Campanha contra as novas normas gramaticais

ASSINE O ABAIXO ASSINADO VITUAL CONTRA ESSA IMBECILIDADE:
http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/4802

Foi o amigo Francisco Simões que me abriu os olhos para mais esta imbecilidade de hífens e tremas que tentam nos empurrar goela abaixo e aceitamos passivamente, acostumados a passivamente ver TV demais em nossas vidas… Já estava quase aceitando e rapassando essas regras também.

Nem me interessa quem inventou essa mudança toda, ou o propósito maravilhoso de unir países e fortalecer a Língua, sendo que continuaremos usando palavras diferentes para falar de uma mesma coisa em diferentes países. Que se ferrem os alunos e quem escreve em geral, as editoras, as gráficas, …

Portugal parece que já começou a resistir a essa besteira. Aqui, pelo menos, vou ignorar também.

Se concorda, cole em algum canto de seu site ou blog:

ESTE SITE REPROVA E IGNORA AS NOVAS NORMAS GRAMATICAIS!

Complementando, segue um belo texto do amigo Simões sobre o tema, e mais textos de gente que está pensando como nós…

“DIRETO AO ASSUNTO, COM TREMAS, ACENTOS DIVERSOS E OS HíFENS NECESSÁRIOS”

Sem mais delongas hoje decidi botar os pingos nos “ii” e esclarecer definitivamente essa novela da malfadada “revisão ortográfica” cujo objetivo maior tem sido ocultado, quase nada divulgado, nem sei a razão. Para tanto contei com a ajuda de um dos meus muitos amigos cultos, bem letrados e bem informados, neste caso o Gilmar Grespan. Agradeço a colaboração incansável do amigo.

Essa história começou lá pelos anos oitenta, ou seja, levaram quase trinta anos para concluir o que considero não só irrelevante como igual à coisa nenhuma. Explico: o objetivo verdadeiro que não tem sido comentado era impor esta fantasia, esta utopia, porque irrealizável, a todos os países que usam a língua portuguesa como oficial.

Sendo mais claro: querem (e vão só ficar querendo, com certeza) “unificar” a fala e a escrita de Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Perceberam a sutileza e o irrealismo que deve ter se apossado de tantas cabeças ditas doutas e letradas para construir algo que, como dizem alguns, vai levar do nada ao coisa nenhuma? Pois.

“O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (já viram que é Acordo e não Revisão foi elaborado por filólogos de todos os países que têm o português como língua oficial, representando a Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza. O representante do Brasil foi o, já falecido, Sr Antônio Houaiss.”

Para tanto andaram a se reunir através desses muitos anos, promoveram cimeiras, debates, mas só entre eles, jamais pensaram em ouvir os maiores interessados ou os povos aos quais querem agora impor, de cima para baixo, o que ninguém lhes pediu. Êta intelectuais “democratas”.

Nos anos noventa, quando vivi por 4 longos períodos na Europa, morando sempre em Lisboa, já senti a resistência dos portugueses não só em conversas como em reacções (como eles usam) na imprensa. Portugal, pelo que sei, mantém até hoje esta resistência, porém agora evoluindo para algo mais formal. Eu os aplaudo porque sei da fidelidade que têm para com as raízes da língua portuguesa e nunca iriam aceitar passivamente uma coisa tão estapafúrdia, para ser educado.

Disse mais o Gilmar Grespan: “Havendo resistência ao tal Acordo, o próprio Decreto n.º 6.583/09, estabelece que “são sujeitos à aprovação do Congresso Nacional quaisquer atos que possam resultar em revisão do referido Acordo, assim como quaisquer ajustes complementares que, nos termos do art. 49, inciso I, da Constituição, acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. Portanto, meu caro amigo, só por uma lei, aprovada pelo nosso Congresso Nacional, é que esse Acordo Ortográfico pode ser revisto ou até tornado sem efeito.”

Ora, meus amigos, não se trata de “compromissos gravosos ao patrimônio nacional”, (ou será que há?!…) e se compromissos gravosos existem é principalmente para o bolso de muitos cidadãos, chefes de família, escritores, editores, enfim, todos que não esperavam este tipo de “asteróide intelectualizado” a despencar de repente sobre nossas cabeças.

