Poesias sem explicações

Ave Maria

celestando o seu nome
quase esqueci de não crer
no que imaginei

pois se dou asa a ela
em aquarela
me perco do peso
do solo
de mim…

o mundo é uma dança florindo
criança sorrindo…

quase
quase…

agora
abuso
da força de minha covardia
pra não tentar realizar
o sublime

Tem os olhos de Clarice. Não pela forma amendoada. Pela profundidade de ver.
Traz consigo um sorriso em tom de sempre.
E ainda gosta de violinos…

FAZ SINA: A SINA DO FASCÍNIO (OU DE ONDE NÃO CITAREI A NONA SINFONIA)

a poesia que não faço
dança o plexo em descompasso
(não a confesso nem a mim)

cada espaço meu
leva um traço de sorriso
da poesia que não faço
e passo a passo
me faz sim

*

RUIDOSAMENTE

eu já sabia seu nome antes de ser
agora tento não o dizer
para que a mulher gigante adormecida
como as montanhas do Rio de Janeiro
não se levante em câmera lenta
e seja você

*

enquanto o dia desce
em ilusão lilás
sorrio em íntima festa
por olhar a fresta
da perfeição

(e silencio arrependido:
dando palavras
à dança,
morre a bailarina.)

*

SEM PALAVRAS

você foi a única
a calar
meus poemas

*

vejo teu rosto na lua
brilhando impossível na manhã

e deixo netuno navegar no azul
pois navegar é precioso

ando silencioso
sem mover os pés

através da lua
do teu rosto
do teu nome
aprendo a não aprender

*

PRECISO

se ainda há magia
no mundo, na vida, na poesia
está no seu sorriso

*

A LETRA A

um poema crível
rascunho de mim

um poema assim…

punho visando o impossível

(teu rosto de lua)

caminhar sem mover os pés

do branco na folha
um poema através
da boca que cala

vermelho perdido

deixo o poema me sangrar
metralhar
todas as chagas

(entrego-te as armas)

deixo o poema gozar
sem defesa
nem ataque

apenas o toque

(ao menos o poema)

tentar tentações
morrer aos leões
rimar rugas com beleza
quebrar o ritmo das soníferas certezas…

(um cavalo dispara)

GC

guardei minha vontade de ti
como o sonho de um sonho de um sorriso
possível
quietinho cá dentro
até que expulsá-la do plexo
fosse possível
(mesmo sem nexo)

agora eu quero maiúsculo
além das asas
da tela em prosa
(e das imaginárias bochechas rosas)

enfim
você
então
você
em pele,
verso
e possibilidades
poéticas

DO NÃO PODER

no centro da cidade segredo
mora a loirinha de olhos
mágicos compridos claros

olhares
se cruzam
espadas

não pude falar
não posso falar

no centro de seus olhos
naquele instante ínfimo
estava nítido o universo

sem palavras

*

CONFESSO

quando somos verdes
cremos que acharemos
a mulher da nossa vida

maduros
percebemos
que há várias

umas ficam
outras passam
todas amo
impossíveis
em ti

*

DA PERFEIÇÃO DAS HORAS

quando caminhávamos brancos
sob as mesmas árvores tão diferentes
éramos céu e nuvens
nossos silêncios se aqueciam

tínhamos tudo

(a falta de um beijo pode eternizar perfumes)

toco a tecla do sonho não realizado
e ainda te sinto ao lado
e ainda estou
e estarei sempre
exageradamente
no momento exato
quando caminhávamos brancos
sob as mesmas árvores
tão diferentes

*

QUARTO POEMA PARA ELA

tem cheiro do mar onde moro
como não demoro a amar

se é ilusão
é a ilusão mais linda que me sorri
e filosofando aprendi
não saber o que não é ilusão

*

EU E SEU PERFUME

não pode ser pecado
ou errado
algo tão perto do perfeito
e do sagrado

*

SALTO QUÂNTICO

é do alto
do abismo
que se voa

*

COMENDO NESCAU BALL

da base
de seu pescoço fino
nascem cabelos
sóis
infinitos

do lado de cá do sonho
(eu tão perto e tão longe)
o coração transbordando
sua pele tal oração

*

PARA ELA VIR PRA PRAIA

e nos sentamos
sob a árvore linda e sem nome
afastados
(exceto as sombras)
meus olhos te tocando
e os nossos silêncios dançando

Retrocesso Romântico-Apaixonado

era o mar, ela
e o mar invadia tudo
e o sonho molhava o que ainda era…

você beijava outro
morno
e me olhava triste

depois você reclamava
de eu nunca mais falar o que sentia
como se ainda sentisse…

linda, se amar é deixar de lado o abismo
se amar é encontrar um chinelo velho
para um pé cansado
com você eu sempre fui
sempre serei
vôo

você sempre será
meu sonho mais alto
meu inalcançável
que quase alcancei

você será eterna:
o melhor poema
que não publiquei

Uma resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *