A felicidade está ao alcance do homem comum ou ela é uma condição do filósofo? – Soraya Monteiro Deminicis

Amigos, segue um trabalho que achei muito bom sobre felicidade e Filosofia, da Soraya, amiga de graduação em Filosofia na UERJ. Foi apresentado no II Seminário de Filosofia Antiga e ela autorizou sua publicação aqui. Se quiser ler mais sobre o tema, fiz um trabalho também, já postado aqui: ÉTICA A NICÔMACO: A FELICIDADE PARA ARISTÓTELES.

A felicidade está ao alcance do homem comum ou ela é uma condição do filósofo?

Soraya Monteiro Deminicis[1]

O conceito de felicidade e uma possível diferenciação entre a felicidade das pessoas comuns e a dos filósofos é um questionamento que venho fazendo desde o primeiro contato com a filosofia e que desejo apresentar de forma introdutória através das idéias de alguns pensadores antigos e contemporâneos.

“ Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção… É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar…” ( Pascal, 2001) Esta citação de Pascal nos faz pensar que a busca da felicidade é aquilo que existe de mais comum no mundo inteiro. Aquele que se enforca está fugindo da infelicidade e portanto, em busca da felicidade, mesmo que seja no encontro com a morte, ou melhor, mesmo que a busca da felicidade se dê de forma um tanto negativa.

Sendo a felicidade a meta da filosofia de acordo com o filósofo André Comte-Sponville, filosofar serve para nos tornar felizes ou para vivermos mais felizes, porque através da filosofia vivemos melhor, ela é uma atividade que nos proporciona uma vida feliz por intermédio dos seus discursos, já dizia Epicuro.

No período mais arcaico da história, a felicidade não era algo a que os homens pudessem almejar, ela lhes cabia por destino, ou seja, as qualidades de um homem eram dadas pelos deuses e essas qualidades, como: coragem, desprendimento e amor à glória, poderiam torná-lo um herói e o distinguiriam de um homem comum, em caso de morte numa batalha.
A felicidade para o herói era poder estar num campo de batalha e sobretudo, se tornar objeto de admiração com a “bela morte”. Isto quer dizer que o guerreiro só se tornaria um herói depois de morto. Sendo assim, ele teria sido considerado um homem feliz, pois foi agraciado com qualidades que o tornaram diferente do homem comum e pôde terminar a sua vida com glória e passando a ter registro no Kléos.
Podemos ver como exemplo dessa idéia de felicidade, apenas ao final da vida, com Sófocles: “… Eu diria que um homem mortal, enquanto ele está esperando para ver o dia final, não pode ter felicidade, ou ser libertado da dor até que ele passe o final da vida”. ( Sófocles, Édipo Rei, 1528-30 ) Essas palavras de Sófocles confirmam a crença que se tinha de que a felicidade era, na verdade algo de divino, abençoado e que só cabia a poucos. Somente no final da vida, após a morte do cidadão se podia dizer ter sido ele um homem feliz. Os infortúnios a que qualquer homem está sujeito, poderiam acometê-lo mesmo próximo ao fim da sua vida e ainda que a maior parte dela tivesse sido boa, esse último fato tiraria dele a benção da felicidade. Também Sólon, considerado um dos sete sábios atenienses (séculos VII e VI a .C) acreditava na felicidade apenas como uma condição dada ao cidadão depois da sua morte, ou melhor, a felicidade só lhe seria concedida se tivesse passado pela vida com sorte e sem infortúnio até o final. A felicidade era a descrição de uma vida completa, como bem observamos na resposta de Sólon a Creso, rei da Lydia, sobre quem seria o mais feliz. Creso, depois de mostrar sua fortuna e seu poder, perguntou a Sólon quem seria o mais feliz e este aponta, numa determinada ordem, o nome de vários outros homens com sorte e glória, mas não chega a mencionar o seu. Creso, já se sentindo afrontado com as respostas de Sólon, quis saber por que não era considerado um homem feliz e Sólon, então, responde: “…é impossível um homem reunir as condições necessárias à felicidade da mesma maneira que nenhum país possui todos os meios de que necessita. Se conta com uns, está sempre privado de outros; o melhor será o que possuir maior número deles. Assim acontece com o homem: não há um que se baste a si mesmo. Se possui algumas vantagens, outras lhe faltam. Quem reúne maior número e o conserva até o fim dos dias, deixando tranqüilamente a vida, este, senhor, merece, na minha opinião, ser chamado feliz. Devemos considerar o término de todas as coisas e ver que nisso se encontra a única saída; pois Deus, depois de entremostrar a felicidade a certos homens, costuma destruí-la por completo de um momento para o outro..” ( Heródoto, 2001: 62 )