Na minha modesta visão, e na de diversos amigos que têm concordado comigo, precisamos começar a aprender a dizer não, bem alto, levantando a bandeira de nossas convicções seja contra quem, ou o que for.

A menos que desejemos continuar a ver nossa pátria como a casa da mãe Joana, onde quem quer que se arrogue como arauto de verdades inquestionáveis, em que só eles acreditam, continuem a ditar regras de cima para baixo na forma mais autocrata possível. A menos que continuemos a ser um povo que se conforme sempre em ser definido como está naquela canção popular de Zé Ramalho: “Oh, oh, oh, vida de gado… povo marcado… povo feliz…”

“Como os demais países de língua portuguesa seguem a ortografia ditada por Lisboa, se Portugal não aderir ao Acordo Ortográfico, dificilmente esses países, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste também não vão aderir. Esse Acordo, para eles, vai virar letra morta. Resultado: vamos ficar sozinhos nessa aventura. Essa é a realidade, meu caro Simões.”

E vou encerrar recordando aqui alguns dos versos do poema crítico escrito por Edmar Melo e que foi retirado da coluna do conhecido jornalista Luis Nassif:

“O País tá precisando
É de reforma agrária
É de reforma política
De reforma tributária
Mexer na ortografia
Por causa da geografia
Não é coisa prioritária

Outro dia eu volto ao assunto se até lá não tiverem já explodido essa idéia de cabeças que deveriam estar preocupadas com assuntos mais urgentes, necessários, prioritários, para o nosso povo e o nosso país. Plantar batatas seria mais útil.

Francisco Simões. (Janeiro / 2009) (www.franciscosimoes.com.br)

FUI ROUBADO!

Percival Puggina
04/01/2009

Preferiria que me tivessem tomado a carteira. No entanto, os perversos fizeram pior: levaram-me um prazer. Desses ótimos, que não são pecado nem fazem mal à saúde. Sequestraram-me (assim, sem trema), o gosto de escrever, como aprendi e me agrada, para impor-me regras que não aprendi e das quais desgosto. Proclamo-o, portanto, aos meus leitores. Queixo-me ao Papa. Lamento-me diante do altar. Fui roubado, Senhor. O reveillon de 2009 fez sumir pelos ares, como borbulha de champanha, a satisfação que me causava a tarefa cotidiana de colocar ideias (agora é assim mesmo, sem acento) no papel, usando, para isso, vocábulos com a grafia convencionada em 1943, um ano antes de ser expedida minha certidão de nascimento. Levaram-me palavras de estimação, minhas há seis décadas!

Poderíamos absorver os incômodos da nova ortografia se nos provassem que escrevíamos de modo incorreto, mas não foi isso que aconteceu. Ficou errado o que antes escrevemos certo. E doravante, se quisermos redigir com correção, teremos que nos familiarizar com outros padrões. Precisaremos nos debruçar sobre as preferências de uns poucos que, por puro deleite, decidiram que a elas deveriam submeter-nos. Quem os constituiu senhores do idioma?

Certa feita, estando na praia de Iracema, em Fortaleza, um rapaz de bicicleta passou por mim e, num safanão, arrancou-me o celular. Em reação, esgotei contra ele, aos berros, os piores adjetivos que me ocorreram. Gritei tanto palavrão, tão alto, que o sujeito quase trombou com a bicicleta numa árvore tentando olhar para trás. Naquele momento eu fiquei indignado. É o mesmíssimo sentimento que me move agora, com outras palavras, mas com igual motivação. Estou berrando este artigo e compareço aqui como quem vai à delegacia declarar-se vítima de uma pilhagem.

Retorno à demência das novidades que afetarão os hábitos ortográficos de 230 milhões de pessoas. Convenhamos! Seria perfeitamente aceitável o incômodo se, por exemplo, variações fonéticas ocorridas ao longo dos anos tivessem posto a linguagem escrita em desacordo com a falada. Mas isso, onde aconteceu, não está contemplado na reforma. Também seria aceitável se a grafia em vigor até o dia 31 estivesse eivada de irracionalidade, constituindo-se em embaraço para a alfabetização e para o ensino do idioma. Mas não. Bem ao contrário. Imagine, leitor, crianças que estejam cursando as primeiras séries do fundamental. Ano passado aprenderam de um jeito, agora terão que desaprender e voltar a aprender. “Mas vem cá, ‘psora’ – dirão elas – vocês não se entendem?”. Pois quanto mais me empenho em entender, mais aumenta minha irritação, compartilhada por inúmeras pessoas que me informam sua decisão de continuar escrevendo do mesmo jeito. Invejo-as, mas estou profissionalmente impedido de acompanhá-las nessa operação-padrão.

