MERGULHO

Para Clarice Lispector

Aos 9 anos de vida não suportava que André desenhasse melhor que ele. E o pior é que ele desenhava. Traços arredondados, com estilo… Então, começou a espalhar um boato sobre ele. Boato que chegou aos ouvidos da diretora, obrigando-o a criar um esquema fraudulento, elaborado com a astúcia que se têm aos 9 anos de idade, para acusar André Luís, aquele bonachão, de ladrão. Afinal, seu dinheiro havia mesmo sumido da pasta azul… E bem que poderia ter sido André o gatuno. A diretora vem pra sala, conversar com toda a turma. E seu amigo Geraldo, minutos após o início do julgamento, ergue o braço, com cara de culpa. E delata calmamente seu plano perfeito, na frente de todos, testemunhas compradas ou não. Dedo-duro desgraçado. E assim, foi chorar com a diretora, envergonhado, o cabeça do plano. No fundo, sabia meio errado o que fazia, mas André desenhava tão melhor que ele… Lembrou das meninas para quem ele contava histórias com a mão esquerda pintada de rosto, agora elogiando os desenhos do gordo André. Estranhou a diretora calma e montessoriana consolando-o. E a mãe também aceitou bem a notícia dentro do colégio, quando foi pegá-lo, como fazia diariamente. Mas seu sorriso desbotou ao ouvir a história. Ele notou algo errado na morte já do primeiro sorriso da mãe. E ela espancou suas pernas enquanto dirigia e chorava pelo caminho. Nesse momento, não sabia de que complemento verbal tinha mais medo: do bater nele ou do bater o carro. Em casa, o quarto onde dormia, agora transformado em aposento de ficar de castigo, era todo silêncio e medo e rejeição e falta de amor e paredes brancas e excesso de tempo até o pai chegar do trabalho. Dias, meses naquelas horas… Sem poder ligar a TV. Parecia maior, parecia outro quarto… Como suportar aquele quarto? Cheio de silêncio e ele mesmo no meio, sem nem sentar no sofá que talvez não pudesse também, pois estava de castigo. Começou a partir daí a achar que ele merecia um quarto daqueles, aqueles castigos e quaisquer outros futuros… Merecia. Suas escolhas foram erradas. Melhor seria seguir escolhas ditadas: como ser castigado seguindo apenas idéias dos outros? Dias depois, abriu a pasta e achou o dinheiro num canto. Jogou no vaso sanitário (o seu coração pulsando) e deu descarga. Durante uns trinta anos.

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