Mário Lúcio de Souza Franco

Doce Viagem – Mário Lúcio de Souza Franco

A cada nascer do sol
Meu corpo se estica, se enverga,
Range, quase se entrega,
Luta feroz contra a inércia,
Mas minha alma se estremece … está normal.

Na véspera
O sono, o torpor, o sonho,
Parece morte, mas é vida, vida de luz e desejo,
Um lampejo de liberdade, uma travessia fenomenal.

Só sei que lá onde estive,
Naquele reino encantado,
Onde só se vai se for convidado,
Há uma luta infinda
Árdua, áspera, porém limpa,
Entre o bem e o mal.

O mal que levo daqui
O bem que só se encontra lá.
O mal de ter que partir
O bem de ter que aguardar.
Toda a poeira do mundo
Que é necessária limpar.

Uma brisa suave, um dia de sol
Flores, perfume suave, silêncio ruidoso,
Uma pureza fetal.

Uma conversa informal,
Aulas de vida para quem acabou de chegar.

Pessoas que há muito não via
Lá estavam a me esperar.

Minha avó materna, minha mãe eterna,
E muitos outros que não sei contar.

Amigos fraternos, verdadeiros, protetores,
Mulheres lindas, de jeito matreiro, de muitas cores,
Quase sempre os sinto presentes no meu caminhar.

Amores perdidos em muitas vidas,
Amores perfeitos.
Daqueles que me faz querer a presença
Mesmo sabendo os defeitos,
Mas que a evolução não permite encontrar.

Ai, que aperto no peito,
Que saudade que dá,
Quando tenho que voltar e acordar.

( Mário Lúcio de Souza Franco )

*

O Amor

Procuro alguém
Que não foi muito amado,
Que não foi só maltratado,
Só elogiado, só humilhado,
Aconchegado ou rejeitado.

Procuro alguém
Que não só veja ou só sinta
A luz ou a escuridão,
O Vento ou o trovão,
O calor ou o frio, o seu tremor.
Procuro alguém que não minta
Procurando ser alguém
Perfeito e acabado,
Que ainda não sabe que a vida não tem lado,
Que a vida é meio, equilibrado,
Sentimento puro, sincero, bem doado.

Procuro alguém
Que me faça seu eleito.
De trato tolerante, paciente e amigo.
Que me enfrente e me conteste,
Mas que tenha piedade, compaixão.
Alguém que veja em mim os seus defeitos,
Que não veja só em si o próprio umbigo,
Que não queira para mim
O que não capaz de suportar,
Alguém que viva o perdão, que saiba amar.

Procuro um amor que divida,
Que lute comigo pela vida,
Que saiba comer o pão da alegria,
Mas também lamber a manteiga da ferida.
Alguém que não me faça sofrer,
E que não viva comigo na solidão.

Amor que faz a felicidade depender,
Que faz chorar, se perder, que faz arder,
Viciar, entorpecer, se esconder,
Não é amor, é doença, é escravidão.

O amor é solidário, é generoso…
O sexo é complemento,
Não é egoísta, é mais gostoso.
O amor é racional.
Vê qualidades, mas vê defeitos,
Acha graça, adula, aceita o ócio,
Mas repreende, educa, afasta o mal.
Não se equilibra, bêbedo, sobre os extremos,
Onde residem os trêmulos tormentos e os lamentos,
Sentimentos únicos da paixão e do ódio.

O amor é fraternidade, amizade, união.
Casa florida, alicerce da vida,
Afinidade de irmãos.
Não se tem medo da verdade,
Nem de sentir saudade,
É confiança, liberdade, doação.
É criar os filhos juntos,
Acabar de educar os pais,
Com conselhos sábios, sem sermões.
Humildade nas palavras
E força nas boas intenções.
Um atravessar a vida num só mergulho,
Sem perder o fôlego,
De um jeito assim, integro, sem orgulho,
Sem ter que jamais se brutalizar
E ficar o tempo todo pedindo perdão.