“Cui prodest?”, perguntariam os criminalistas se estimulados a investigar as motivações da “disgramada” (eis aí uma palavra que deveria entrar para o dicionário) reforma ortográfica. “A quem aproveita” o acontecimento? Ontem, enquanto um programa de televisão mostrava editoras de livros didáticos rodando exemplares com a nova ortografia, discerni alguns beneficiários. Pois que se regurgitem nos ganhos. Aliás, neste Natal, entre os presentes que recebi, estava um dicionário com a nova ortografia. Tenho dezoito e preciso de um novo. Eu mereço? Não, ninguém merece.

Especial para
ZERO HORA
04/01/2009

Pequeno poema crítico, retirado pelo Simões da coluna do jornalista Luis Nassif:

NOVA REFORMA ORTOGRÁFICA

Não se usa mais acento
No “pára”, verbo parar
Pois “para” preposição
Não vai mais lhe atrapalhar
Tudo agora virou “para”
Do jeito que a gente fala
Sem se diferenciar

As palavras terminadas
Em hiato, como “enjôo”
Não vão mais ter circunflexo
Não se acentua mais “vôo”.
Agora voo atrasado
Não é mais acentuado
Nem que você sinta enjoo

Não tem mais acento agudo
Quando se escreve “feiúra”.
Passaram quinhentos anos
Pra fazer essa frescura.
E o português lusitano
Só descobriu este ano
Que esse mal não tem cura.

O País tá precisando
É de reforma agrária
É de reforma política
De reforma tributária
Mexer na ortografia
Por causa da geografia
Não é coisa prioritária

Pensei cá com meus botões:
A reforma é malandragem
Tem interesses ocultos
Alguém levando vantagem
Esse tira e põe acento
É um negócio nojento
Ta virando sacanagem.

Edmar Melo

— E-mail enviado por Francisco Simões em 25/2/2009: —

Amigos e amigas, envio-lhes abaixo uma crônica publicada hoje, quarta-feira de cinzas, no Diário de Notícas, de Portugal, que me foi remetida pelo amigo Manuel dos Santos, de Cascais. O autor do texto é o intelectual português Vasco Graça Moura, cuja apresentação eu coloquei logo abaixo do texto.

Quem me lê sabe que de há muito me posicionei contra o que hoje chamo de DESACORDO ORTOGRÁFICO. Estou terminando de elaborar um texto onde figuram argumentos do mesmo Vasco Graça Moura, e comentários diversos que colhi em sites portugueses contra o que nos querem, mas não conseguirão, impor de cima para baixo. Logo o divulgarei. Agora, por favor, leiam este magnífico texto do nosso Vasco Moura publicado hoje mesmo em Portugal no acima citado periódico.

Quem for a favor do tal DESACORDO deve lê-lo também, pois aprenderá mais um pouco do que se diz, com muita base e fundamentos, contra o mesmo.

Um abraço amigo do
Francisco Simões.

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Vasco Graça Moura
Escritor

Não estão definidas quaisquer metodologias de aplicação do Acordo Ortográfico nas escolas. Ninguém sabe quais as propostas concretas que terão sido elaboradas para se fazer a transição do actual sistema ortográfico para o próximo. Não há, que se saiba, qualquer estudo realizado por serviços competentes do Ministério da Educação. Não há também qualquer estudo sobre as consequências práticas da aplicação do Acordo no que diz respeito ao ensino de português e das doutras disciplinas. E a ministra da Educação nunca abriu a boca em público sobre estas coisas.

A Assembleia da República aprovou um prazo de seis anos para a entrada em vigor do Acordo. É evidente que não pode improvisar-se nesta matéria. Teria de haver especialistas a estudar, a programar e a fasear uma transição. Não consta que tenham sido nomeados. E teria de ser previsto um dispositivo de avaliação cuidadosa e frequente. Não parece que exista.

E, todavia, para as luminárias de dois ministérios, o da Cultura e o da Educação, parece que basta a existência de um corrector ortográfico da Priberam para o Acordo Ortográfico começar a ser aplicado no ensino! Não em seis anos, mas em menos de seis meses! Com este Governo é assim: faz-se tudo sobre o joelho e o princípio é sempre o mesmo: “Zás! Meia bola e força!”

Sem que tenha sido aberto concurso, aparece uma empresa privada a fornecer ao Estado uma ferramenta informática, ferramenta essa que igualmente não foi ainda nem está para ser, que se saiba, examinada e testada por especialistas.

Diz o ministro da Cultura que ela está a ser testada na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Fui administrador da IN-CM durante perto de dez anos e nunca me constou que ela fosse um serviço de análise pedagógica ou didáctica dependente do Ministério da Educação.

Diz também o ministro que, com a ferramenta informática FLIP 7, quem escrever em português terá a opção de converter automaticamente o texto segundo o novo Acordo Ortográfico, sejam as normas do Brasil sejam as de Portugal.

O grau de paranóia que nesta matéria atingiu o Governo não lhe permite atentar nesta realidade comezinha: não há conversor que permita escolher entre as várias versões gráficas tornadas facultativas pelo Acordo e portanto todas e qualquer uma delas são susceptíveis de ser utilizadas, pelo facto singelo de todas e qualquer delas constituírem alternativas admitidas como correctas!!! Ter-se-á previsto um sistema aleatório “convertendo” as grafias sem qualquer espécie de critério que não seja o das leis do caos? Ou o conversor imporá inexoravelmente a adopção de uma grafia única nos casos em que o Acordo consagra a facultatividade?

Como escreve António Emiliano, “haverá apenas uma ‘norma multiforme’, que terá a particularidade de, para além de não ter instrumentos normativos conexos, permitir que se escreva um sem-número de palavras de maneiras distintas sem regra. A palavra que hoje em Portugal se escreve oficial e correctamente ‘decepcionámos’ passará a escrever-se oficial e correctamente em todos os países lusófonos signatários ‘decepcionámos’, ‘dececionámos’, ‘decepcionamos’ e ‘dececionamos’. Presume-se que o ‘conversor’ apresentará todas as possibilidades, o que tornará o procedimento rotineiro de correcção ortográfica um pesadelo para qualquer usuário”.

O mesmo professor tem chamado continuamente a atenção para o facto de o Acordo gerar, “para além do elevado número de grafias duplas, formas com quatro grafias distintas e um conjunto incontável de expressões compostas com oito, 16 e até 32 grafias possíveis, sem oferecer qualquer critério normativo”, facto que, acrescenta, “põe em causa a estabilidade das terminologias técnico-científicas”, essencial para o desenvolvimento.

Mas então como é que a lição, o manual, o livro de leitura, o auxiliar de estudo vão escolher uma das grafias possíveis? E como é que se vai explicar a docentes e a discentes a razão por que não se opta por qualquer das outras?

Com a TLEBS e com o português de uns ofícios recentes de uma dama que é directora regional de educação do Norte, o Carnaval já tinha chegado à língua portuguesa. Mas é verdadeiramente deprimente a ressaca ortográfica que se vislumbra nesta Quarta-Feira de Cinzas.

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“Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Vasco Graça Moura é um dos nomes centrais da poesia portuguesa da segunda metade do Século XX, numa obra extensa, que integra o classicismo de contornos eruditos, até aos aspectos do quotidiano.” — Para lerem tudo sobre a vida e obra de Vasco Graça Moura, visitem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Gra%C3%A7a_Moura

Outra crônica do Simões, de março de 2009:

O DESACORDO ORTOGRÁFICO

Meus amigos, sabem que tenho me posicionado contra o que nos querem impor alguns fardões, certamente saudosos de regimes autoritários. E não pensem que sou algum alucinado, ou alguém mal informado, ou metido a “guerrilheiro das letras”, absolutamente. Hoje volto ao assunto com muito mais argumentos contra.

Eu já dissera que em Portugal e nos demais países que têm a língua portuguesa como oficial a coisa tem andado de forma bem diferente do que vemos por aqui, neste nosso Brasil onde existem algumas pessoas “apressadas”, ou como dizia um bom amigo, “nem precisa mandar rezar que eles já estão ajoelhados.” É isso aí.

