A Mosca Azul – Reflexões sobre o poder – Frei Betto

Arístocles de Atenas, mais conhecido por Platão, devido às suas avantajadas omoplatas, fez três viagens da Grécia a Siracusa, na Sicília, com o objetivo de transformar sua filosofia idealista numa fonte de poder. Platão vinha de uma família de políticos. O pai, Ariston, descendia do monarca Codro, e a mãe, Perictiona, teria na raiz de sua árvore genealógica Sólon, o primeiro legislador da Grécia. Cármides e Critias, dois dos Trinta Tiranos que promoveram o golpe oligárquico em 404 a.C., eram tios de Platão, e o convidaram a integrar o governo. Mas Platão guardava fidelidade a Sócrates, que se negara a prender Leão de Salamina, um democrata exilado por ordem de Cármides e Critias. Arrasado com a ordem dos tios, Platão comentou: “Eu me nutri de muitas ilusões, o que não é surpreendente considerando a minha imaturidade”, diz em A República.

Os democratas lograram derrubar os oligarcas e aprovaram a lei de anistia que pôs fim à guerra civil. Mas Platão iria enfrentar outra decepção, desta vez com o novo governo: os democratas processaram Sócrates e o condenaram à morte, em 399 a.C.. Abatido pelo infortúnio, Platão deu tratos à bola para imaginar um governo sem os desvios da oligarquia e da democracia. Segundo Aristóteles, “é preferível dizer que existe a democracia quando o poder supremo está em mãos de homens livres e que existe oligarquia quando está em mãos dos ricos”. E Platão concluiu que os males do homem não terão fim enquanto não chegarem ao governo os puros e autênticos filósofos.

Ora, quem disse que os políticos amam filosofar? Poucos têm o hábito de ler mais que os jornais do dia e as revistas da semana, mesmo assim para saber se mereceram bom destaque nas notícias. E entre filosofar e praticar há enorme distância. Há teólogos que se tornam bispos e nem por isso se revelam bons pastores. Filosofar é uma coisa, administrar, outra. Que o diga o próprio Platão depois de suas três viagens frustradas a Siracusa.

Na primeira, a convite de Dión, empenhou-se em ensinar filosofia à corte de Dionísio I, o Velho. Acreditou que um punhado de boas idéias haveria de oxigenar a estrutura do tirano. Farto de suas críticas, Dionísio I o expulsou da cidade e o embarcou num navio espartano, que fez escala na ilha de Egina – então em guerra contra Atenas, para azar de Platão. Feito escravo, logo o resgatou Anniceris, pitagórico que ele conhecera em Cirene. Nada como uma boa amizade!

Morto Dionísio, o Velho, Dionísio II, o Jovem, deixou-se convencer por Dión a chamar Platão de volta a Siracusa. Quem sabe agora as boas idéias haveriam de livrar a pátria de Arquimedes do peso da opressão? O filósofo escandalizou-se com o que viu: “A gente ficava inchada por comer duas vezes ao dia, e ninguém dormia sozinho à noite”. Como filosofar se a gente anda dedicada aos excessos? Dionísio, o Jovem, à semelhança do pai, aborreceu-se com as críticas de Platão, mandou Dión para o exílio e prendeu o filósofo, primeiro em seu palácio e, em seguida, no fundo de uma caverna – que ao menos num ponto lhe foi propícia, pois ali dentro criou o Mito da Caverna. Dión refugiou-se em Olímpia, enquanto Platão quedou atado numa correia de cachorro até o jovem tirano decidir desterrá-lo.

Mais tarde, Dionísio II chamou Platão de volta. Este aquiesceu, convencido de que um poderoso iluminado é capaz de modificar um regime obscuro, cheio de fé no poder das idéias e nas intenções dos governantes. Ali permaneceu seis anos, até ser de novo preso numa gruta chamada Orelha de Dionísio, em forma de ouvido gigantesco, mina de onde os gregos extraíam pedras para erguer seus templos. Platão só não foi decapitado porque, no último instante, o salvou Arquitas, influente na corte. Libertado, o filósofo retornou a Atenas, enquanto Dión recrutava um exército de platônicos que, provido mais de armas que de idéias, derrubou Dionísio do poder e executou-o.

É de se supor que o mecenas de Platão, uma vez coroado, aplicou à política a boa filosofia aprendida de seu mestre? Que nada! Em matéria de poder a árvore nova quase sempre cresce sobre velhas raízes. Dión instalou sua própria ditadura, que durou três anos, até ser assassinado por Calipo, discípulo de Platão. Em suma, no poder, as intenções, incluídas as dos programas eleitorais, são o que há de mais difícil de administrar, pois costumam ser vencidas por injunções e pressões, conveniências e seduções. (…)

Extraído do Livro A Mosca Azul – Reflexões sobre o poder
de Frei Betto, pág. 180-183

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