Nietzsche e Jung

Nietzsche e Jung

Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos e não sem ter motivo. Nunca nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. Nosso tesouro está onde se assentam as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre no caminho para elas como animais alados de nascimento e recolhedores do mel do espírito, nos preocupamos de coração propriamente de uma só coisa – de “levar para casa” algo. No que se refere, por demais, a vida, as denominadas “vivências” – quem de nós tem sequer suficiente seriedade para elas? Ou o suficiente tempo? Jamais temos prestado bem atenção “ao assunto”: ocorre precisamente que não temos ali nosso coração – e nem sequer nosso ouvido! Antes bem, assim como um homem divinamente distraído e absorto a quem o sino acaba de estrondear fortemente os ouvidos com suas dozes
batidas de meio-dia, e de súbito acorda e se pergunta “o que é que em realidade soou?”, assim também nós abrimos às vezes, os ouvidos depois de ocorridas as coisas e perguntamos, surpreendidos e perplexos de tudo, “o que é que em realidade vivemos?, e também ” quem somos nós realmente? e nos pomos a contar com atraso, como temos dito, as doze vibrantes campainhas de nossa vivência, de nossa vida, de nosso ser – ah! e nos equivocamos na conta… Necessariamente permanecemos estranhos a nós mesmos, não nos entendemos, temos que nos confundir com outros, e, em nós servirá sempre a frase que disse “cada um é para si mesmo o mais distante” continuamos a nos considerar “homens do conhecimento”.

(Nietzsche, F. W. Genealogia da moral – prólogo, parágrafo 1 Sils Maria, julho de 1887).

Em sua compreensão mais profunda, a Psicologia é autoconhecimento. Mas como este último não pode ser fotografado, calculado, contado, pesado e medido, é anticientífico. Mas o homem psíquico, ainda bastante desconhecido, que se ocupa com a ciência é também “anticientífico” e, por isso, não é digno de posterior investigação? Se o mito não caracteriza o homem psíquico, então seria preciso negar o ninho ao pardal e o canto ao rouxinol. Temos motivos suficientes para admitir que o homem em geral tem uma profunda aversão ao conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmo, e que é aí que se encontra a verdadeira causa de não haver avanço e melhoramento interior, ao contrário do progresso exterior.

(Extraído do prefácio ao livro “A Função transcendente”, de C. G. Jung – Originalmente publicado em Zurique, em 1958).

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