… Muita superfície e nenhum conteúdo…” Ela tinha um temperamento que se aproximava da insanidade. Seu pai morreu de álcool e sua mãe foi embora abandonando as garotas sozinhas. As garotas foram para a casa de um parente que as deixou em um convento. O convento foi um lugar infeliz, mais para Cass que para suas irmãs. As garotas tinham inveja de Cass e Cass brigou com a maioria delas. Ela tinha marcas de navalha por todo o braço esquerdo de se defender em duas brigas. Também tinha uma cicatriz permanente na bochecha esquerda, mas a cicatriz em vez de diminuir sua beleza só parecia realçá-la. Eu a conheci no West End Bar várias noites depois de ela ter deixado o convento. Sendo a mais jovem, ela foi a última das irmãs a ser liberada. Ela simplesmente veio e sentou do meu lado. Eu provavelmente era o cara mais feio da cidade e isso deve ter tido alguma influência.
“Quer uma bebida?” perguntei.
“Claro, por que não?”
Acho que não teve nada de anormal na nossa conversa naquela noite, era essa a impressão que Cass dava. Ela tinha me escolhido e as coisas se resumiam nisso. Sem pressão. Ela gostou das bebidas e bebeu bastante. Ela não aparentava ser maior de idade mas eles a serviram mesmo assim. Talvez ela tivesse identidade falsa, não sei. Enfim, sempre que ela voltava do banheiro e sentava ao meu lado, eu sentia um certo orgulho. Ela era não só a mulher mais bonita da cidade como também a mulher mais bonita que eu já vi. Envolvi sua cintura com meu braço e lhe dei um beijo.
“Você me acha bonita?” ela perguntou.
“Sim, é claro, mas tem algo a mais… algo além da sua aparência…”
“As pessoas estão sempre me acusando de ser bonita. Você me acha mesmo bonita?”
“Bonita não é a palavra, ela dificilmente lhe faz justiça.”
Cass mexeu em sua bolsa. Achei que ela estava procurando um lenço. Ela puxou um grande alfinete. Antes de eu poder impedi-la, ela atravessou o alfinete pelo nariz, de um lado até o outro, logo acima das narinas. Senti desgosto e horror. Ela me olhou e riu, “Agora você me acha bonita? O que você acha agora, cara?” Eu puxei o alfinete para fora e segurei meu lenço sobre o sangramento. Várias pessoas, incluindo o balconista, viram a cena. O balconista veio até nós:
“Olha,” ele disse para Cass, “se se exaltar de novo você vai para fora. Não precisamos dos seus dramas aqui.”
“Ah, vai se foder, cara!” ela disse.
“Melhor manter ela na linha,” o balconista me disse.
“Ela vai se comportar,” eu disse.
“É o meu nariz, eu faço o que quiser com meu nariz.”
“Não,” eu disse, “isso me machuca.”
“Quer dizer que você se machuca quando enfio um alfinete no meu nariz?”
“Sim, machuca, de verdade.”
“Está bem, não vou fazer isso de novo. Relaxa.”
Ela me beijou, meio sorrindo através do beijo e segurando o lenço no nariz. Fomos para minha casa na hora de fechar. Tomei uma cerveja e sentamos conversando. Foi aí que me dei conta de que ela era uma pessoa cheia de gentileza e compaixão. Ela se doava sem perceber. Ao mesmo tempo, ela saltava de volta para áreas de selvageria e incoerência. Maluca. Uma maluca bonita e espirituosa. Talvez alguma coisa, algum homem, arruinaria ela para sempre. Queria que não fosse eu. Fomos para a cama e depois de eu desligar as luzes Cass me perguntou,
“Quando você quer fazer? Agora ou de manhã?”
“De manhã,” eu disse e me virei.
De manhã eu levantei e preparei duas xícaras de café, levei um para ela na cama. Ela riu.
“Você é o primeiro homem que recusou fazer à noite.”
“Tudo bem,” eu disse, “a gente nem precisa fazer.”
“Não, espera, eu quero agora. Deixa eu me arrumar um pouco.” Cass entrou no banheiro. Ela saiu logo, muito bonita, seus cabelos negros brilhando, seus olhos e lábios brilhando, ela brilhando… Ela revelava seu corpo com calma, como uma coisa boa. Ela entrou debaixo das cobertas.
