SÍNDROME DO PÂNICO NO LAGO SEM LAGO SEM ÁGUA SEM NADA

Pânico de noite. Noite toda. Última vez que a vi. Último dia. 4:10 da manhã e não durmo. Todas as pendências resolvidas exceto respirar. O pânico começou no shopping cheio, nos botecos quentes, no barulho alto. Um suar estranho e um ver as mãos tremendo leve… Achei que era fome. Não era. Cafeína do refrigerante? No carro, de novo. No carro, sozinho, um peso. Não ligo o rádio. Se tocar qualquer música, romântica ou não, sinto que seja lá o que for vai piorar. Chego no apartamento escuro lá pra meia-noite. Todos dormem. Todos dormem. Isso me agonia. Vou pro PC e mando logo o último email de seis páginas que escrevo há dias. O último. O último. Uma nova esperança no MSN me adia o sono, quando eu ainda tinha o sono… Então ela se vai (a esperança) e vou tentar dormir. Vou dormir e desisto. Desisto. Pânico em neon, vozes quase falando no silêncio. Pior… Tá piorando. Pânico parecido com o medo dos meus pais morrerem quando eu era pequeno… Com a solidâo na casa de meu avô, onde a noite era cheia de ventiladores e roncos no escuro. Medo um dia na casa de minha avó, de dormir lá (primeira percepção de um inconsciente inexplicável?). Medo da solidão no apartamento de Maria da Graça, de dormir na sala iluminada lendo e relendo títulos de livros… Todo o pior da infância brotando… No meu peito. Meu pai lendo histórias e eu esticando o pé para senti-lo ali ainda, presente. Medos infinitos passados. Hoje. Hoje. Hoje, medo de pedir para meus pais pararem um instante de ver a novela para me abraçarem e me darem parabéns pela consquista poética… O livro chegou hoje de tarde, quando voltei da caminhada, e solucei uivando no banho até o plexo solar doer, misturando, não necessariamente nesta ordem: o nervosismo do encontro futuro (último), água, alegria pela vitória, dor por perceber não ter com quem dividi-la, lágrima. Ninguém para contar nada. Isso é meu pânico. Dividir nada… De novo, a infância: minha mãe estranhando eu não gostar de brincar nunca sozinho, de ver TV sozinho, de jogar videogame sozinho… Nada, sozinho. Desde a infância, meu Deus, meu pânico é estar sozinho… Escrevendo, percebo que finalmente algo adiantou para eu melhorar. 4:23 Meu problema é não ser visto. Para que qualquer coisa se ninguém vê? Meu problema é a solidão, pior à noite. Meu problema, meu maior problema, é viver. Maravilha. Percebo que entendi meu pânico. (Não é mais ansiedade, quase-pânico, sub-pânico, é PÂNICO. No peito.) E ainda o sinto. Pausa para três Maracuginas (além das duas que tomei à tarde). 4:28 Destranco a porta do quarto para o caso de eu ter uma síncope. Meus pais não acordam por nada. Trocaria meu maravilhoso dom de escrever por uma noite normal, uma vida feliz, uma mulher que não me abandonasse… Não sei se… Não. Melhor não. Vontade de colocar isso no blog. Vontade de ser visto, mesmo que por qualquer um. Mosquitos. Me bato / os mato / no meio / do pânico / que começa / a passar. Rio 2016, eu vou! 4:36 Finalmente entendo porque tantas pessoas desistem de amor. 4:39 Não passou. Largo tudo, inclusive o pingo de orgulho que me resta, e vou pro quarto de meus pais pedir para falarem comigo e ser abraçado aos trinta e três (diga trinta e três). 5:25 Passou. Choro. 5:28 Meu Deus, e se o medo infantil de não ter mais os pais for o mesmo medo de hoje de, perdendo ela, não ter mais ninguém? Passou. 5:52 Piorou. E se algo em mim quer ficar doente para, doente, na condição de doente, admitir mais facilmente o quanto preciso do outro? Nasce o sol.

6 respostas

  1. Como na vida nada é coincidência, estava eu procurando um poema de Carlos Drummond, que infelizmente ainda não encontrei, quando me vejo dentro do seu blog. Comecei a ler as suas crônicas e não conseguir parar, vc é um craque com as letras. Parabéns!! Resolvi seguir o seu blog.

  2. Meu Deus!…Estou simplesmente arrepiada ao ler esta crônica!
    Ah, só mesmo os poetas para decifrar todas as nossas angústias e medos.
    Bendito seja os dons de um escritor e poeta que consegue trazer do fundo do âmago toda a beleza dos sentimentos que permeiam a vida de um ser humano.
    De onde vem tamanha inspiração?
    Só mesmo os poetas serão capazes de responder!…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *