Branca Mello Franco

BAND-AID (2009 – Branca Mello Franco)

A caminhada era rápida, os calçados confortáveis.
A estrada não era asfaltada, mas também não havia buracos.
Terra batida e algumas pedras.
O caminhante seguia sem sobressaltos, olhando o caminho com os olhos duros. Estava sozinho.
Vinha de longe, mas a roupa ainda estava limpa.
E os calçados eram confortáveis. Mas, a alma, não.
O tempo estava nublado, mas não sabia se haveria chuva ou não.
O chapéu sobre a cabeça cuidava de conter os vastos cabelos.
Ruivos. Diz-se que os cabelos ruivos são os da vez.
As sardas que os acompanham, talvez.
Há constrangimento no rosto rubro. Mentir é fogo!
O tempo de caminhada foi-lhe tomando o fôlego.
As roupas já começavam a mostrar a poeira da estrada. A alma também. A verdade virara poeira.
Os calçados, agora, produzem-lhe bolhas nas plantas dos pés.
Os pensamentos começam a ficar turvos, e os olhos também.
O suor lhe escorre da testa. A alma está turva. O céu também.
O chapéu sobre a cabeça resiste. Cobre-lhe a cabeça oca.
Tudo está muito confuso, e o corpo começa a cansar.
A mente, antes alerta, agora se atrapalha.
Agora não anda mais, corre. Chove agora. Muito. Mas não lava a sua alma. O chapéu é jogado ao chão.
É melhor sentar à beira do caminho.
Qual no verso da bela música.
Só que não passarão carros, nem caminhões.
O castigo virá a cavalo.
Não dá nem pra chamar o resgate.
Que se vire o caminhante, com os calçados, agora, fazendo-lhe bolhas.
Não há nenhum band-aid para feridas no coração.
( Branca Mello Franco )
*

LONGE (2012)

Quando o tempo lá fora está sujo
Quando o som aqui dentro está mudo
Quando chora o instrumento na banda louca
Quando sujo de batom a minha boca
Na noite tão bonita de que fujo e deito e rouca
Descanso meu desejo nas escadas do miúdo
Edifício que não tomba, nem deixa que a parede do quarto ao lado ouça
Finjo e murmuro, correndo em direção ao nada, como a louça branca ao partir-se
Estatelada ao chão branco e sujo
Da fuligem do papel amarelado que queimei na vertigem
De querer me livrar do que paristes, ou seja,
O nada.
( Branca Mello Franco )

FOTO ATUAL FB JAN 2012

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