GRAVATA

Para Caio Fernando Abreu

O sábado sempre acontece por detrás das janelas agora… Mas já houve um tempo em que no sábado eu estava no sábado. E era quente e bom. Olhava os passarinhos e, de tanto estudar seus movimentos, acreditava saber racionalmente os segredos do vôo. Só me faltavam braços mais gordos, mais asas. Asas que eu treinava gritando “Homem-Pássaro” com as folhas das palmeiras que livremente arrancava… Espanava, espanava, corria mas não conseguia subir. E nem me importava. Nos sonhos também, eu só conseguia pular alto e cair devagar pelo ar, flutuando por saber o segredo dos pássaros. Sábados aéreos. Ilimitados. Rios no quintal com a mangueira… Olhar a água penetrar a terra, criar o novo, levar embora o antigo… E o fogo das fogueiras. Meu avô fazendo maria-preta pra subir na noite negra, breve e leve e mágica. Balões com fogos nos chamavam de quando em vez pra fora. A tartaruga sempre perto para alguém tropeçar… Lagartas que viravam borboletas nas garrafas… E, eis que o domingo se acaba e antecede o final de tudo. E a música dos Trapalhões são trombetas do inferno vindouro fora da casa da minha avó. E o mundo tem peso de novo.

2 respostas

  1. Fabio, agora que meus olhos pousam por este teu cantinho, que confesso saio amando mais do que o outro que sempre repouso, uma porque é escandalosamente, riquíssimo o que é exposto neste recinto, que canta partituras por colocar o leitor de queixo caído. Abraços,Priscila Cáliga

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