O Prazer – Adilson Jardim

O Prazer – Adilson Jardim

O prazer está amarrado de uma maneira atroz ao presente. Ele não pode ser adiado, “a felicidade não se compra” nem é dividida em suaves prestações.

Vive-se na feliz expectativa dos 65, 70 anos. Mas é uma alegria compartilhada apenas entre os que “têm muito tempo ainda”. As estatísticas só são gentis com quem se guarda, se recolhe, adia o prazer o máximo possível, porque o Sistema ensina que ele sempre estará mais na frente (ali, no final do arco-íris). “Comportar-se” é a palavra-cha­ve com que o Sistema opera. O prêmio pode ser a vida eterna, por exemplo, cheia de gozos. Entre os mais pessimistas, entretanto, só se pode lamentar uma coisa, que é mais ou menos certa: seja o que vier, se vier, depois enterram o sujeito, ele é esquecido, mesmo depois de alguém lembrar, no dia de sua morte, que foi um exemplo de virtude e que seguiu as regras da sociedade, às quais ninguém lhe disse quem criou. Ganha ou não estátua em praça pública. Terá passado pela vida como uma coisa teimosa que, ainda que tivesse aceito abrir mão dos prazeres temporários à sua disposição, somente adiou, por um tipo de maldade que lhe pertence, o alimento que outras criaturas menos teimosas que ele aguardavam com ansiedade, os vermes da sua tumba, anônimos como ele será.

Então, por que abrir mão de certos prazeres que, se para a gloriosa Humanidade será um motivo de escândalo, são certamente deliciosos para o corpo? A resposta viria, como cobrança da consciência (disfarce para o medo da vida), na forma de um “as conseqüências seriam tragicamente dolorosas, pois trariam o sofrimento, seja por parte de outros sujeitos e de seus vetos, seja por uma moralidade pessoal, seja por saber que a vida sob certos tipos de prazeres se encurta absurdamente, ou melhor, proporcionalmente ao tamanho do prazer solitário (leia-se ‘as perversões’, por exemplo)”.

Imensamente, intensamente, o prazer do sujeito se encontra vinculado à utilidade para os outros – os outros que formam o conjunto sem cara, chamado o Sistema, não aqueles átomos dispersos que se deslocam aqui e ali de suas margens “controláveis”. “Deseje, queira, excite-se, possua, mas devolva o prazer que lhe permitimos com os juros devidos”. A Religião o permite para a geração de herdeiros, a mão-de-obra de sua fé. A mulher o permite, para que possa receber em troca o afeto. O mercado o multiplica, para que os lucros estejam garantidos. Mas o prazer é algo restrito, é algo que deve permanecer assim, e todos o querem assim. Esse é seu sentido, essa é sua condição, sem a qual não teria existência, e que não deve ser compartilhado mais do que por uma, duas pessoas. Às vezes dez, às vezes uma multidão, mas cada qual envolvido numa aura particular de êxtase e mistério. O prazer pertence ao eu. Daí sua natureza performática, de oroboros, de serpente que busca sua própria cauda, que procura infligir dor a si mesma, percurso de ida e retorno que representa o prazer, mas igualmente o sofrimento. A memória é o passado do Sistema que assombra os indivíduos. A dimensão do prazer é solitária e egoísta, o retorno a si é a resposta da procura do outro. Não o “outro”, com sua vontade personalíssima, mas o outro que não é outro senão “eu mesmo”. Daí a destruição aurática do outro para a permanência de um único gozo: o meu.

“Por que certas pessoas somente sentem prazer quando infligem o Mal aos outros?”, perguntam as pessoas atônitas com os crimes sexuais. Mas será que o prazer, mesmo no amor platônico, não é, ele mesmo, um crime contra a humanidade? Mas o que é o amor platônico, senão uma “ereção escondida até do objeto amado”? Mas o que é “a Humanidade”?

O degenerado é o indivíduo que buscou encarar seus demônios de frente e acei­tou compartilhar o mundo com eles, ao invés de vencê-los e aliando-se em derrota a um deus que nada pede para si, a não ser uma morte suave para a alma e rica em pancadas para o corpo. Ele é o sonhador que ousou se excitar com uma cena de lindas crianças de cartões postais, meninos e meninas, entregues às suas mãos enormes que se derramam e escorrem sobre aqueles pequeninos e frágeis corpos. Como evitar o arrepio da sensação agradável de controle e domínio sobre suas vontadezinhas de fino cristal? Mas o degenerado, em qualquer tempo, também é aquele que “arroga” (arrogare, eu desejo, eu tomo para mim) o que acredita que já lhe pertencia. O político arroga o poder, o povo arroga a democracia, os pais arrogam a educação de seus filhos. Quantos crimes não passaram impunes em nome da “harmonia do Sistema”?

Quando o prazer é exposto ao público, a multidão precisa reabsorver seus ex­purgos, devolver o prazer para dentro de si, de seu raio de ação e da sua vista promíscua. Uma retroalimentação contínua. Como um boi que rumina seu repasto e, molhando-o com sua saliva pegajosa, esconde-o novamente nas entranhas obscuras de seu grande estômago insaciável. A grei devora o objeto que lhe dá prazer, uma vez que este lhe é exposto. Apenas o modo de devorar o que lhe satisfaz é apresentado de maneiras distintas, de acordo com cada classe que forma o Sistema. Em O Perfume, do escritor Patrick Süskind, a multidão de sujos e maltrapilhos comemora antropofagicamente seu pequeno Jean Grenouille, após se embriagarem de sua essência de moças virgens. A excitação sexual, a orgia impudica só era criminosa aos olhos da classe média, dos comerciantes e dos clérigos, dos homens de negócios e de suas distintas senhoras. Portanto, ei-lhos entregues à sua própria depravação. A dos desqualificados pelo Sistema era sua fome. Os primeiros devoraram as virgens, suas próprias crianças que aquela pequena rã trazia dentro de si; os segundos, a própria rã. Para uns, o prazer estava completamente saciado, não havia mais qualquer resquício de sua existência na terra; logo, não haveria memória, e muito menos arrependimento. Mas, para os outros, enquanto aquele odor que permanecia nele estendesse o prazer, sua inteligência de cultura superior necessitava nomeá-lo de outros termos menos lascivos, tais como “ternura”, “indulgência”, ou o pior de todos os títulos, a essência mesma de sua alma maligna burguesa: “o amor”.

Mas o prazer é igualmente burguês, e igualmente proletário. Seu território é um intercurso, que pode ser as vias da ascese ou as tripas do estômago. A trilha é áspera e o preço é caro em qualquer situação. Afinal, a gula também é um pecado, assim como a luxúria. Os bons garfos seguram, na realidade, tridentes com que espetam os famintos, e suas bochechas rosadas são o estigma de seu parentesco com o diabo.

Logo, o prazer é simpático à “Humanidade”, desde que possa ser chamado de outra coisa, qualquer uma que faça perder no indivíduo a lembrança pessoal, que faça perder o indivíduo no coletivo.

Adilson Jardim – Olinda, 26 de dezembro de 2006

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