Kierkegaard e o Acaso

Demoníaco acaso! Nunca te amaldiçoei por teres surgido, amaldiçoo-te porque, em absoluto, te não mostras. Ou será uma nova invenção Tua, ser inconcebível, estéril mãe de tudo, única coisa que resta dessa época em que a necessidade deu à luz a liberdade, e em que a liberdade se deixou iludir para regressar ao seio da mãe? Demoníaco acaso! Tu, meu único confidente, único ser que julgo digno de ser meu aliado e meu inimigo, sempre idêntico malgrado as tuas diferenças, sempre inconcebível, sempre um enigma! Tu, a quem amo com toda a minha alma simpatizante, tu, a cuja imagem e semelhança me criei a mim próprio, por que não apareces? Não mendigo, não te suplico humildemente que te mostres deste ou daquele modo, porque tal culto seria uma idolatria, e pouco agradável para ti. Desafio-te ao combate; por que te não mostras? Ou será que parou o pêndulo do universo; será que foi resolvido o teu enigma e te lançaste, tu também, nas águas do eterno? Terrível pensamento! o mundo, de fastio, ficaria parado! Demoníaco acaso! Eu te espero. Não pretendo vencer-te com princípios, nem com isso a que os imbecis chamam caráter; não, eu quero sonhar-te! Não quero ser um poeta para os outros; mostra-te, pois em sonhos te crio, e devorarei o meu próprio poema, será esse meu único alimento Ou considerar-me-ás indigno? Como a bailadeira que dança para glória do seu deus, me consagrei ao teu serviço; leve no corpo e no vestir, ágil, desarmado, renuncio a tudo; nada possuo, nada desejo possuir; nada amo, nada tenho a perder mas, graças a isto, não me terei tornado mais digno de ti, de ti que, sem dúvida, já de há muito te cansaste de arrancar aos homens o que eles amam, enfadado com os seus suspiros covardes e as suas covardes preces? Surpreende-me, estou pronto, lutemos, não por um prêmio, apenas pela honra. Deixa que a veja, apresenta-me uma oportunidade que pareça impossível, mostra-me entre as sombras do reino dos mortos, e eu a trarei de novo à vida; que ela me odeie, que me despreze, que use para comigo da maior indiferença, que ame um outro, nada temo; mas faz mover estas águas paradas, interrompe o silêncio. Matar-me assim de fome é uma vergonha para ti, pois imaginas ser mais forte do que eu.

Kierkegaard, Søren. Diário de um sedutor. In: Pensadores. São Paulo: Abril, 1974. v. XXXI. p. 163

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Fotos entre a Prainha e o Grumari, no Recreio dos Bandeirantes – Rio de Janeiro, RJ, janeiro de 2008.

O real comum decepciona a expectativa das almas por demais ardentes: elas desejariam encontrar no real a densidade, a mesma densidade que as inflama. A alma exigente é ferida pela ausência de distinção moral, de nobreza de alma dos outros, ferida por aquilo que é baixo e vulgar. Fica assim remetida de volta a si mesma, ao fundo de interioridade de onde brota a exigência decepcionada. O sofrimento causado pela melancolia tem, portanto, um caráter de profundidade que perfura a interioridade. O que guia a procura desses seres é o desejo de encontrar os verdadeiros fundamentos da alma ‘fugindo da dispersão para entrar no recolhimento da essência’. A pulsão que se manifesta no seio do seu tormento é a da gênese do nascimento para si mesmo em espírito e verdade, indo além do marasmo da finitude. Se não existe nascimento sem sofrimento, isto é igualmente verdadeiro no que tange ao nascimento para si mesmo na dimensão da interioridade.

Retirado do livro Compreender Kierkegaard, escrito por France Farago, editora Vozes, 2006.

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