Memórias do Subsolo, de Dostoiévski e o homem ressentido para Nietzsche

Memórias do Subsolo, de Dostoiévski e o homem ressentido para Nietzsche

O que Nietzsche chamou de “ressentido” é retratado magistralmente nesse texto de Dostoiévski. Seguem trechos selecionados:

“Sou um homem doente… um homem mau. Um homem desagradável.”

“Sou desconfiado e me ofendo com facilidade.”

“Mas vejamos agora esse camundongo em ação. Suponhamos, por exemplo, que ele esteja ofendido (quase sempre está) e queira vingar-se. Acumula-se nele, provavelmente, mais rancor que em l´homme de la nature et de la verité, porque l´homme de la nature et de la verité, devido à sua inata estupidez, considera a sua vingança um simples ato de justiça. Já o camundongo, em virtude de sua consciência hipertrofiada, nega haver nisso qualquer justiça. O infeliz camundongo já conseguiu acumular, em torno de si, além da torpeza inicial, uma infinidade de outras torpezas, na forma de interrogações e dúvidas; acrescentou à primeira interrogação tantas outras não resolvidas que, forçosamente, se acumula ao redor dele certo líquido repugnante e fatídico, certa lama fétida, que consiste nas suas dúvidas, inquietações e, finalmente, nos escarros – que caem sobre si em profusão – dos homens de ação agrupados solenemente em torno dele, nas pessoas de juízes e ditadores, e que riem dele a mais não poder, com toda a capacidade de suas goelas sadias. Naturalmene, resta-lhe sacudir a patinha em relação a tudo e, com um sorriso de fictício desprezo, no qual ele mesmo não acredita, esgueirar-se vergonhosamente para a sua fendazinha. Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e de cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, maldosamente espicaçando-se e zombando de si mesmo com a sua imaginação.”

“Em toda a minha vida, não pude começar nem acabar coisa alguma. Admitamos, admitamos que eu seja um tagarela, um tagarela inofensivo, magoado, como todos nós. Mas que fazer, se a destinação única de todo homem inteligente é apenas a tagarelice, uma intencional e vazia tagarelice.”

“Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com a sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará.”

“Afinal de contas, eu provavelmente nunca saberia o que fazer com minha magnanimidade – nem perdoar, porque meu ofensor pode ter me esbofeteado em obediência às leis da natureza; nem esquecer, pois, mesmo que se trate das leis da natureza, ainda assim é ofensivo.”

“Podeis cobri-lo de todo os bens terrestres, afogá-lo em felicidade, de tal modo que apenas umas bolhazinhas apareçam na superfície desta, como se fosse a superfície da água: dar-lhe tal fartura, do ponto de vista econômico, que ele não tenha mais naa a fazer a não ser dormir, comer pão-de-ló e cuidar da continuação da história universal – pois mesmo neste caso o homem, unicamente por ingratidão e pasquinada, há de cometer alguma ignomínia.”

Dostoiévski – Memórias do Subsolo

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