FARINHA POUCA? MEU PIRÃO PRIMEIRO – MEMÓRIAS APAGADAS DE LOGAN

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Caro leitor, este relato me foi passado por um major da aeronáutica estadunidense que preferiu se manter anônimo. Segundo ele, um amigo veterano de alcunha Logan achou-o escrito em papel-alumínio dentro de um vasilhame de vidro no mar da Noruega perto do Natal de 1930. Quando o mar começou a descongelar perante seus olhos, o vasilhame flutuou até ele, como que atraído pelo seu olhar cansado:

 

"Sim, uma mulher pode ter filhos sem saber dar, sem o menor instinto maternal. Amamentar querendo sugar o próprio peito, antes de oferecê-lo ao recém nascido. Nenhuma lei impede. Ter filho para Inglês ver, pra seguir o padrão, porque é assim que as coisas são, para não ficar sozinha no final da vida, ou por qualquer outro motivo estúpido como uma camisinha estourada. É a vida. Criar com base na Santíssima Trindade: superproteger, reclamar e criticar. Reclamar do filho que depois não quer comer, só come em frente a TV, com ela dando atenção. Imagine, que absurdo, que suplício, dar atenção! Levar e buscar de carruagem no colégio e no mosteiro, reclamando, mostrando o quanto a criança parece um fardo, sem deixá-la aprender a ir e vir por si mesma, e sem prazer nenhum em fazê-lo. Mãe criando filhos incapazes eternos. Ainda bem que somos só quatro, nós, os filhos. Outros fatos que me oprimem a memória: Dar presentes de Natal sempre com algum resquício no olhar (ou dito mesmo) de "Você não merecia, mas…". E quando uma criança se sentir extremamente mal por fazer algo muito errado para ela mesma, espancá-la, enquanto comanda os cavalos, pondo em risco a vida e a sanidade mental do pobre incauto. E quando um filho vier falar, todo feliz, que passou de ano, falar antes de tudo: "Não fez mais que a obrigação." Um filho pensava que ela e o marido eram esqueletos disfarçados de gente. Outro não dormia bem sozinho achando que ela iria embora. Décadas mais tarde, quando um dos rebentos mais sensíveis (que ainda não se suicidou nem virou serial-killer milagrosamente) chegar cansado de um dia de muito trabalho, olhar economicamente com o estômago apertado a comida ingerida por ele à mesa, ou nos lanches, ou em qualquer migalha. Após reclamar dele interromper a leitura da novela para contar algo. E impedir a criada de fritar ombushalas para quando ele chegasse. Dia após dia, constantemente, vigiar e medir… Sempre. Para poder dar pouco, menos, o mínimo. Jantar a família toda sob o silêncio do não-dito. Com o rádio ligado fica mais fácil engolir. Se pudesse, cada mínima coisa dada teria uma reclamação impressa e sua assinatura – "Mamãe". Principalmente comida. Dívida e culpa a cada mordida. Má digestão. Comprar o doce caro e bom só pra ela e vigiar qualquer grão que será um grão a menos em sua própria boca. Cada grão vale algum centavo… Cada grão é ganho. Energia. Caloria. Cada grão é massa. Como se o alimento se misturasse em massa ao dinheiro e dinheiro fosse a única forma conhecida mais próxima de um quase prazer… Aliás, na criação dos filhos, dinheiro nunca faltou. Boas escolas e roupas e tudo o que o dinheiro pode comprar. Mas dinheiro não é amor. Nem afeto. A vida toda foi esse juntar dinheiro, planejar mais dinheiro, guardar inutilidades caras em enormes armários intocáveis numa casa gélida e sem ninguém com vida nos olhos ou atos, de tanto que se faz tudo errado sempre fora ela… Um palácio de cristal estagnado. Gastando dinheiro com prazer apenas para ela mesma e se concentrando em reduzir os gastos com o filho, traste que só traz redução de saldos e estoques. Assim sendo, nenhuma demonstração de afeto jamais poderia parecer verdadeira para suas crias. Nenhuma. Nunca. Como poderia haver algum afeto verdadeiro se você é tratado assim? Tanto é verdade que ambos os filhos já velhos se estranharam com ciúmes de um cão, certa vez, um cão que a mãe elogiava e sorria e acarinhava, sem nenhum ranso de medida, desaprovação implícita ou explícita nem reclamação… Coisa que desconheciam nela. Mas, permito-me sobreviver. E escrever e julgar e apontar e jogar ao mar… Aprendi, mamãe, com a mestra. Só aperfeiçoei e tive coragem de ir mais longe no vento: não pretendo ter filhos, pois o mais difícil disso tudo é não me tornar um pai assim também. Basta nós fingindo a nós mesmos que somos humanos. Não transmitirei a nenhuma outra criatura o legado dessa nossa miséria. Desse peso, rancor, mensuração… Feliz Natal."


 

Uma resposta

  1. Fabio, que texto fortíssimo. É realidade de muitas famílias; seres rasgados e desacreditados pelo modelo que presenciam diariamente, em que amor é pautado numa linhagem desprovida de sentido e viver de aparência; exemplo de nulo familiar.Priscila Cáliga

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