Colhi em um site de Portugal esses “Argumentos contra a Revisão Ortográfica”. E não é um site qualquer, sem importância, não, acreditem. Mas vamos dar uma olhada, por primeiro, nos referidos argumentos:

– evolução não natural da língua;

– tentar resolver um “não problema”, uma vez que as variantes escritas da língua são perfeitamente compreensíveis por todos os leitores de todos os países da CPLP;

– desrespeito pela etimologia das palavras;

– a não correspondência da escrita à oralidade. Por exemplo, existem consoantes cuja função é abrir vogais, e o novo acordo as considera mudas nomeadamente em tecto, passando a escrever-se teto — dever-se-ia ler como teto (de seio?);

– processo dispendioso (revisão e nova publicação de todas as obras escritas, os materiais didáticos e dicionários tornar-se-ão obsoletos, reaprendizagem por parte de um grande número de pessoas, inclusive crianças que estão agora a dar os primeiros passos na escrita);

– o facto de não haver acordo, facilita o dinamismo da língua, permitindo cada país divergir e evoluir naturalmente, pelas próprias pressões evolutivas dos diferentes contextos geo-sócio-culturais como no caso do Inglês e do Castelhano;

– afecto com grafia actual;

– falta de consulta de linguistas e estudo do impacto das alterações;

(Respeitei a grafia original do que lá está sem a modificar em nada)

— Na conclusão final está escrito: “Em termos legais e jurídicos também parece haver falta de consenso”. Logo abaixo vem esta informação:

“Vasco Graça Moura, escritor e tradutor premiado e deputado no Parlamento Europeu (e ex-advogado), o mais conhecido dos detractores portugueses do Acordo, defende que o Segundo Protocolo Modificativo, como qualquer outra convenção internacional, só obriga à sua aplicação em cada país se for ratificado por todos os países signatários, o que ainda não aconteceu. Ou seja, só depois de todos os países ratificarem este Protocolo é que estes ficam obrigados a implementar o Acordo internamente caso este seja ratificado por três países. A racionalidade jurídica dum tratado que obriga um país a aprovar outro tratado caso este seja aprovado por países terceiros é disputada”.

Mas, quem seria Vasco Graça Moura? Dou-lhes aqui apenas o começo de toda uma biografia que os amigos deverão ter interesse em conhecer:

“Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Vasco Graça Moura é um dos nomes centrais da poesia portuguesa da segunda metade do Século XX, numa obra extensa, que integra o classicismo de contornos eruditos, até aos aspectos do quotidiano.” — Para lerem tudo sobre a vida e obra de Vasco Graça Moura, visitem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Gra%C3%A7a_Moura”

Passeando com calma por diversos sites em busca de informações sobre o que chamo de “Desacordo Ortográfico”, fui pinçando trechos que transcrevo aqui e agora. Qualquer um pode ter este trabalho, é só querer e fazer. Aqui vão alguns:

— “Há quem argumente que, se o que se pretende é um melhor entendimento, esse não vai ser possível, porque, se há equívocos entre portugueses e brasileiros, eles têm a ver com a riqueza da língua e não com a grafia. O brasileiro Ruy Castro, autor do livro Carnaval no Fogo, contou a propósito (na Folha de São Paulo) um episódio exemplar. Um dia, em Portugal, teria dito a uma secretária: “Isabel, por favor, chame o bombeiro para consertar a descarga da privada.” Perante o espanto de Isabel, teve que ser ajudado por um amigo que fez a “tradução”: “Isabel, por favor, chame o canalizador para reparar o autoclismo da retrete.”

— “A revista brasileira “Isto É” perguntou a Mia Couto o que pensava do acordo ortográfico. Considerando que “não vai mudar a fundo as coisas”, o escritor moçambicano criticou o facto de “as implicações que isso tem do ponto de vista económico acabarem sempre por sobrar para os países mais pobres”. Para Mia Couto, “com esse dinheiro pode-se fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, aumentar o conhecimento que temos uns dos outros”. E lamentou: “Circulo por São Paulo e a maior parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique.”