“Pode vir, garanhão.”
Eu fui. Ela beijou com vigor mas sem pressa. Deixei minhas mãos passearem pelo seu corpo, pelo seu cabelo. Eu montei. Era quente, e apertado. Comecei a meter devagar, tentando fazer durar. Seus olhos focavam diretamente nos meus.
“Qual o seu nome?” perguntei.
“Que merda de diferença isso faz? ela perguntou.
Eu ri e continuei. Depois ela se vestiu e a levei de carro de volta ao bar, mas era difícil esquecê-la. Eu não tinha trabalho e dormi até as duas da tarde, então levantei e li o jornal. Eu estava na banheira quando ela chegou com uma folha enorme — uma orelha de elefante.
“Eu sabia que você estaria na banheira,” ela disse, então trouxe uma coisa para você cobrir essa coisa, garoto selvagem.”
Ela jogou a folha de elefante em mim na banheira.
“Como você sabia que eu estaria na banheira?”
“Eu sabia.”
Quase todo dia Cass chegava quando eu estava na banheira. Os horários eram diferentes mas ela quase nunca errava, e lá estava a folha de elefante. E então nós fazíamos amor. Uma ou duas noites ela ligou e eu tive que pagar a fiança dela por lutas e bebedeiras.
“Esses filhos das putas,” ela disse, “só porque eles te compram umas bebidas acham que podem entrar nas suas calças.”
“Quando aceita uma bebida você cria problemas para si mesma.”
“Achei que eles estivessem interessados em mim, não só no meu corpo.”
“Eu estou interessado em você e no seu corpo. Duvido, porém, que a maioria dos homens consigam ver além do seu corpo.”
Deixei a cidade por 6 meses, vagabundeei por aí, voltei. Eu nunca esqueci Cass, mas nós tivemos uma discussão e eu estava com vontade de me mudar de qualquer jeito, e quando eu voltei descobri que ela tinha partido, mas fiquei sentado no West End Bar uns 30 minutos quando ela entrou e sentou ao meu lado.
“Olha só, desgraçado, então você voltou.”
Pedi uma bebida para ela. Então olhei para ela. Ela usava um vestido de gola rolê. Eu nunca tinha visto ela usar um desses. E sob cada olho, enfiados, estavam 2 alfinetes com cabeças de vidro. Tudo que dava para ver eram as cabeças dos afinetes, mas as hastes estavam enfiadas em seu rosto.
“Cacete, ainda tentando destruir sua beleza, é?”
“Não, é a moda, seu idiota.”
“Você é maluca.”
“Senti sua falta,” ela disse.
“Tem mais alguém?”
“Não, não tem mais ninguém. Só você. Mas estou fazendo programa. Custa dez contos. Mas para você eu faço de graça.”
“Tira esses alfinetes.”
“Não, é a moda.”
“Está me deixando muito triste.”
“Tem certeza?”
“Tenho certeza para caralho.”
Cass removeu os alfinetes devagar e os pôs de volta na bolsa.
“Por que você despedaça sua beleza?” perguntei. “Por que você não convive com ela?”
“Porque as pessoas acham que é tudo que eu tenho. Beleza não é nada, beleza não vai durar para sempre. Você não sabe a sorte que tem de ser feio, porque quando as pessoas gostam de você, você sabe que é por outra razão.”
“O.k.,” eu disse, “sou um sortudo.”
“Não estou dizendo que você é feio. Só que as pessoas acham que você é feio. Você tem um rosto fascinante.”
“Obrigado.”
Tomamos outra dose.
“O que você tem feito?” perguntou.
“Nada. Não consigo chegar a lugar nenhum. Sem interesse.”
“Também nada. Se fosse mulher você poderia fazer programa.”
“Acho que eu nunca conseguiria falar com tantos estranhos, é cansativo.”
“Tem razão, é cansativo, tudo é cansativo.”
Saímos juntos. As pessoas da rua ainda encaravam a Cass. Ela era uma mulher linda, talvez mais linda do que nunca. Fomos até a minha casa e abrimos uma garrafa de vinho e conversamos. Entre nós dois, as coisas sempre fluíam. Ela falava um pouco e eu escutava e então eu falava. Nossas conversas aconteciam sem qualquer tensão. Nós parecíamos descobrir segredos juntos. Quando descobríamos um dos bons Cass ria aquela risada — daquele jeito que era só dela. Era como alegria tirada das chamas. Durante a conversa a gente se beijou e se aproximou mais. Ficamos bem excitados e decidimos ir para a cama. Foi aí que Cass tirou seu vestido de gola rolê e eu vi — a cicatriz horrível entalhada na sua goela. Era longa e grossa.
