MINA (UM POEMA DUPLO)

o vento espalha meus pedaços
o fantasma continua brincando de viver
com quem acredita
que há vida nele

o vento me espalha pelo chão
trinco a mão
e depois salto
o chão acolhe meus pedaços

o vento entra nos meus olhos
e minhas pernas fatigadas
se movem sozinhas
através da inutilidade do crepúsculo

você é forte, Fabio.
puta que pariu,
você é forte.

ser forte
não é ser insensível

é sentir essas porradas infindas
tanto e tanto
tamanhas e tamanhas
virar pó, vácuo, nada
e no entanto (tanto)
seguir
só podendo socar
o vento
que foge…

seguir
duro como essa areia
que se espalha…

você agüenta.
repita com seu torcicolo:
você agüenta.
você agüenta o vento…
você agüenta.

no final
foi tudo
só um sonho
de um deus bêbado, invisível e filhadaputa
que não existe

elas vão por ar
vão por terra
vão por mar
vão
(pra puta que pariu)

mas o pior de tudo
é que
uma a uma
vão

como eu posso
estar de pé
e caminhando
pelo último
pelo sempre último dia
que sangra
depois disso?

como diabos eu consigo?

(breve pausa)

eu sei

eu sei,
no fundo…

eu sei:

no meio de toda essa merda
minha poesia eterna
floresce
é terna
e não me abandona.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=jkyKvg6Khmw&hl=pt_BR&fs=1&&w=425&h=344]

2 respostas

  1. "ser fortenão é ser insensível"Exatamente, Fábio.É não se negar a sentir, mesmo que doa.Quanto à poesia, esta é sempre companheira.Até quando é pedra, acompanha-nos no caminho. E se é terna, repousamos em seu colo nossas sombras.Um beijo, poeta….Katyuscia.

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