— “O teor substantivo e o valor jurídico do tratado não alcançaram consenso entre linguistas, filólogos, académicos, jornalistas, escritores, tradutores e personalidades dos sectores artístico, universitário, político e empresarial das sociedades dos vários países de língua portuguesa, de modo que a sua aplicação tem suscitado discordância por motivos linguísticos (v.g. introdução de facultatividades, supressão de letras consonânticas mudas, hifenização, maiusculização e remoção do acento diferencial), políticos, económicos e jurídicos, havendo quem afirme mesmo a inconstitucionalidade do tratado[5]. Outros ainda afirmam que o Acordo ortográfico serve, acima de tudo, a interesses geopolíticos e económicos do Brasil.”

— “Ou isto, ou então deixar as coisas como estão, não? As revisões ortográficas, mesmo que suportadas em argumentos ainda que aparentemente muito racionais, só trazem margem para erros, lacunas, «deficiências e erros» e, pior que tudo, a descaracterização da língua. – Share This.”

Amigos, fiz questão de manter, repito, a grafia original que lá encontrei nos referidos textos, grafia que jamais mudará porque uns poucos querem como que obrigar portugueses a escreverem e falarem como nós, brasileiros. Isto é uma evidência lamentável que alguns dos nossos, mesmo letrados, se fingem de cegos que não querem ver. Isto nunca acontecerá, e nem tem porque acontecer.

Tenho que comentar aqui declarações que li, de pessoas mal informadas e mal educadas, no sentido do aprendizado e da origem da língua portuguesa, referindo-se grosseiramente aos lusitanos que argumentam contra este “Desacordo Ortográfico”. Aqueles deveriam primeiro se informar melhor e a fundo no assunto antes de saírem a escrever bobagens em sites que lhes permitem espaço. É triste.

Como brasileiro sinto vergonha e não aderirei a esta trama que traz a mal disfarçada nomenclatura de “Revisão Ortográfica”. Quem achar que pode que me desafie e conteste o que eu afirmo com total convicção. Encerro com a lucidez e o brilhantismo das palavras do meu amigo Manuel dos Santos, de Cascais, Portugal:

“Já disse e vou repetir: as diferenças na línguagem formal de portugueses e brasileiros são ligeiras e perfeitamente desprezíveis, se o povo de cada país lusófono ler escritores dos outros, no original.

“Não entendo porque no Brasil se traduzem obras de autores portugueses. É idiotice. Se não o fizessem, os brasileiros já não se admirariam tanto com certas expressões portuguesas, porque as entenderiam como pertencentes à sua própria língua. Nem as transformariam em motivo de galhofa e de piada.”

”Os portugueses lêem os autores brasileiros (e compram muito livros deles, porque gostam) no original e nem lhes passaria pela cabeça traduzi-los. Para a generalidade dos portugueses, traduzir um livro escrito em português do Brasil, ou da África, ou de qualquer outro lugar, seria uma humilhação, uma confissão de falta de cultura e desconhecimento da língua pátria. A maioria respeita a linguagem de cada um dos povos lusófonos, considerando que é assim, pela diversidade, que a língua portuguesa se enriquece.”

Você disse tudo, amigo Manuel, obrigado. Sem mais comentários.

Francisco Simões (Março / 2009)

Outro email do Simões, de março de 2009:

Meus bons amigos e queridas manas, espero que já tenham lido, no meu site pessoal, em Crônicas, o meu artigo atual de O DESACORDO ORTOGRÁFICO. Infelizmente no Brasil o que se vê é um bando de gente a se apressar em aderir ao que só vigorará, se vigorar, pois tenho sérias dúvidas sobre isso, em 2012. Mas como sempre disse um amigo, temos por aqui aquele tipo de pessoa que… “nem precisa mandar rezar que já está ajoelhado”. Uma lástima.

Há os que fecham a janela do conhecimento, deixam de respirar o ar da inteligência, e se ligam só na comunicação que, no Brasil, infelizmente só aqui, já vai apoiando o que a esmagadora maioria dos que falam português não aceita e se recusa a usar. A amiga Ângela Stefanelli me mandou isto. Gostei demais porque pessoas inteligentes vão fazendo a crítica, cada um a seu modo ou maneira, deixando as sobras do pasto para os capachildos assumidos. me desculpem a sinceridade. Pena que ela não sabe o nome do autor ou autora, eu gostaria de o(a) cumprimentar.

