Álvaro Alves de Faria – Entrevista a Jorge Adelar Finatto e 2 poemas

Álvaro Alves de Faria – Entrevista a Jorge Adelar Finatto e 2 poemas

“O que me impressionou, e marcou muito, foi ter encontrado um homem completamente só, vivendo uma solidão angustiante. Mas, antes de tudo, um homem ressentido com o mundo. Um homem sozinho (…) Eu estava ali diante de Jorge Luis Borges, um escritor universal, um homem destruído.” – Álvaro Alves de Faria

*

Na entrevista de hoje, a Coluna da meia-noite traz como convidado o poeta, escritor e jornalista Álvaro Alves de Faria. Paulistano nascido em 9 de fevereiro de 1942, Álvaro figura entre os mais vigorosos poetas brasileiros da atualidade. Diversas vezes premiado na poesia, registra, além disso, intensa atuação no jornalismo cultural, em função do qual recebeu, em duas ocasiões, o Prêmio Jabuti de Imprensa (1976 e 1983). E, por seu trabalho em favor do livro, foi distinguido, também por duas vezes, com o Prêmio Especial da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1988 e 1989).

O entrevistado mantém há muitos anos, na Rádio Jovem Pan de São Paulo, qualificado espaço cultural, e nele faz matérias e comentários sobre livros, escritores e arte.

Em 2008, a Editora Global publicou a antologia de sua obra poética na conceituada Coleção Melhores Poemas.

Álvaro Alves de Faria é o único jornalista brasileiro que foi recebido pelo escritor argentino Jorge Luis Borges para ser entrevistado. Desse contato, ocorrido em 1976, em Buenos Aires, nasceu o impressionante Borges: o mesmo e o outro, livro publicado em 2001 pela Escrituras.

Jorge Adelar Finatto – Álvaro, se fosse possível encontrar com algum poeta do passado para conversar durante um dia, quem escolherias e por quê?

*Álvaro Alves de Faria – Escolheria Augusto dos Anjos, que é o único poeta universal brasileiro, sobre quem escrevi uma peça de teatro nos anos 70 e que só em São Paulo ficou em cartaz seis meses no Teatro Ruth Escobar. Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que li na minha vida, quando eu era ainda uma criança. Marcaram-me e marcam-me até hoje sua vida e sua poesia. Tanto que meu primeiro livro adolescente, “Noturno-maior”, foi escrito sob a influência de Augustos dos Anjos e de Chopin.

*Depois escrevi “Tempo final”, no qual a presença de Augusto dos Anjos é permanente. Até hoje Augusto dos Anjos pertence ao meu universo poético, sem esquecer, também, a figura de Álvares de Azevedo, que foi minha segunda descoberta como adolescente.

*Escrevi meu primeiro poema aos 11 anos de idade. Depois de meu contato com esses dois poetas, tudo se transformou em mim e começou, aí, a minha produção de poesia.

*Então eu escolheria Augusto dos Anjos e também Álvares de Azevedo. Sairíamos os três pelas ruas de São Paulo, seriam três “AA” a falar sobre infortúnios. Eu faria uma sugestão aos dois, que acabássemos com o mundo de vez, já que esse mundo nada tem a ver com o ser humano, especialmente o ser humano que ainda consegue pensar.

*JAF – Que versos, que poemas não saem da tua cabeça?

*AAF – São muitos, especialmente de Camões e de Fernando Pessoa. Muitos. Mas há um poema que guardo dentro de mim, do poeta português Eugénio de Andrade, do seu livro “O peso da sombra”, de 1982:

*

Trabalho com a frágil e amarga

matéria do ar

e sei uma canção para enganar a morte –

assim errando vou a caminho do mar.

*

*Também nunca me sai da cabeça um outro poema, “Retrato”, de Cecília Meireles, de seu livro “Viagem”, de 1939, obra que dedicou aos seus amigos portugueses:

*

 Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

*

Eu não tinhas estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

*

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

– Em que espelho ficou perdida

a minha face ?

