A OUTRA FACE

ração humana em pastilha:
todas as revistas da banca
sobre novelas

de que me servem esses punhos
capazes de inverter o fluxo das águas
da mais alta cachoeira?

não mudaremos nada

padres e papas
contra camisinhas
gostam de criancinhas

e casamos por seu intermédio
como na maldita novela:
ração humana em pastilha

e trabalhar na semana
e dormir no fim de semana
e dormir no fim:
ração humana em pastilha

não mudaremos nada

teremos filhos
sob a égide
da mesma novela
da mesma religião:
nada
absolutamente nada
mudarão

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa
miséria." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

11 respostas

  1. Fábio, venho aqui e encontro tanta coisa boa. O poema da Enya, esse e os outros. Mon Dieu! Quanta criatividade! Estou encantada com seu trabalho. beijo.

  2. um pessimismo de fundo realista.mas me pergunto.será memso que nada mudará?num grande universo naummas talvez no meu micro espaço eu possa tentar fazer a diferençasustentar na contra-mão do sistemasem garantias é verdade.mas sei láás vezes cultivo essa revoltaás vezes acredito que dá pra ser uma pequena parte diferentebeijos

  3. Fábio,Grande poema!Vontade de rasgar o próximo outdoor com cheiro de ração da mídia, e escrever no muro este teu poema, com uma voz maiúscula do Machado ao fundo.Mesmo que fosse anti-ração a provocar um intervalo para o "vômito" coletivo – no intervalo da novela…Bravo!Beijo, com minha admiração….Katyuscia

  4. "e trabalhar na semana e dormir no fim de semana e dormir no fim: ração humana em pastilha"Aaaai, como dói ler isso num domingo a noite… rs

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