SORTILÉGIOS DE SEXTA-FEIRA

‎”A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.” (Anaïs Nin)

SORTILÉGIOS DE SEXTA-FEIRA

A noite em que mais aprendo é a de sexta-feira. Sempre traz o frescor de novas experiências. Sempre. Vou pro antro tentando não pensar em como voltar. Sem limitar meu horário ao conforto do frescão que para de passar às 22 horas. Em Brasília, 19 horas. Na noite por vir, a via láctea sustenta a escuridão com uma promessa de luz. Sigo rindo de meu rir no ônibus do trabalho. Gente nova, perto. Parecem amigos antigos já. Conhecendo e criando um ser conhecido, personagem das histórias que não sou. Mas tal qual invento paixões e creio em cada uma delas, invento esse eu novo e talvez seja ele. O ônibus para na porta do antro e caminho nas ruas. Ruas que não me atacam, estranhamente. Tudo é cinza e velho, mas continuamente me exponho e me movimento por essas ruas do Rio de Janeiro a qualquer hora, com qualquer valor nos bolsos e não me atacam… Chego. Pego a mesma mesa. Amigos aparecem. E mulheres. Situação inédita. Coleciono-as nas sextas. A champanha que me oferecem e que bebo cada vez mais me parece cada vez menos ruim. Mas uma taça já basta para eu doer meus pés de dançar. Um velho de verde vem chegando pra cima das mulheres conosco em ritmo de esquindô esquindô. Ela se esquiva, ele sai. Depois, volta. Ela solta as mãos dele da sua cintura, ele sai. Depois, volta. Meu deus, somos solidões dançando felizes. Felizes! Meu deus, meu deus, que eu não esteja assim aos sessenta… Que eu vire monge budista ou cometa o suicídio de casar-me, mas que não termine com essa camisa verde nesse papel ridículo, suando com os botões abertos saltando pelos brancos, insistindo e suando feliz. Dançamos. Suamos. No mesmo papel do velho, me vejo, um pouco. Ao menos, danço com ela, quando toca uma música péssima, mas dá pra dançar a dois. Dois que dizem não saber dançar, se juntam e dançam sem dizer nada. Sem estrepolias ou fotografias, mas dançam. Dançar pode ter perfume ou não, mas o toque das mãos sempre me acalenta. Dançamos, rodamos, champanha, felizes, felizes, champanha… Estrelinha do meu copo agora quebrado. Borbulhantes dançamos até passar o efeito e me dar uma tristeza-cansaço e eu sentar pra ver o velho tentando mais, agora sem eu atrapalhar. Medo leve do velho conseguir… Mas, sabe, qualquer derrota é vitória nessas sextas-feiras. Sempre que penso em dormir ou lamentar, lembro rapidamente de como eu estava e vejo a vitória. Sinto-a por todo o corpo, mesmo no cansaço, celebro-a dançando, mesmo parado, mais ainda quando a champanha tira minhas mãos dos bolsos. Saímos, tal qual eu de fora de mim mesmo, de quando em vez, me olhando impassível. Saímos, então, sem medida ou cautela, dali. Ainda vejo o velho parecendo revoltado ao pagar a conta. A rua agora parece bela e calma. A mesma rua. A mesma? Elas vão pro sul, outros vão pra perto, eu vou pra casa. Nos despedimos sobre a rosa dos ventos. Nova estréia na noite: a van. Um gordo gigantesco abre a porta. Toca pagode, depois sertanejo. Fede, até chegar na beira do mar e o ar marinho levar todo o mal. Um cara sem camisa diz pra mulher a seu lado que ela o irrita por não espancar seu filho. O pai que se ferre. A mãe tem que impor respeito. Puta que pariu. Um bêbado pede para sair e comprar cerveja. Deixam. Ele volta, abre e entorna metade na minha calça. Estava quente. A cada buraco nas ruas minha coluna mal acostumada reclama. A van avança, impreterivelmente. Entra um cara de Petrópolis e fica falando de boates com o gordo gigante que abre a porta e grita nos pontos pra onde vai a van. Depois volta a falar das boates com o amigo instantâneo: “Aquele tá bom, só dá universitária”. “Ali fizeram reforma. Ficou bonzão.” Tão iguais, todos nós… Metade do caminho ele vai pendurado na janela, porta aberta, tudo errado. E nada mais certo. Esvazia a van e sigo mudo. Mudo pro banco de trás, pé sobre a roda, me sentindo surfando por onde nunca antes naveguei… Onde nenhum homem jamais esteve. Saltam e entram por todo lado, Rocinha etc. Sinto que algo bom vem. Presente pela aventura. Até que no Barra Shopping senta direto do meu lado e já falando uma menina. “Essa música me deprime. Puta que pariu.” Eu converso e falo pra ela se concentrar na conversa, ela não fala deliciosamente do tempo ou do futebol. Fala de seus problemas. E ouve. Vidas inteiras trocadas em palavras em minutos em kilômetros. Chego no supermercado onde larguei o carro, dou-lhe um beijo no rosto sem prévias palavras. O mais leve que já dei em toda a minha vida. Descubro que o supermercado 24 horas não fica aberto 24 horas. Meu carro preso, presidiário de grades e cadeados. Isso proporciona uma caminhada boa, mesmo com pés doendo, incrivelmente motivadora até em casa. Taco música boa no ouvido. Secret Garden. E vou pelas ruas vazias, passos leves sem fantasmas. Caminho. Tudo começou com o caminhar. O movimento mínimo empurrando para mais movimento. Paro para quase tocar a capivara enorme tão perto, tão perto e tão calma, que ouço seu som calmo, calmo de cavalo sem pensar. Enquanto os cães ladram pela vizinhança… Enquanto todos dormem.

capivaras

2 respostas

  1. Ah! Como é interessante e bom ler isso…Noites de sexta…saídas como fuga de lamentos, lembranças, mulheres aos montes, bebidas pra soltar, borbulhas, idas e vindas, constantes, planejadas, previsíveis.Boa demais a sensação de reconhecimento, de paressência, de admiração do espelho. Te leio entre sorrisos e suspiros e, como livro, não quero parar antes de acabar de ler, mais e tudo, saber mais…será que ainda dá pra aprender mais? Sei lá, mas é bom demais olhar essas letras que conversam tanto com a minha vivência.Ainda bem que você escreve!! Deu cor a minha noite.

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