*

Acredito que esses dois poemas, de alguma maneira, não sei explicar bem, traçam minha própria biografia poética, se é que tenho uma biografia poética. São poemas que dizem poesia, simplesmente, poemas de palavras, sem invenções, poemas que eu chamo de sinceros, se é que a palavra “sinceridade” ainda caiba em algum lugar.

JAF – Além de poeta, um dos mais importantes que temos no Brasil, realizas um interessante trabalho de divulgação de obras e autores. Isso é meio raro no Brasil. Os meios de comunicação, há 20, 30 anos atrás, me parece, tinham um espaço mais qualificado*para a literatura e a cultura. O acesso era mais democrático. Tenho a impressão que a coisa está muito mais difícil…

AAF – É aí que entra a desonestidade do jornalismo cultural brasileiro, de uma gente medíocre que mede as coisas de acordo com as suas medidas, que são as da inconsequência. Escrevi sobre livros a vida inteira. A vida inteira, promovendo sempre os eventos culturais ligados à literatura, trabalho que realizei, ao longo dos anos, em jornais, revistas, rádio e televisão. Aliás, eu tenho orgulho de ter sido assim a vida*inteira e de continuar sendo assim.

Quando fui editor do suplemento cultural do Diário de S.Paulo, que eu criei e editei por doze anos, abria o espaço até para os chamados “desafetos”, sem problema algum. Hoje só entra quem faz parte da turma. Turma mesmo. Em Portugal seria “malta”.*

As coisas estão muito difíceis em nosso país como você diz. No ambiente cultural também existe*gente desonesta mesmo. Não tenho receio nenhum de dizer isso. O tempo de ter receios já passou na minha vida. Gente que inventa nomes da noite para o dia e que desaparecem para sempre do dia para a noite.

O jornalismo cultural e as universidades, com algumas exceções,*estão nas mãos de gente que escreve uma história mentirosa. Mas isso é digno do Brasil, que é ainda um país que busca a civilização. Também nessa questão não tenho receio de nada, como cidadão brasileiro. Então publicam-se resenhas de subliteratura norte-americana e de outros países. Basta ser livro estrangeiro para merecer destaque no chamado jornalismo cultural. Já os poetas e escritores brasileiros se defrontam com os donos do poder, que mandam e desmandam, fazem o que bem entendem, promovendo a mediocridade que reina no país em praticamente todos os segmentos.

É preciso, sempre, no entanto, louvar as exceções, que existem, felizmente ainda existem. Mas está tudo entregue a uma inconsequência e a uma irresponsabilidade próprias até mesmo dos que não têm caráter. Veja você: a questão da literatura brasileira esbarra até no que diz respeito a caráter. É demais. O que não falta é gente de duas, três, vinte caras. Todas diferentes uma das outras. Servem para qualquer situação. Depende dos interesses.

JAF – Como vês a relação entre poesia e internet ?

AAF – Vejo com bons olhos. Muita gente está fazendo um belo trabalho nessa área. Acompanho muitos jornais e revistas eletrônicos que falam de literatura. É um caminho novo e todos os caminhos têm de ser aproveitados em favor da literatura, especialmente da poesia. Mas até aí, nessa coisa nova, já começa a existir um certo ranço, aquela coisa bem subdesenvolvida mesmo, de gente que pensa ser rei e que todos, ao seu redor, são súditos. Até aí já começa a se espalhar essa realidade lastimável.

Gente que sempre se mostrou amável, com uma máscara digna dos carnavais mais obscuros, e, de repente, se revela como o perfeito idiota da mídia. Infelizmente a mídia eletrônica também começa a ser contaminada por indivíduos que não são o que pensam ser. São apenas indivíduos circunstanciais.

JAF – Há algum ressentimento nisso ?

AAF – Claro que há. E muito. Sou, sim, uma pessoa ressentida. E sabe por que sou uma pessoa ressentida? Porque sou honesto naquilo que faço dentro da literatura e da poesia especialmente. Para usar uma expressão bem chula, não sou sacana com ninguém. Nunca fui. Muito pelo contrário. E não estou fazendo discurso em causa própria.

Numa entrevista a gente tem de dizer o que sente, o que é, o que não é, não pode haver disfarce. Uma entrevista é uma fotografia de palavras. Muita gente quando fala em ressentimento parece não gostar muito da expressão. Não é o meu caso. Sou ressentido, sim, ressentido com comportamentos que não casam com o que é honesto. Dentro e fora da literatura.

JAF – Diante disso, a literatura é uma batalha perdida ?

AAF – Não. A literatura é sim uma batalha de todos os dias, mas não está perdida. A literatura tem que ser o documento da vida do homem. Não pode ser apenas um exercício de palavras inútil.

A literatura é a palavra de seu tempo. A poesia é sentir e abrir esse sentimento. Claro que existe a arte poética, a elaboração gráfica do poema, o texto do poema bem estruturado. Tem tudo isso. Mas, antes de tudo, a poesia não pode se distanciar do homem. Por exemplo: demorei muitos anos até entender que a poesia de João Cabral de Melo Neto não passa de uma farsa.

Quem tem coragem de dizer isso? Eu tenho. Tanto que estou preparando um livro de poemas sobre a poesia de João Cabral, aquela poesia distante, ausente da vida, aquela poesia de um engenheiro, de um mecânico, o poema escrito com uma fita métrica, tudo ajustadinho, as palavrinhas colocadas como tijolinhos uns em cima dos outros. Cansei dessa conversa.

Levei muitos anos para compreender essa farsa enaltecida, como se João Cabral fosse um deus da poesia brasileira. Não é. A exemplo de muitos outros, é apenas um farsante. Agora, se a poesia é uma farsa, eu tenho de concordar. Prefiro Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima e alguns outros.

JAF – Nos últimos anos, vários dos teus livros foram publicados em Portugal. O poeta Affonso Romano de Sant’Anna diz que és o mais português dos poetas brasileiros. Como é isso ?

*AAF – O Affonso Romano de Sant’Anna compreendeu a minha poesia dos últimos anos. Ele percebeu que essa poesia que mergulhou na poesia de Portugal não era uma aventura. Decepcionado que sou com a poesia que se produz neste país, parti mesmo para Portugal em busca da poesia que me falta aqui. Costumo dizer, e isso causa alguma ira a alguns desafetos, que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.

*Em Portugal pelo menos consegui respirar. Tanto que me considero um poeta português. E sou, já que tenho dupla nacionalidade. Mas abro mão da brasileira. Quando Affonso Romano de Sant’Anna escreveu que eu sou o mais português dos poetas brasileiros, sinceramente senti orgulho e isso envolve minha antecedência. Essa afirmação do Affonso Romano de Sant’Anna representa um dos maiores elogios que recebi na minha vida. Não me interessa pertencer a um país do faz-de-conta e da mentira.

*Essa questão envolve muita coisa, além da poesia em si. Envolve caráter de gente duvidosa, envolve o comportamento de um jornalismo cultural inconsequente, envolve a promoção que chega a ser ridícula de gente que não passaria pelo crivo de uma crítica razoável e até generosa. No entanto, são esses que estão aí dando ordens e ditando as regras de um jogo do qual me nego participar. E me negarei sempre. Sempre foi assim, não seria agora que eu mudaria.

*Não me interessa mesmo o que ocorre na área da poesia no Brasil, excetuando-se, é claro, alguns nomes que me merecem respeito. Mas a grande maioria não me merece respeito nenhum, especialmente aqueles que, de alguma maneira, podem interferir na documentação histórica do que de fato ocorre na literatura do país.

*Não gosto de mentiras nem de invenções. Não gosto do comportamento de gente que não tem só duas caras, de gente que tem muitas caras, muitas. Cada uma para uma circunstância. Veja bem: a literatura brasileira depende até disso para dizer que existe.

*JAF – Até quando vai essa busca da poesia em Portugal ?