Mesmo assim repasso a vocês, lembrando que ante ontem vi na Tv uma coisa por demais absurda: pessoas letradas a fazer já, e agora, uma revisão de obras antiquíssimas, como se os autores de antigamente estivesem sujeitos à essa bobagem que hoje nos tentam impor, mas não o conseguirão, digo e reafirmo. Meu Deus, tanta coisa importante e urgente precisa ser feita neste país e eles a catar tremas para terem o sanguinário prazer de os retirar de livros que mereciam dessas senhorias melhor e maior respeito. Falei e disse. Prometo que volto escrevendo novamente sobre este assunto. Leiam agora o que recebi da boa amiga Ângela.

Um abraço do amigo para sempre,
Francisco Simões.


REPASSANDO
Ângela

Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.
Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.
Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.
E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.
O que vai acontecer com o grão de bico com gergilim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que “a última enxagüada é a que fica”!
Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!
O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?
Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.
Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.
Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.

Outro email do Simões, de 13/6/2009:

Desde quando começaram a se assanhar com o tal “DESACORDO ORTOGRÁFICO”, assim por mim chamado, da nossa língua portuguesa, eu comecei a colocar minha opinião sincera, leal, de quem sabia o que estava dizendo, sendo contra todas aquelas regras e contra regras que nos querem impor de cima para baixo sem nenhum respeito aos nossos povos em geral. Nunca fugi à responsabilidade, mas afinal quem sou eu, este véio e esforçado escriba, filho de pai português, para se meter onde alguns devem ter achado que não “fui chamado”!!! Pois.

Bem, escrevi diversas vezes sobre o assunto, afirmei com todas as letras que o povo português e os de países de origem portuguesa, jamais iriam aceitar aquilo, era só uma questão de tempo. Nem mesmo intelectuais, os mais sérios e responsáveis do lado de lá e de cá do Atlântico, participariam daquele DESACORDO. Eu escrevi, afirmei e reafirmei e dei exemplos, e até recebi alguns bons apoios de amigos e amigas dedicados à literatura do lado de cá. É verdade que uns poucos escreviam estudando bem suas palavras para não se comprometerem com o que diziam apoiar, porém… sabe como é ficar em cima do muro?? Então pois, é isso. Outros e outras foram mais contundentes no apoio, obrigado.

E agora o conhecido jornalista Marcos Castro, de O GLOBO, desta Organização de Mídia que não tem se cansado de fazer diversas divulgações diárias pela TV tentando “ensinar” como se deve escrever e/ou falar agora após o tal DESACORDO, nos informa o que realmente está ocorrendo em Portugal e alhures. Nem vou dizer… “eu não falei”… não, não direi isto porque fica deselegante, mas bem que devia. E mais, por aqui já andam até exigindo em escolas o aprendizado do que certamente nem vai vingar, só na mente de pessoas que se julgam acima das razões de nossos povos, sua história, seus hábitos e costumes, mas, afinal isto é Brasil… Lamentável, muito triste e mesmo vergonhoso. Infelizmente é como dizia um amigo já falecido: “nem precisa mandar rezar que já está ajoelhado”… risos… (…)

Da minha parte por ora eu me calo, vou curtir o sabor de uma espécie de “vitória” na certeza de que mais tempo menos tempo o DESACORDO vai ruir por inteiro, pois insistir com ele vai ser bem pior para os nossos países com relação à idéia que façam de nós outros povos. E é só.

Um abraço amigo do
Francisco Simões. (www.franciscosimoes.com.br)

Clique para ampliar a imagem:

6eff5 portugal reage

Atrasado, como sempre, O GLOBO começa agora a publicar novas idéias sobre as novas normas:

MUDARAM A NOSSA LÍNGUA

Cheguei recentemente de Portugal, entusiasmada com a reação dos lusitanos contra o Acordo Ortográfico. Num país com cerca de 10 milhões de habitantes, eles já recolheram quase 200 mil assinaturas em defesa do próprio patrimônio lingüístico. Palmas para os portugueses, que respeitam o idioma que falam e sabem que a língua, um organismo vivo, modifica-se de baixo para cima. Até virar norma culta, o povão já cansou da novidade. Ou seja, as mudanças acontecem naturalmente e impor regra é tolice.
Acho que também devemos defender as nossas idiossincrasias. Cada roca com seu fuso, cada língua com o seu uso. Falamos o mesmo idioma, mas em expressões distintas, pois distintos são as nossas Histórias e o nosso caráter.
O idioma é a mais forte representação de uma nacionalidade e mudá-lo por decreto é desrespeitar os seus usuários. A lingüística ensina que uma língua é um sistema de signos utilizado pelo mesmo grupo social. O “brasileiro”, como os portugueses qualificam a nossa linguagem, é um sistema fortíssimo, com quase 200 milhões de falantes. Nós o estamos construindo há 500 anos, enriquecendo-o à nossa maneira, adaptando as normas gramaticais às nossas particularidades, nacionalizando termos de todas as áreas do saber. Das ciências, da tecnologia, de correntes de pensamentos e até gírias.
O texto introdutório do Acordo afirma que, através dele, os países lusófonos alcançarão prestígio internacional. Lamento discordar, ninguém precisa abrir mão de suas características para ser respeitado. O português do Brasil codifica um ciclo completo da produção industrial: nós extraímos o ferro e o transformamos em aviões com tecnologia de ponta, enriquecemos urânio, desenvolvemos vacinas. Apenas três exemplos de atividades codificadas pelo “brasileiro”. Há mais, muitas mais. O respeito, portanto, vem a reboque do desenvolvimento. Tremas, hífens e acentos agudos nada têm a ver com a importância que o mundo dá a um País.
Nos últimos 50 anos, o “brasileiro” passou por três reformas. A última, em 1971, sumiu com grande parte dos acentos diferenciais. Na época, nasciam os atuais repórteres de rádio e televisão que hoje, noticiando a Gripe Suína, confundem cepa (com E aberto, significa plantas da família das liliáceas) com cêpa (linhagem, origem). Após 1971, os dois vocábulos passaram a ser grafados igualmente: cepa. Resultado: quem escuta alguns jornalistas divulgando a pandemia, confundindo cépa com cêpa, acredita que o vírus é uma babosa assassina capaz de contaminar as pessoas com a gosma. Já não é suficiente tanta confusão? Precisamos aumentá-la? Por quê? Para quê? Baseados nos argumentos de que, no mundo moderno, não há lugar para a dupla expressão lingüística? Que a padronização favorece a aproximação cultural e econômica?
Em inglês há muitas discordâncias. Para ficarmos no básico: nos Estados Unidos, agenda se chama Appointment Book. Na Inglaterra, Diary. Num lado Metrô é Subway. No outro, vira Underground. O norte-americano grafa favorite, Gray e theater. Os ingleses escrevem favourite, grey e theatre. E não há notícias de que alguns gênios de plantão pretendam modificar a (ainda) língua mais poderosa do mundo. Diversas construções sul-americanas, além da matriz hispânica, fazem o idioma espanhol. João Sedycias, professor titular na Universidade de Newwark, afirma que “a língua espanhola não é idêntica em todos os lugares (…)”. Até onde sei, também não há Cervantes debruçados nas diferenças, tentando pasteurizar as distintas emoções.
Próxima culturalmente, a comunidade lusófona sempre foi. Nunca existiu problema de comunicação no mundo português. Aliás, se existisse, o que seria das nossas novelas? OK, a proximidade econômica deixa a desejar. Mas não será este Acordo pornográfico – quero dizer, ortográfico – que mudará alguma coisa.
Respeitemos as diversas expressões da maravilhosa língua portuguesa. Elas representam ricas e diferentes Histórias. Seguindo o exemplo do além mar, respeitemos, principalmente, a nós e à nossa cultura. Façamos chegar ao Ministro da Cultura (cgm@cultura.gov.br) o nosso protesto.
Hare Baba, ainda há tempo. Vamos recusar o Acordo Ortográfico.

PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO e em http://dutrademenezes.blogspot.com/2009/07/mudaram-nossa-lingua.html.

31 de julho de 2009, página sete, Primeiro Caderno, seção Opinião.

4 respostas

  1. Um texto que não preciso de muitos comentários. Estou aderindo a campanha, Fabio. Precisamos de mais iniciativas como esta!Abraço!

  2. Fabio querido!Vou entrar nessa também! Me orgulhava de saber escrever direito… não quero que tirem isso de mim!Acabei de “arrumar” o “vôo” do meu último post!Só falta descobrir em que lugar do HTML do template consigo postar a frase.Posso linkar teu post?Beijo!

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