Seleção de melhores poemas do site antigo

VENTO FORTE

(Para Mario Quintana)

O vento aqui não pára.

Nem um segundo,
nem um pouquinho.

Ah, se eu fosse moinho…

Fabio Rocha )

*

OS PÁSSAROS?

O sol renascia.
Bocejadamente abri a porta.
O horizonte se escondia atrás das árvores.

Entro no estábulo de folha
e alimento minha criação.
Do balde ao chão:
consoantes, dígrafos, cedilhas…

Comem caladas.
Levo duas ao colo e as embalo,
dou tapas nas costas, faço de tudo
mas não rimam.

Foi quando estranhei um estranho estranho ali parado.
Sem métrica para prendê-las,
todas voaram, cheias de sons pensados,
para seus olhos.

Fabio Rocha )

*

DA TENTATIVA

Quis fazer um poema triste.
Mas triste estou eu, não o poema triste.
(Celulose com rugas no carpete.)

Tento fazer um verso frio.
Mas frio é esse tempo excomungado, não o verso frio.
(Alvidez alvidrada janela abaixo.)

Imagino um soneto morto
e vejo que a folha não respira.

– Medusa, olha essa poesia!

Com pena idiossincrática,
deito a pena esferográfica.
(Talvez se eu falasse de lagartixas…)

Fabio Rocha )

*

ALEGRIA

(Para Drummond)

E eu aqui nesta cidade,
cercado de realidade,
aumentando a minha idade,
alérgico a felicidade,
procuro flores no asfalto.

Fabio Rocha )

*

O GATO

De quando em vez
esse ser equilibrado
de aparente ausência assimilada,

esse eu sério, de óculos, barba,
poucas palavras e sorrisos,
desce da altura medida.

A vista míope enturva, escurece.
Dentes trincados não fazem preces.
A lentidão de pernas e braços
destransforma-se em negro gato.

Gato ágil que arranha de angústia rouca
tão profundo, tantas vezes, tanta gente…
vai embora num relampejar de luz pouca
e sou eu quem se arrepende.

Fabio Rocha )

*

SPAM

Emagreça
dormindo:
morra.

Fabio Rocha )

*

PSICANÁLISE FREUDIANA

Agarro a gruta
pela goela
com força bruta
olho em seus olhos
meus:
morte.

Dentes trincados
pelos eriçados
um gato que foge
pro escuro
por mais que se aperte.

(Seu tempo acabou)

Fabio Rocha )

*

PRECIOSIDADE

Valéria tem olhos de medo
como o dos pássaros
pequenos e frágeis.

Há agitação
sob as camadas
de sua plenitude
alva.

Cabelos e plumas se confundem
no lume
que vejo
e que imagino…

Valéria
fala pouco
mas olha muito.

Pra mim, basta.

E sigo, besta
a escrever muito
e falar pouco.

Ah, se nossos silêncios
se tocassem…

Fabio Rocha )

*

CONS-TATO

Sabe essa falta
dentro do peito
na madrugada?

Essa que Drummond
chamou de ausência
e tirou pra dançar?

Eu não sei dançar com ela.

(Então aperto-a
sinto-a plenamente entre minhas mãos
e deixo cair
o pó de palavras
quente.)

Fabio Rocha )

*

A CECÍLIA MEIRELES

Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.

Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.

Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:

A poesia da rosa
é seu espinho.

Fabio Rocha )

*

PARA MANOEL DE BARROS

Seu Nhonhô
morava no silêncio
e tinha cabelos de nuvens.

Era irmanado das águas paradas
e de quando em vez libélulas
punham ovos em sua cabeça.

Sua voz tinha falha de crostas
e vulcões invisíveis expeliam o nada por suas ventas.

Da última vez que o vi
estava árvore.

Quando foi cortado,
se cercou de cinza
e desandou a falar sem dizer.

Fabio Rocha )

*

CORTE

Tenho sorte.
Ao menos tento forte
(mesmo que não acerte)
fazer do ócio, arte.

O tempo curto – corte.

Sem vida – morte.

Fabio Rocha )

*

ÁGUA VIVA

Eu quero o poema cnidoblasto,
cheio de chatos nematocistos.

Que arde como os antigos emplastos,
estranho como os ornitorrincos.

Que ignore aqueles verdes pastos
e embriague como vinho tinto.

Quero o verso chato enigmático
que cante tudo e nada que sinto.

Que se danem o pássaro simpático
e as flores em formato de brinco.

Fabio Rocha )

*

DELIVERY

Somos nazistas alienados
contribuindo semi-cegos
para os campos de concentração
de renda.

Criamos necessidades de consumo
inúteis
matando chances e gentes
ainda mais cegas.

Quem tem olhos,
tem bolsos
cheios
e milhões
de vendas.

Fabio Rocha )

*

NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.

Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.

Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível.

Fabio Rocha )

*

PRALARVAS

O que fica
da vida
vivida
pro amanhã?

Trabalho pra larvas.

Fabio Rocha )

*

SOL E CÉU

Fazer cada pequena coisa
perfeitamente
requer tempo e paciência
que temos em alguma árvore perdida.

Ouço suas folhas.

Fabio Rocha )

*

ESCREVER LAVA

Geralmente é quando leio
que o silêncio crepita distante.

É preciso então parar.
Prestar atenção:

Uma folha em branco
para conter a luz
antes que se perca
no escuro labirinto do momento.

Sinto
no ar seco
a invisibilidade
a que aspiro.

E na catedral inexistente
acendo uma vela imaginária
com a palavra.

Fabio Rocha )

*

SUBÚRBIO

As pessoas na rua
aplaudem
as casas sem campainha.

Fabio Rocha )

*

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