O homem assumia uma postura passiva diante da própria vida. Tudo que acontecia ficava na conta do destino, não havia a busca da felicidade porque esta não podia ser conquistada, ela era dada por deus, que também podia tirar-lhe a qualquer momento. Ela era um produto da sorte, não era algo prontamente acessível às pessoas comuns.

A filosofia permite ao homem uma ação, uma atitude ativa diante da própria vida sempre tendo como meta a felicidade. Como já dito anteriormente, a filosofia nos permite um bem viver e esse bem viver passa a ser uma conquista humana através de seus atos e atitudes. Ele não mais fica à mercê do acaso e das bênçãos divinas. As atitudes perante a vida é que darão ou não ao homem a condição de felicidade.
Com Sócrates, o saber é condição precípua do agir. O seu preceito, segundo Franklin Leopoldo, “ Conhece-te a ti mesmo” significa: “a felicidade humana, a realização íntegra da excelência de ser humano depende do conhecimento de si , isto é, do conhecimento do homem no plano da sua essência. A realização existencial de uma vida feliz tem como requisito o conhecimento essencial de tudo que diz respeito ao homem, individual e coletivamente” (Franklin Leopoldo,2007: 23 ). O auto-conhecimento e o conhecimento da natureza, do mundo indica ao homem o caminho da vida feliz. Isso só é possível através da investigação filosófica.

A investigação filosófica permite o acesso ao mundo inteligível, do uno, do mundo do homem sábio. A dimensão sensível é sempre a do múltiplo, a do mútavel e do instável, suscetível de incompletude o que torna o homem muito vulnerável diante dessa falta. Ele sempre tem algo a realizar, a compor, a construir. A sua felicidade nunca chega porque ela não é possível sem tantas coisas a serem conquistadas. O homem quer o prazer, mas a felicidade humana depende da escolha dos prazeres, conforme observamos no diálogo Filebo de Platão, cujo exame dos prazeres é apenas um pretexto para nos colocar a frente da verdade a respeito do mundo sensível, factual e do mundo inteligível, permanente. Nós somos os sentidos, os prazeres imediatos e também a inteligibilidade e é a justa medida entre o prazer e o intelecto que nos proporciona uma vida feliz.

A felicidade recebe um tratamento mais adequado e elevado, segundo Bicca ( 1999), no nível da reflexão ética. Sendo assim, encontramos em Aristóteles a ética como caminho para a felicidade, que é o fim para o qual todas as ações tendem.

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles propõe um conjunto de desafios, ainda bastante atuais, diga-se de passagem, de sobre como alcançar a felicidade através da virtude, que é a mediania entre o excesso e a falta, ou melhor, é uma justa medida, uma disposição de agir com mediania diante das paixões. A virtude, para Aristóteles, é uma prática, uma razão prática construída através do hábito.

A virtude supõe uma disposição, acrescenta Bicca, “ou é, ela mesma uma disposição resultante do desenvolvimento de uma capacidade, pelo exercício inerente a essa capacidade. Ela deve tender para um justo ‘meio-termo’, pressupondo nesse sentido que se possua uma sabedoria prática ( frónesis).” ( Bicca, 1999:83). A virtude se constrói na ação humana e a felicidade se assenta na atitude virtuosa. “ A felicidade é uma atividade da alma segundo virtude perfeita.” ( Ética a Nicômaco, I , 13 1102 a 05 ).

Ela é o bem mais acabado ( teleion) , o bem último, também chamado de bem absoluto e este é auto-suficiente, quer dizer, é aquilo que em si mesmo torna a vida desejável, sem precisar de mais nada, é o bem que se basta porque ela não é buscada com vistas em mais nada, a não ser nela mesma e por ela mesma, a felicidade é sempre procurada por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, “ ao passo que à honra, ao prazer, à razão e todas as virtudes nós de fato escolhemos por si mesmos( pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse deles nos tornará felizes.” ( Ética a Nicômaco, I, 7: 1097b ). A felicidade é auto-suficiente.

É sempre uma atividade e uma atividade virtuosa, porque segundo Aristóteles, “ pode existir o estado de ânimo sem produzir nenhum bom resultado, como no homem que dorme ou que permanece inativo; mas a atividade virtuosa, não: essa deve necessariamente agir, e agir bem.” ( Ética a Nicômaco, I, 8: 1099 a ) Isto quer dizer que a felicidade supõe uma disposição e uma disposição para agir segundo a reta razão, é uma sabedoria prática. Os bens intelectuais são acrescido de bens exteriores, materiais como aquisição de bons hábitos, ter nascido em boas condições, ter boa saúde, porque a felicidade é também uma dádiva e portanto, não está ao alcance de todos. Aqueles que por ventura, forem acometidos por muitos infortúnios ao longo da vida, não alcançarão a dádiva da felicidade.

No livro X da Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta o filósofo [sophos] como o mais caro aos deuses, como o mais feliz dos homens porque só ele mesmo pode contemplar a verdade. A sua vida contemplativa é a mais contínua de todas atividades e a atividade da filosofia é a mais aprazível das atividades virtuosas. A felicidade se dá por meio da virtude que é o bem agir. O filósofo age de acordo com a reta razão, de forma prudente e sábia, por isso a sua felicidade ser a mais perfeita, mais independente ( autárquica ).

Ao que Aristóteles chamou de virtude, Epicuro, um filósofo hedonista, chamou de prazer, que seria o início e o fim de uma vida feliz. Ele dividiu o desejo em naturais e os inúteis. Dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; entre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos é que direciona toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz, porque é em razão desse fim que são praticadas todas as nossas ações, que nos afastam da dor e do medo.
Para Epicuro, era o prazer que nos trazia a felicidade, não um prazer imediato dos intemperantes ou os que consistiam no gozo dos sentidos, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Ele não fala de um prazer físico e imediato, mas que a sabedoria consiste em se distinguir e separar os prazeres que são compatíveis com a serenidade que se pode conseguir numa vida feliz. Uma vida feliz não pode ser escravizada pelas paixões ou pelos prazeres efêmeros, porque a felicidade é liberdade.

Seja como for, ou qual nome se dê à conquista da felicidade, o fato é que a partir da filosofia, o homem mudou a sua atitude frente à vida. A vida pode ser uma dádiva, mas pode também ser uma conquista humana. Nós construímos a vida que queremos apesar dos infortúnios.
O filósofo foi aquele que se espantou com a vida, com a natureza, com a serenidade que a vida conserva diante do seu movimento eterno. Ele viu algo extraordinário que o surpreendia arrebatando-lhe o olhar, é um admirar-se. No diálogo Teeteto, Platão refere-se à esta admiração como um pathos, um estado interior que sentimos quando algo nos arrebata. Esse espanto é a felicidade, que pode vir como serenidade tal como acreditava Schopenhauer, como Bem supremo de Platão de Aristóteles ou como prazer de Epicuro.

O homem comum não se espanta porque ele vive sempre muito ocupado e essa ocupação o impede de ser feliz. O homem comum vive a buscar a felicidade na posse dos bens, nas riquezas e nos prazeres efêmeros. Dessa forma, podemos dizer que o homem comum vive uma felicidade superficial, porque uma vez baseada no que está fora ela é sempre inatingível, o que se tem na verdade, é um simulacro da felicidade.

Acreditamos que os filósofos são felizes, se a filosofia promove o bem viver, ela promove felicidade porque ela nos coloca em contato com o divino, com os mistérios, nos promove um encantamento pela vida e assim como Nietzsche, devemos viver a vida em toda a sua plenitude. O amor fati era o conceito de felicidade do filósofo. O amor incondicional à vida, o amor ao destino, o amor à própria condição, o amor a si próprio.
O significado da vida, para Nietzsche, estaria no “eterno encantamento pelas coisas da natureza”, pelas coisas naturais, pelas coisas do mundo — este mundo, não “outro mundo”, não um mundo “além daqui” ou “além de nós”. Esse eterno encantamento pela vida, pelas coisas da natureza, pelo Outro é o que nos impulsiona a querer as coisas como elas são.

