Confidência do Itabirano – Drummond

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]*
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e conferido por mim mesmo, publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 36 e 37 *Verso adicionado após pesquisas recentes (ver foto abaixo) e confirmado no vídeo também abaixo, com o poema lido pelo próprio poeta.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=MubgZLVUy0E]

confidencia do itabirano

Conf. Itab. novo 001
Versão do poema mais recente, com verso que falta na obra em livros antigos – “esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;” – O neto do poeta, Pedro Drummond, encontrou o original – inclusive com a letra de Drummond – onde consta o verso que faltava. A nova editora de CDA, a Companhia das Letras publicou o poema com a correção. O livro com o poema completo da foto e correto é “Nova Reunião – vol. 1 – O Brejo das almas”. Contribuição da leitora Dadá Lacerda, autora da Pesquisa Histórica do Museu de Território Caminhos Drummondianos, de Itabira.

 

confidencia do itabirano memorial

confidencia-do-itabirano
Fotografia de Antonio Fabiano sobre versão diferente do poema de Carlos Drummond de Andrade no seu Memorial de Itabira (MG).

 

0 resposta

  1. Estende-se a discussão: Drummond gosta de ser de Itabira? Tanta homenagem na cidade é um equívoco, Itabira se engana ao se achar possuidora do orgulho de Drummond e de sua descendência?
    O poema Confidência o Itabirano mostra-lhe algo?
    Quer discutir comigo? Comente
    Desde já, agradeço.

    1. Drummond sempre amou Itabira e tinha uma birra com a Cia. Vale do Rio Doce por ter destruído o maior símbolo da cidade, o Pico do Cauê, que se transformou em minério e foi pro exterior. Tanto que o poeta defendia a cidade veementemente em suas crônicas no Jornal do Brasil, reivindicando da mineradora pagamento de imposto pelo prejuízo que causava à comunidade (sim, a Vale não pagava impostos!).

  2. Oi Sara, não se si Drummond gosta de ser de Itabira, não leio isso no poema. Mas acho que é nostálgico, un olhar ao passado distante e idílico por a contraposição entre os primeros versos e os últimos. Cumprimentos pra você.

  3. Poeta Fábio,seu blog sempre, sempre a nos encantar!!!
    Maravilha esse poema de Drummond.

    “Confidência do Itabirano” – A alienação e o sentimento de dispersão que aparecem no primeiro poema do livro (“Sinto-me disperso,/anterior a fronteiras”) são vistas como consequências do isolamento geográfico e social de um eu marcado pela decadência (“Tive ouro, tive gado, tive fazendas./Hoje sou funcionário público.”). “Confidência do Itabirano” se fundamenta em uma série de antíteses (“vontade de amar” versus “hábito de sofrer”, etc.), em um impasse poético entre o coletivo (“ferro nas calçadas”) e o individual (“ferro nas almas”). A dor do poeta não é apenas causada pela saudade da terra natal, mas também pelo destino do país, que se modernizava e esquecia cidades como Itabira, que é “apenas uma fotografia na parede”.

    Abraço…

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