Olavo Bilac – Poemas

Olavo Bilac – Poemas

Via Láctea (trecho XIII)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

( Olavo Bilac )
(Publicado em Antologia Poética – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 28)

*

Nel mezzo del camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

(Olavo Bilac)
(Digitado e conferido por mim mesmo e por Rebeca dos Anjos em 11 de novembro de 2012, publicado em Antologia Poética – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 58)

*

XXX

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

( Olavo Bilac )
(Digitado e conferido por mim mesmo e por Rebeca dos Anjos em 11 de novembro de 2012, publicado em Antologia Poética – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 45)

 

*

Dormes…

Dormes… Mas que sussurro a umedecida
Terra desperta? Que rumor enleva
As estrelas, que no alto a Noite leva
Presas, luzindo, à túnica estendida?

São meus versos! Palpita a minha vida
Neles, falenas que a saudade eleva
De meu seio, e que vão, rompendo a treva,
Encher teus sonhos, pomba adormecida!

Dormes, com os seios nus, no travesseiro
Solto o cabelo negro… e ei-los, correndo,
Doudejantes, sutis, teu corpo inteiro

Beijam-te a boca tépida e macia,
Sobem, descem, teu hálito sorvendo
Por que surge tão cedo a luz do dia?!

( Olavo Bilac )

 

*

A Alvorada do Amor

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

Chega-te a mim! entra no meu amor,
E e à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgôsto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê tudo nos repele! a tôda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrêlas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sôbre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se amaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degrêdo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da bôca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em tôrno ao teu corpo encantador e nú,
Tudo morrer, que importa? A natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na terra, luz dos olhos teus,
Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus!

( Olavo Bilac )

*

Como quisesse livre ser, deixando
As paragens natais, espaço em fora,
A ave, ao bafejo tépido da aurora,
Abriu as asas e partiu cantando.

Estranhos climas, longes céus, cortando
Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
Que morre o sol, suspende o vôo, e chora,
E chora, a vida antiga recordando …

E logo, o olhar volvendo compungido
Atrás, volta saudosa do carinho,
Do calor da primeira habitação…

Assim por largo tempo andei perdido:
— Ali! que alegria ver de novo o ninho,
Ver-te, e beijar-te a pequenina mão!

( Olavo Bilac )

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46 comentários em “Olavo Bilac – Poemas

  1. Oi Fabio, parabéns seu site continua cada vez melhor,
    conhecer os poetas e escritores é mesmo algo maravi-
    lhoso para mim, e Olavo é sem duvida um dos melhores. Beijão.

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  2. Parabéns pelo blog! Sem dúvida, a poesia é um assunto muito prazeroso de ser trabalhado. Quando de trata da ‘arte pela arte’ então…
    Você sabe onde posso baixar Antologia Poética de Bilac? Comprar na internet não adianta para mim, pois preciso desse livro com urgência.

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  3. Estudei no Instituto de Educação e na época tive um professor muito bom. Lembro-me vagamente de uma poesia que dizia…muita vez houve céu dentro de um peito..mas um dia veio em que a descrença e o aspeito muito de tudo…. Gostaria de saber qual o nome do poema. Foi uma época marcante em minha vida.
    Obrigada.

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    1. Procurei no Google e achei no site

      Mas teria que verificar em livro… O poema é:

      RIOS E PÂNTANOS

      Muita vez houve céu dentro de um peito!
      Céu coberto de estrelas resplendentes,
      Sobre rios alvíssimos, de leito
      De fina prata e margens florescentes…

      Um dia veio, em que a descrença o aspeito
      Mudou de tudo: em túrbidas enchentes,
      A água um manto de lodo e trevas feito
      Estendeu pelas veigas recendentes.

      E a alma que os anjos de asa solta, os sonhos
      E as ilusões cruzaram revoando,
      — Depois, na superfície horrenda e fria,

      Só apresenta pântanos medonhos,
      Onde, os longos sudários arrastando,
      Passa da peste a legião sombria…

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      1. Encontrei pelo Google no livro “Parnasiano Brasileiro entre dissonâncias e ressonâncias” – Luís Augusto Fischer; Coleção Memória das Letras 13; EDIPUCRS que explica trechos desse poema.
        Espero ter ajuda.
        Amo o seu trabalho, Fabio Rocha.
        Grande abraço.

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  4. Fábio,parabéns pelo bom gosto de saber apreciar e transmitir uma cultura tão fascinante.Agora encontrei o cantinho certo para me comunicar com pessoas amantes da poesia assim como eu.Continue com essa maravilha, que faz bem a alma e o coração.

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  5. Muito bom! Sou amante da poesia e gostaria de resgatar essa, para o meu arquivo, com autor e na íntegra: “Os teus olhos, querida, foram feitos desse verde das águas de alto mar. Têm no brilho mistérios contra feitos, e a languidez das noites de luar!” Agradeceria muito se me ajudasse.

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  6. Entristece-me saber que em minhas aulas de literatura aprendi que o parnasianismo era um dos movimentos literários de menor expressão sentimental, de uma obsessão pela métrica que tornava os poemas fracos e pouco expressivos. Deparo-me então com a diferença gritante entre o que aprendo nas escolas e o que vejo mundo afora, incrível como a gente ensina mais pra gente mesma do que o outro ensina pra pessoa alheia.

    Grande respeito por Olavo Bilac.

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  7. Bom dia, Fabio.

    Primeiro, PARABÉNS! Pelo site!O melhor entre todos!
    Muito aprendo com ele…
    Estou a procura de um poema infantil de Olavo Bilac, que fala da Baleia.
    No Google encontrei uma adaptação num site, mas não é o original, penso eu.
    Se tiver alguma informação, agradeceria.
    Meu abraço e gratidão por seu trabalho admirável e poético!
    Abração.

    Gaiô.

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  8. Amei reler Olavo Bilac.Tinha me esquecido do quão bom poeta ele é… Como sonho um produzir a minha própria poesia, vou reler toda a produção dele…

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