Manoel de Barros – Poemas

Manoel de Barros – Poemas

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

(Manoel de Barros)
(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros, São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 47)

“Poesia é voar fora da asa.”

( Manoel de Barros )

*

Mundo Pequeno

(do livro “O Livro das Ignorãças”)

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

( Manoel de Barros )

*

“O poeta é um ente que lambe palavras.”

( Manoel de Barros )

*

II

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

( Manoel de Barros )

*

IV

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Língua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

( Manoel de Barros )

*

VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

( Manoel de Barros )

*

VII

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

( Manoel de Barros )

*

Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

(Manoel de Barros)
(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros, São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.
p. 187)

*

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. Hoje encontrei um baú cheio de punhetas.

(Manoel de Barros)
(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros, São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 67)

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Manoel de Barros
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96 comentários em “Manoel de Barros – Poemas

  1. Primeiro gostaria de parabenizar pelo blog, muito bom!

    Agora de deixar um informe. Está em cartaz em Natal, RN, uma peça muito linda, impressionante, intimista e cheia de infância e quintal e coisa, que retrata poesias de Manoel de Barros. Vale muito a pena. Quem estiver próximo e se interessar. O nome do espetáculo é: Retrado do Artista quando Coisa e se apresenta em Ponta Negra.

    Um lindo passeio pelo mundo poético a todos.

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  2. Pode até existir, mas não conheço um poeta manejador de palavras mais completo do que Manoel de Barros. Ele usa, desusa, parafusa, reinventa, torce, descoloca palavras, até dar na rã. Sua obra é monumental, e desconheço em toda ela, um só verso que não contenha poesia. Veja um exemplo que cito de cor: há nas margens do rio Capivari uma planta arbustiva muito da sem graça, de nome sarã; não me lembro em qual poema, mas veja que graça ficou > sarãs anoitecidos.
    Não é isso re-invenção? Não é isso criatividade ? Não é isso o que se espera de uma obra de arte? Eu acho que sim. Ele mesmo disse que “onde eu não estou, as palavras me acham”

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  3. Rio .08|10|013.

    Conheci o Manoel através de uma linda professora de Jundiaí .
    Estou amando te conhecer Manoel .Tudo nele é Magia .os escritos tem cheiro ,tem cor enfim tem vida.
    Valeu Luciana (Capitu) por ter me apresentado o Manoel.
    Eu adoro você.

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      1. Eu queria muito conhecer o Manoel de Barros,eu amo muito os poemas dele,para mim ele é o maior poeta brasileiro de todos os tempos…

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  4. Moro bem perto do poeta,conheço tambem ,de perto, dados de sua biografia.Lamento ,no entanto,ter que investir em remédios, e não em livros. Pois uma gibóia muito grande,chamada vida me engoliu inteira .Obrigada pela homenagem ás crianças,comí os doces e lambi os dedos!

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    1. Diumira, querida!

      Lamento pela jiboia.
      Mas, talvez, o nosso poeta,
      pegaria essa jiboia, colocaria uma pima
      em uma de suas extremidades e a soltaria
      ao vento, pescando pirilampos com o olhar…

      Beijos no coração!

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    2. Diumira !!! gostaria de um contato por email contigo é possível ? , caso o dono do site o permita me resposte por aqui que escrevo-te meu email !obrigado

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  5. Estou muito triste e descontente com o mal que o ser humano pode fazer para seu semelhante,e essa leitura me limpou o coração.A poesia sempre teve esse efeito em mim.Assisti ao documentário sobre o escritor,e adorei.

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  6. Querido Manoel, ou a quem possa interessar, tenho a honra de publicar um informe noticiando, que para registrar a minha oficina de Materiais Expressivos em Artes Visuais na Escola Parque de Ceilândia – DF, escolhemos o célebre poeta brasileiro Manoel de Barros.

    Att, professora Vera Lúcia (Arte educadora)

    p.s. Trabalho com os resíduos para marcar um contexto sustentável.

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  7. Gora poquim quando soube da morte do Manoelzão, garrei a pensar em lesmas, passarinhos, casco de arvores e capim colonião….sei la que me deu…acho que a natureza hoje deu solução de órfã. Viva Manoel!

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  8. Amo o Poeta Manoel de Barros! Ele nos faz sentir como é lindo ser brasileiro, de verdade! Na sua poesia, nos remete ao amor, ao encantamento pelas coisas da Natureza, com a beleza da simplicidade, e com tanta sabedoria!

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  9. Não leio Manoel de Barros,pois saborear traz outros paladares que não visuais.Deleito-me com sua poesia,imaginando cores que coram,Bandeiras que libertam-nos e nos deixam próximos de Deus.Aqui o poema se inflama e desanda a dizer sandices(sâs-eu disse),cuidado com as palavras vão muito além de seus dizeres,pronuciam mais que suas sinuosidades<nunca fui dado à palavra escrita,nem sei decifrá-las longe de quem as escreve,mas gosto de imaginar as ausências de quem se autorou:de fingir que sou sábio,que leio nas entrelinhas.Graças a pessoas como Manoel,creio me poético,me identifico com seus fazimentos literários.

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