Alexandre Sousa

Mãe

Mãe é coisa inventada por Deus,
que é cheio de invenções.
Criou quando ainda pairava sobre as águas,
lá no começo de tudo,
e viu que era muito bom.
Gostou tanto da ideia que criou uma pra Ele.
Caprichou na feitura,
que só ficou pronta quando o tempo encheu-se de plenitude,
lá para as bandas de Nazaré.
Esperou algum tempo pra ganhar seu primeiro cafuné.
E pra não deixar menino esperando,
resolveu inverter a ordem das coisas.
Mãe agora vem primeiro,
pois mãe é quem gosta de esperar.
E espera por nove meses,
assistindo a barriga inchar.
Inchaço de Amor!
E Deus inchado de orgulho,
contemplando a maravilha que criou.
Ele que entende do assunto,
pois sempre foi Mãe, sendo Pai Criador.

(Alexandre Sousa)

*

Bemtevinês – Alexandre Sousa

Aprendi bemtevinês com os bem-te-vis do meu quintal.
Em menos de um mês, estava fluente.
Fluindo!
E os pássaros se rindo com as piadas que eu contava.
E alegravam-se com as músicas que eu cantava.
Piava.
O Pardal, ao me ver piar, dizia: “Bem-te-viu, bem-te-vê!”
Dizia em bemtevinês, pra que eu pudesse entender.
Agora vou aprender o pardalês.
Talvez demore mais de um mês.
Língua complicada, essa de vocês!
Sem consoantes e sem vogais,
somente com seus piais!
Beijaflorês fica pra depois.
Há necessidade de se fazer muito bico.
E bico em excesso, por ora, basta-me no francês.

(Alexandre Sousa)

*

Mulher

Procurei na gaveta um poema sobre o Dia da Mulher,
uma homenagem qualquer.
Mas não existe homenagem qualquer,
nem poema qualquer,
nem dia qualquer.
Principalmente quando se trata de Mulher!
E qualquer tentativa de escrever qualquer homenagem para o Dia da Mulher,
não será uma tentativa qualquer.
O “qualquer” tá na cabeça do homem.
Pronome indefinido que foi queimado em meio a sutiãs,
junto com outras amarras!
Mulher é substantivo,
e muito bem definido!
Feminino.
Um dia, me atreverei a escrever algo para o Dia da Mulher.
Quem sabe num “Oito de Março” qualquer,
ou em qualquer outro dia qualquer?
Qualquer que tenha sido a costela arrancada,
na força bruta ou de forma amena,
já valeu muito a pena!

(Alexandre Sousa)

*

Casulo

Aprendi a voar com as borboletas,
no dia que resolvi sair do casulo
e voltei a ser criança.
Após a grande revoada,
caí no sono e acordei nos braços da Poesia.
Perfume de alfazema e alforria.
Cheiro de criança e melodia.
Cantarolante e cantarolada,
no véu penumbrante da madrugada.
Orquestra de passarada.
Piarada.
Borboleta não canta no ouvido do homem.
Mas canta e encanta nas oiças da meninada.
Sai desse casulo, homem!
Vem dormir nos braços da Poesia!
Vem bater asas na revoada!

(Alexandre Sousa)

Blog do autor: http://escrevendoesemeando.com

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