Com amor se conhece a vida,
Sua brevidade, sua seqüência.
Do amor se extrai a verdade
Do ciclo da curta existência,
Tem-se consciência do que é fatal.
Sabe-se do sofrimento e sua agonia,
Da alegria e sua euforia,
Deixa-se de suar.
Faz-se com paciência a travessia,
Sem ganância, teimosia, vaidade e arrogância.
Conhece-se, enfim, o que é perigoso
E do que se precisa afastar.

O amor é libertação,
Não há rancor, nem revolta.
É a certeza da presença no começo e no fim,
Mesmo sentindo-se sozinho, cheio de medo e aflição.
Tem-se a certeza que na volta
Terá o aconchego de Deus,
Que é só compaixão.

( Mário Lúcio de Souza Franco )

*

Graças a Deus!!!

Este ano foi muito bom para mim,
Graças a Deus…

Concluí a faculdade, agora sou Doutor.
Colei.
Meus filhos também passaram.
Paguei.
Enchi o tanque e a sacola.
Soneguei.
Minha mulher já não rebola.
Ameacei.

Este ano foi de sucesso para mim,
Graças a Deus…

Cresci no meu emprego, agora sou Diretor.
Esforcei.
Sou amigão do meu chefe.
Embriaguei.
Derrubei o meu colega que não bebe.
Prejudiquei.
Fui promovido.
Ferrei.

Este ano foi vitorioso para mim,
Graças a Deus…

Venci tudo que disputei, agora sou Vencedor.
Machuquei.
Beijei o escudo do meu time.
Jurei.
Fui o mais veloz no nadar.
Dopei.
Fui campeão no truco.
Roubei.
Apitei os jogos que queria ganhar.
Ganhei.

Este ano foi abençoado para mim,
Graças a Deus…

Fui reconhecido na minha igreja, agora sou Pastor.
Orei.
Fui obreiro, fui fiel.
Ajudei.
Pedi dinheiro e patrocinador.
Prosperei.
Prometi que assim se iria ao céu.
Trapaceei.
Não dei de comer, nem de beber, nem de vestir.
Ignorei.

Este ano foi inesquecível para mim,
Graças a Deus…

Comemorei nos trios elétricos, agora sou Vereador.
Venci.
Consegui votos na periferia.
Comprei.
Prometi benfeitorias.
Enganei.
Votei só a favor dos ricos.
Faturei.
Do sofrimento dos pobres.
Esqueci.

Este ano foi libertador para mim,
Graças a Deus…

No fim do ano consegui um indulto, agora sou Pregador.
Dissimulei.
Ainda vejo dos mortos os vultos.
Matei.
Sou outro homem graças aos cultos.
Recuperei.
Consegui um habeas-corpus.
Remunerei.
Do semblante de dor naqueles olhos,
Esquivei.
Dos motivos de tanto ódio,
Refutei.

Os próximos anos serão quentes para mim, agora sou Assessor.
Hummm, mas que calor!!!
Não fico mais doente,
Meu corpo já não sofre.
Durmo que é uma beleza,
Só me incomoda o cheiro do enxofre.
Danço, canto e pulo o dia inteiro
E não sinto o corpo arder;
Uma ironia, já que aqui é um braseiro.
Morri de repente, não vi, nem percebi.
Não me disseram nada,
Não despedi, nem dos outros, nem dos meus.
Só sei que estou aqui, nessa fornada,
Graças a Deus.
Afinal, fiz por merecer…

( Mário Lúcio de Souza Franco )

mario

Leia mais versos de visitantes

Uma resposta

  1. Os egoístas são surdos, os covardes mudos e os arrogantes cegos, e todos vivem no reino da negligência. Aqui não há surdos, mudos, nem arrogantes, porque aqui o reinado é o do amor, da generosidade e da simplicidade.

    Obrigado por esse espaço tão legal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *