A HERANÇA NEGRA DO ROMANTISMO

Quantas vezes desde a tenra infância não repetimos, como em mantras, passando a crer cada vez mais nessas burrices românticas, que acabam estragando os relacionamentos com ideais inatingíveis… Onde a salvação da vida ruim, do sofrer, de tudo, se concentra em uma só pessoa (sua alma gêmea, metade da laranjinha, um misturar de dois se tornando um etc. etc.). E esse ser idealizado é apenas um reles mortal, que nem você… Não o responsável pela sua mísera existência ter sentido! É preciso andar distraído, como dizia Clarice… (Vejam o texto abaixo dela, que considero um de seus melhores). Distraído e não desesperado nessa busca de um outro que será sobrecarregado.

Olhem essa letra aí embaixo, que acho linda (e ontem estava cantarolando no ônibus pro curso), mas, pensando bem, acho que filmes e músicas assim, nos ensinado erradamente a amar, desde cedo, acabam sendo mais um malefício que um benefício para a humanidade… Tirando inclusive a leveza que o processo deve ter… (“Tudo é você” o cassete!).

Ah, e o filme “500 dias com ela” ((500) Days of Summer, EUA, 2009) trata também disso. Estou assistindo agora e parece bom. 🙂 Foi a segunda recomendação ontem, me colocando como o homem real que no filme é a personagem principal, então o universo quer que eu assista. 😀

O tal cara fala exatamente isso sobre o romantismo nas músicas e filmes (e cartões)… E ainda se aconselha com a irmã mais nova e mais pé no chão. Eu tinha que ver mesmo isto agora. 🙂

Sou Você
Composição: Caetano Veloso

Mar sob o céu, cidade na luz
Sonho meu, canção que eu compus
Mudou tudo, agora é você

A minha voz que era da amplidão
Do universo, da multidão
Hoje canta só por você

Minha mulher, meu amor, meu lugar
Antes de você chegar
Era tudo saudade
Meu canto mudo no ar
Faz do seu nome hoje o céu da cidade

Lua no mar, estrelas no chão
Aos seus pés, entre as suas mãos
Tudo quer alcançar você

Levanta o sol do meu coração
Já não vivo, nem morro em vão
Sou mais eu, porque sou você

Minha mulher, meu amor, meu lugar
Antes de você chegar
Era tudo saudade
Meu canto mudo no ar
Faz do seu nome hoje o céu da cidade

Lua no mar, estrelas no chão
Aos seus pés, entre as suas mãos
Tudo quer alcançar você

Levanta o sol do meu coração
Já não vivo, nem morro em vão
Sou mais eu, porque sou você

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=RpPJOT6mUpo&hl=pt_BR&fs=1&&w=425&h=344]

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=PsD0NpFSADM&hl=pt_BR&fs=1&&w=560&h=340]

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

4 respostas

  1. Caetano, você e Clarice…Pois é, Fábio: adorei mesmo!O que os "responsáveis" tentam fazer com a gente é uma desgraça.Abraços, flores, estrelas..

  2. que texto perfeito este da Clarice! é preciso mesmo estar distraído, e não desesperado… adorei suas colocações… e parece mesmo que o que a gente precisa ver, ler, ouvir, vem sempre ao nosso encontro :)e as canções de amor, sempre haverão outras e mais outras, pra nos errar. mas que vida errada é essa que a gente sempre suporta um pouco mais! e adora morrer nisso, adora sofrer nisso, adora errar mais um pouco…

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