Dado Carvalho

LEMBRANÇAS DA CASA GRANDE – Dado Carvalho

Voltar aqui depois de tantos anos,
visitar novamente a casa grande.
Ouvir passos de infância
nos corredores do tempo.

Parar diante do grande espelho,
olhar meu rosto bordado pelos anos;
alinhavado aqui e ali,
disfarçando um ou outra cicatriz.

Olhar meu rosto no mesmo espelho
onde Dorinha viu-se de noiva,
engalanada de encantos.
(O buquê caiu nas mãos de Rosinha,
que servia os convidados).

Amarradas no para-choque,
as latas debateram-se ensurdecedoras.

Mãos de adeus, desejos de felicidade,
lágrimas de mãe.

Voltar aqui e ainda ouvir o latido do Tox,
rasgando o silêncio de não sei quantas primaveras.

As grandes portas dormem tranqüilas;
o soalho vermelho sonha com os passos de dança.
Dorinha recebendo os cavalheiros e as senhoras,
elegante e altiva, ao lado do marido.
(No meu olho, uma lágrima furtiva.
a lágrima do filho do jardineiro, pobre no seu canto.)

As cortinas ainda balouçam,
acariciadas pelo vento que vem de longe,
dos tempos do rococó; das valsas de gramofone.

No parapeito das lembranças,
restam uns poucos vasos:
avencas, tinhorões, antúrios
(faziam bem aos olhos de Dorinha)

É aquela, na moldura oval,
elegante, grave e altiva,
entre aqueles dois senhores.
Dorinha…

Ouço passinhos inocentes
vindos da varanda:
─ Vamos, vovô! Vó Rosinha está chamando.
Sim, querida, vamos.
Um último olhar para a moldura oval:
“Adeus… Dorinha.”

DADO CARVALHO
Sorocaba, 29.01.2013 – 01:55h

*

MISSA DE DOMINGO

Compreendo a voz dos sinos
quando anunciam, quando chamam.

Seu badalar fere a manhã de missas
e véus bordados.

Ajoelhar-se, levantar-se,
persignar-se, baixar a cabeça.

Ali ficam os pecados,
as mazelas, estendidos
por mãos de súplica
e arrependimento.

O latim eclesiástico
bombardeia os vitrais
até alcançar a porta
e misturar-se
aos sons profanos
da aldeia ainda sonolenta.

Dominus vobiscum
Et cum spiritu tuo

Ele está próximo à porta.
Não quer abrangência,
quer evitar qualquer vínculo
com o bojo da nave.
Veio porque sabe que ela está lá.

Deus, refúgio e fortaleza nossa.

É o fim da ansiedade
e o início de outra mais forte.

Ite missa est.
Sorrisos e cumprimentos.
E a grande porta
expele fieis de todas as idades
e de todos os pecados.

Ele continua próximo à porta
para vê-la sair, reluzente,
sorridente, fresca e perfumada,
etérea como um anjo,
toda amiga, toda enluvada,
de braços com seu marido.

DADO CARVALHO
Sorocaba, 08.01.2013 – 17:24h

*

INCÊNDIO

Quando senti cheiro de palavras queimadas,
julguei que alguém ficara mudo.

Procurei entre as cinzas uma ou outra letra;
quem sabe uma sílaba que fosse.
Nada. Apenas cascas de frases carbonizadas.

As coisas que você não me disse.
Palavras que se calaram em sua boca.
Preferiu incendiá-las a dizer-mas.

Não me importo.
Também fiz minha fogueira particular
e toquei fogo nos meus sonhos,
em todos os sonhos em que havia você.

Restaram-me apenas a realidade do dia-a-dia,
coisas simples como uma caneca d’água,
lamparina de querosene, prato de ágata,
panela de ferro e… meu bilboquê.

Coisas velhas, mas ainda servíveis,
fieis a seus donos.

Queime mais alguma coisa,
aproveite que ainda há brasas vivas
que restaram de seu incêndio.

Queime seu orgulho, seu narcisismo,
toque fogo no seu espelho,
se tiver coragem.

Tenho um riacho que murmura a meus pés,
e sua linguagem livre é única.
Não há fogo que destrua suas palavras.
Ouço-as e entendo-as.

Sou, com o riacho, o que nunca pude ser com você:
cúmplice.

DADO CARVALHO
23.11.2012 – 23:40h

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