“Meu deus, mulher,” eu disse da cama, “meu deus, o que você fez?”
“Eu tentei fazer aquilo com uma garrafa quebrada outra noite. Você não gosta mais de mim? Você ainda me acha bonita?”
Eu puxei ela para a cama e a beijei. Ela me empurrou e riu, “Alguns caras me pagam dez e eu tiro as roupas e eles não querem mais trepar. Eu fico com os dez. É bem engraçado.”
“É,” eu disse, “não consigo parar de rir… Cass, vadia, eu te amo… para de se destruir; você é a mulher mais viva que eu já conheci.”
Nos beijamos de novo. Cass chorava emudecida. Eu podia sentir as lágrimas. Os cabelos longos e negros repousavam ao meu lado como uma bandeira de morte. Curtimos e fizemos amor lento e soturno e belo. De manhã Cass estava fazendo desjejum. Ela parecia calma e feliz. Estava cantando. Fiquei na cama e apreciei sua felicidade. Finalmente ela veio e me sacudiu,
“Acorda, desgraçado! Joga água fria na cara e no bilau e vem aproveitar o banquete!”
Levei ela de carro até a praia nesse dia. Era fim de semana e ainda não era verão então estava tudo esplendidamente desértico. Beberrões praieiros dormiam em trapos no gramado acima da areia. Outros sentavam em bancos de pedra dividindo uma garrafa solitária. As gaivotas rodopiavam no céu, estúpidas mas distraídas. Senhoras em seus 70 ou 80 anos sentavam nos bancos e discutiam a venda imóveis deixados para trás por seus maridos há muito mortos pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Com tudo isso, havia paz no ar e andamos e nos esticamos nos gramados e não falamos muito. Simplesmente era bom estar junto. Comprei dois sanduíches, alguns salgadinhos e bebida e sentamos na areia comendo. Então segurei Cass e dormimos juntos por volta de uma hora. De certa forma era melhor que fazer amor. Era fluir junto sem tensão. Quando acordamos voltamos à minha casa e cozinhei o jantar. Depois do jantar eu sugeri a Cass que dormíssemos juntos. Ela esperou um longo tempo, olhando para mim, então de lentamente ela disse, “Não.” Levei ela de volta ao bar, lhe comprei uma bebida em fui embora. Achei um trabalho como guarda do estacionamento de uma fábrica no dia seguinte e no resto da semana passei trabalhando. Eu estava cansado demais para fazer muita coisa mas nessa sexta à noite eu fui ao West End Bar. Sentei e esperei pela Cass. Horas se passaram. Quando eu estava bastante bêbado o balconista me disse, “sinto muito pela sua namorada.”
“Como assim?” perguntei.
“Desculpa, você não sabia?”
“Não.”
“Suicídio. O enterro foi ontem.”
“Enterro?” perguntei. Parecia que ela entraria pela porta a qualquer momento. Como ela poderia ter partido?
“A irmã a enterrou.”
“Suicídio? Pode me dizer como?”
“Ela cortou a garganta.”
“Entendi. Me vê outra dose.”
Bebi até a hora de fechar. Cass era a mais bonita de 5 irmãs, a mais bonita da cidade. Consegui dirigir até em casa e fiquei pensando, eu devia ter insistido para ela ficar comigo em vez de aceitar aquele “não.” Tudo que ela fazia indicava que ela se importava. Eu simplesmente perdi a mão, fui preguiçoso, despreocupado demais. Eu mereço a minha morte e a dela. Eu fui um cão. Não, por que culpar os cães? Levantei e encontrei uma garrafa de vinho e a entornei. Cass, a garota mais bonita da cidade, estava morta aos 20. Lá fora alguém apertava a buzina de seu automóvel. Era bem alto e persistente. Larguei a garrafa e gritei: “CARALHO, FILHO DA PUTA, CALA ESSA BOCA!” Continuava escurecendo e não tinha nada que eu pudesse fazer.

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