Esse amor incondicional pela vida, pelas coisas como elas são é um puro investimento no presente, é ser feliz agora, e isso mostra uma despreocupação com a morte, que é o grande fantasma do homem comum. O medo da morte impede a vida, o medo da morte prende o homem a um futuro que não existe, exatamente porque é futuro, e o impede de realizar o presente. Aquele que ama o seu destino e vive plenamente todos os seus dias não se preocupa com a morte, como Sócrates, que morreu feliz.

A morte nada pode contra nós, já dizia Epicuro. Quando nós aqui estamos, ela não está e quando ela está nós não estamos mais. Sendo assim, o sábio não se preocupa com o futuro próximo, ele sabe que o tempo em si, representa a morte. Morremos a cada instante, uma vez vivido não retorna e leva consigo aquilo que fomos.

Nesse sentido, ser feliz é viver o presente, é contemplar o instante e assim, poder se espantar com a vida, que é dinâmica e nos permite um espanto eterno, basta vontade, desejo. A filosofia é uma grande aliada nesse olhar contemplativo do presente e, sobretudo, na desocupação dessa condição de homem comum vivendo apenas para si mesmo, envolto na ilusão de que tudo pode na medida em que acumula riquezas e tesouros e não compreende que basta uma mudança de atitude. É uma simplicidade para o entendimento e para a vida. A felicidade é a pura simplicidade que precisamos e que só alcançamos quando resolvemos olhar para dentro de nós ao invés de procurá-la fora de nós.

O filósofo é o mais feliz ou é o único feliz? À essa pergunta, Schopenhauer respondeu que não acreditava numa existência feliz: “ Como se sabe, à pergunta de se a vida humana corresponde ou pode corresponder a esse conceito de existência ( isso é, à existência feliz), minha filosofia dá uma resposta negativa.” ( Schopenhauer, 2001; máxima49 ). Talvez ele estivesse falando de uma felicidade plena, livre da instabilidade provocada pelo desejo, que uma vez conquistada, não pode sofrer abalo. O filósofo falava de serenidade como único meio de encontrar a felicidade, mas não uma felicidade eterna, porque enquanto humanos estamos sujeitos à inconstância do desejo e aos percalços da vida, e sim, a momentos felizes, uma vez que a serenidade nos manteria afastados do desejo, ou pelo menos, funcionaria como uma tentativa.

Mas será que uma vida ou uma existência feliz está livre do sofrimento? Ou será que sofrimento e felicidade são incompatíveis. Penso que a felicidade não inviabiliza o sofrimento, mesmo sendo o filósofo um homem feliz ele não escapa do sofrimento porque este é constitutivo da condição humana. Ao contrário de inviabilizar, o sofrimento o tornará ainda mais forte, mais prudente e ainda mais feliz.

Schopenhauer não achava possível termos uma existência feliz porque como humanos temos uma natureza desejante e esta é incompatível com a felicidade porque o desejo é sempre insatisfeito. O desejo é falta para o filósofo, então, estaríamos sempre na condição de faltosos e angustiados. Se todos desejamos ser felizes, isso significa que não temos felicidade, que ela nos falta porque só desejamos aquilo que não temos.

Sobre esse tema, Comte-Sponville, em A felicidade deseperadamente, esclarece que há uma diferença entre desejo e esperança. Só esperamos o que não possuímos, não podemos esperar pelo que já temos, mas podemos desejar aquilo que já possuímos, ao contrário do que pensávamos.
Segundo ele, desejo e esperança são duas coisas ligadas, mas diferentes: toda esperança é um desejo, mas nem todo desejo é uma esperança. A esperança é um desejo de algo que não se tem. Esperar é desejar sem gozar, não tem ação, efetivação. Pode se referir ao passado, ao presente e ao futuro. A esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós.
O autor cita Spinoza para definir o desejo, que seria potência, ação, gozo. O desejo depende de nós, por isso também podemos desejar aquilo que possuímos. A idéia de felicidade para Spinoza é o desenvolvimento da potência, que também é sabedoria, é conhecimento, é ação e é amor. Felicidade então, é um processo, um contínuo, é ação e por isso é desejo e não esperança no sentido real, de passividade.
Ele esclarece essa diferença através de um exemplo simples como o fato de estarmos sentados em algum lugar. Se sentamos é porque esperamos por isso, mas se continuamos sentado é porque desejamos permanecê-lo. O desejo depende exclusivamente de nós, de nossa vontade e ação. A esperança não depende de nós, só podemos sentar quando o assento está vago, mas só levantamos ou permanecemos sentados quando queremos.