*AAF – A vida inteira, enquanto houver vida, minha poesia será de Portugal, será colhida em Portugal, será feita em Portugal. Sempre respeitando alguns poetas brasileiros que merecem respeito. E são muitos.

*No que diz respeito a mim, dei adeus ao Brasil no que diz respeito à poesia, o que, a bem da verdade, não tem qualquer significado prático. Mas tem significado para mim, porque fui a um país, o país de meus pais, onde a poesia é de fato respeitada e levada a sério. A paisagem é outra. Não vivo em Portugal, mas é como se vivesse, para usar a linguagem de Fernando Pessoa.

*JAF – Álvaro, passados tantos anos dos dois encontros com Jorge Luis Borges, em 1976, gostaria de saber como essa experiência marcou tua sensibilidade.

*AAF – Para mim, marcou muito, nem poderia ser diferente. Mesmo porque, quando comecei a tentar a entrevista com ele, as ligações telefônicas no Brasil eram lamentáveis, difíceis de completar. Ligar para o exterior era uma verdadeira aventura. E foi assim quase todas as vezes que liguei para Buenos Aires. *

Borges atendia-me monossilábico. Tanto insisti que concordou que eu fosse vê-lo, no seu apartamento, na Calle Maipu, na capital argentina. E o que seria uma entrevista rápida, acabou sendo um encontro de 12 horas, em dois dias. E é preciso lembrar que ele, Borges, foi quem pediu que eu voltasse no dia seguinte.

*O que me impressionou, e marcou muito, foi ter encontrado um homem completamente só, vivendo uma solidão angustiante. Mas, antes de tudo, um homem ressentido com o mundo. Um homem sozinho. Quando o encontrei, sua mãe, com quem vivia, tinha falecido alguns meses antes. Ele estava ainda envolvido com isso de maneira profunda, porque dependia da mãe para tudo. Essa entrevista marcou-me demais também pelo que me disse.

Eu estava ali diante de Jorge Luis Borges, um escritor universal, um homem destruído. Guardei a entrevista durante 25 anos. Não a publiquei, quando regressei a São Paulo, também porque ele elogiava demais os militares que na época governavam a Argentina, a quem chamava de “cavalheiros”. Por extensão, seria um elogio para os militares que estavam no poder no Brasil. No fundo, não publiquei nada porque sai do apartamento dele bastante amargurado, até mesmo na questão ligada à literatura. Quanto ao homem, ao ser humano, pareceu-me uma figura que cultivava um ressentimento doentio, uma espécie de raiva a tudo.

*JAF – Uma palavra aos jovens poetas e escritores que enfrentam uma realidade tão difícil e dura como a nossa.

*AAF – Nunca sejam filhos-da-p. com ninguém.

___________________

Dois poemas de Álvaro Alves de Faria:

*

Aqui na floricultura

do Largo do Arouche,

eu espero o fim do mundo

olhando para a Academia* Paulista de Letras.

Os automóveis estacionados na madrugada

me fazem lembrar sepulturas antigas

que me habitam.

Aqui na floricultura do Largo do Arouche

escolho as últimas flores

para a última mulher.

Tenho em mim as palavras desnecessárias

para um discurso que nunca farei.

Aqui na floricultura do Largo do Arouche

espero o fim do mundo

como quem espera o bonde

da avenida São João

que não existe mais.

*

Auto-retrato 

Ando sempre com a sensação

de estar à beira de um colapso.

Mas sei que isso faz parte

da brutalidade cotidiana.

Enquanto não dou um fim a tudo,

me submeto à próxima

vontade de existir,

como se tudo fosse normal.

( Álvaro Alves de Faria. Coleção Melhores Poemas, pp. 137/162. Editora Global, São Paulo, 2008. Site do autor: http://www.alvaroalvesdefaria.com Blog: http://alvaroalvesdefaria.blogspot.com – Postado com autorização do poeta. )

Publicado por Fabio Rocha

Poeta, Terapeuta Holístico e Administrador de Empresas

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