Francisco José Viegas – Poemas

Francisco José Viegas – Poemas Selecionados

O último recado antes do Inverno

O tempo vai passando. Vamos morrendo devagar,
subindo o rio, descansamos sob os choupos,
as vinhas escurecem com a luz do dia.

Muitas vezes, nesta altura do ano, não chega a amanhecer,
a água do rio turva rente às margens,
os areais prolongam-se, claros demais, brancos.

O tempo vai passando entre a erva,
emudece como o musgo do Outono nos pinhais,
escuta as vozes poisando mais além, entre os canais

onde a morte aguarda, serena. Amo estas árvores,
é o último recado que gostaria de deixar,
mais que as mulheres que me amaram,
ou que amei. O tempo vai passando devagar.

(Francisco José Viegas)

*

Essa velha ciência, a de esperar, escrevê-la
em cadernos retirados a cada viagem. Neles
anotaste os movimentos do mundo, o balanço
do mar. São só velhos, os cadernos; ainda

escreves à mão, ainda respiras por ele,
ciência antiga – onde a conservas? Linha
a linha as viagens vão passando por eles como
um mapa: aqui as ilhas, ali pequenos continentes,

provas de que o mundo não acaba à tua porta
quando o jardim desaparece entre os granitos.
Levantas a voz uma vez por outra, mas não é

isso que te interessa. Gostavas apenas que
os cadernos ficassem, gravados de ti e de quem amas,
guardados em gavetas, guardando o mundo.

(Francisco José Viegas)

*

das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.

(Francisco José Viegas)

Saiba mais sobre o autor na Wikipedia

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Publicado por Fabio Rocha

Poeta, Terapeuta Holístico e Administrador de Empresas

Um comentário em “Francisco José Viegas – Poemas

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