O desejo é pura ação, assim como nos mostra Spinoza na proposição XXI da Ética IV: “Ninguém pode desejar ser feliz, agir bem e viver bem que não deseje ao mesmo tempo, ser, agir e viver, isto é, existir em ato. “ (pág.238)

Atualmente, a felicidade é assunto corrente dos cientistas. Tenta-se descobrir o funcionamento da felicidade, em quais áreas do cérebro ela estaria presente e como reage a diferentes estímulos. A ciência nos apresentou o homem mais feliz do mundo. Segundo os cientistas, foi possível detectar a felicidade através de medidores neuronais em sua cabeça, bem como através de medidores do comportamento de acordo com as atitudes frente às diversas situações da vida.
Essa “grande descoberta da ciência” poderá fazer do homem comum, ocupado para a vida, um homem feliz, uma vez que se descubra também como manipular essa felicidade através de medicamentos que ajam especificamente para esse fim, assim como a colocação de um chips para melhorar o “funcionamento da felicidade”.
Com certeza isso se tornaria um grande avanço da humanidade em prol de uma vida feliz sem esforço, bastando apenas uma “ajudinha” da tecnologia, como já se tem para a aquisição da beleza e para o afastamento da velhice, ou melhor, o tratamento para os efeitos da idade no corpo. Os problemas se tornariam mínimos ou não mais existiriam. As propagandas estão aí para dar uma ajudinha a quem precisar. Ser feliz é uma questão de estilo.

Os filósofos encontraram o caminho da felicidade e mostraram para o homem comum, mas cada um de nós tem que encontrar o seu. Eles apenas nos contaram o que viram, assim como no Mito da Caverna de Platão, cada prisioneiro deverá fazer o seu trajeto para encontrar a saída. Para uns talvez seja a filosofia, para outros arte, para outros, quem sabe, um comprimido ou uma fórmula. Para estes, a felicidade será sempre uma esperança e para aqueles um desejo.

A felicidade, assim como todas as experiências humanas, é uma experiência singular, apesar de o instrumento usado, como no caso do questionamento da Filosofia, ser comum a vários. E uma vez alcançada, a felicidade pode ser mensurada, podemos ser o mais feliz ou simplesmente feliz?
“ Uma afecção qualquer de cada indivíduo difere da afecção de outro tanto como a essência de um difere da essência de outro.” ( Spinoza, proposição LVII, pág.209 ) Com essa proposição de Spinoza, respondemos à pergunta anterior sobre a mensuração da felicidade entre os homens. Se a essência de um é diferente da essência de outro, a felicidade de um é diferente da felicidade de outro mesmo que seja felicidade para ambos.

E felicidade não pode ser entendida como uma condição futura, tal como a esperança, que como já vimos, é diferente de desejo, que é presente. O momento feliz é o momento atual, e para dizer sobre esse presente que tem a duração do instante que passa, nada melhor que o poema de Geraldo Eustáquio de Souza, chamado a Idade de ser feliz:

A IDADE DE SER FELIZ

Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa

Geraldo Eustáquio de Souza

Referências bibliográficas:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção “ Os Pensadores”, São Paulo: Abril cultural, 1972.
BICCA, L. Questões Persistentes. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.
COMTE-SPONVILLE, A . A felicidade desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes,2005
EPICURO. Carta a Meneceo. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
ESPINOSA . Coleção “ Os Pensadores”, São Paulo: Abril cultural, 1972.
HERÓDOTO. Histórias Livro I. São Paulo: Ediouro, 2001.
NIETZSCHE, F. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo: Martins Fontes, 2001
PLATÃO. Filebo.
SCHOPENHAUER, A . A arte de ser feliz. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
SILVA, F. L. Felicidade: dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos. São Paulo: editora Claridade, 2007.


[1] Aluna do curso de Filosofia da UERJ. Pesquisadora do NEA/UERJ. Orientanda da Prof.Dra. Izabela Bocayuva.

2 respostas

  1. Pingback: ÉTICA A NICÔMACO: A FELICIDADE PARA ARISTÓTELES - Filosofia
  2. Sinto felicidade quando realizo algo que me leva a uma plenitude de valor, essencialmente, emocional. Embora, o material , por vezes, contribui para a realização daquilo que me fará feliz. Hipocrisia dizer que, o emocional e o material não são codependentes para o estado de felicidade.

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