por não estarmos distraídos

agora, a certeza precisa de que perdi o mais precioso. agora, tarde. agora que durmo com a camisa que usavas pela pura impossibilidade do abraço. que me despeço de teu cheiro. agora, que a meditação se impossibilita pelas lágrimas. lágrimas sem teu colo. agora, tarde demais.

agora que lembrança é pânico a se enterrar em gavetas. quantas coisas coloridas, cremes, cabelos… meu deus inexistente, socorrei agora que me faço cinza.

porque antes nunca fomos distraídos. e sempre que se abria a porta pro fundo do peito, fechava-se a janela pro mundo… e sem ar, sufocávamos sonhos. sem água, não entendíamos nada. sem paz no passado ou no futuro, perdíamos lentamente o presente. e as mãos não se davam mais naturalmente. e tínhamos raiva das sextas-feiras cheias de previsibilidade. e brigávamos por qualquer palavra torta, como o casal de casados que não sabe mais se ama ou odeia. ar e fogo. arte em brasa.

mas os nossos silêncios já sabiam do fim. lutamos, em luto. lutamos orgulhosamente. mas somos o que éramos e seremos. não há forma de não ser exatamente isso… agora é guardar aqui o leão na gaveta, junto com todas as cores, ao menos até o tempo dele não me morrer. agora é permitir-se sofrer… água sobrando nos olhos.

agora, a falta tamanha… agora, quando sobra tanto o que antes tanto faltava.

flor-estrelas

5 respostas

  1. Fabio ,
    vc esta cada vez melhor . Cada post seu mostra a sua evolucao como ser humano , como poeta , como escritor , como essa linda pessoa que sente e mostra o que sente , sem vergonha de se expor .
    Seus ultimos poemas me deixaram atonita com tanta beleza .
    Parabens !
    Beijos ,
    Ana

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