Deleuze e o Eterno Retorno Nietzscheano

“Perguntamo-nos também o que há de surpreendente no eterno Retorno, se consiste em um ciclo, isto é, em um retorno do Todo, em um retorno do Mesmo, em um retorno ao Mesmo: mas, precisamente, não se trata disso. O segredo de Nietzsche está no fato de o eterno Retorno ser seletivo. E duplamente seletivo. Em primeiro lugar, como pensamento. Porque nos dá uma lei para a autonomia da vontade desembaraçada de toda moral: o que eu quero (minha preguiça, minha gula, minha covardia, tanto meu vício quanto minha virtude) “devo” querê-lo de tal maneira que queira também seu Eterno Retorno. Encontra-se eliminado o mundo dos “semi-quereres”, tudo isso que queremos sob a condição de dizer: uma vez, nada mais que uma vez. Até mesmo uma covardia, uma preguiça que quisessem seu eterno retorno se tornariam algo diferente de uma preguiça, de uma covardia: se tornariam ativas e se converteriam em potências de afirmação. E o eterno Retorno não é apenas o pensamento seletivo, mas também o Ser seletivo. Só regressa a afirmação, só regressa o que pode ser afirmado, só a alegria retorna. Tudo o que pode ser negado, tudo o que é negação, é expulsado pelo movimento mesmo do eterno Retorno. Tememos que as combinações do niilismo e da reação não regressam eternamente. O eterno Retorno deve ser comparado com uma roda; mas o movimento da roda está dotado de um poder centrífugo, que afugenta todo o negativo. Já que o ser se afirma do devir, expulsa de si tudo o que contradiz a afirmação, todas as formas do niilismo e da reação: má consciência, ressentimento…, apenas se os verá uma vez. (…) O eterno Retorno é a Repetição, mas a Repetição que seleciona, a Repetição que salva. Prodigioso segredo de uma repetição liberadora e seletiva.”

(Gilles Deleuze. Nietzsche. Madri: Arena, 2000, pp. 47-51).

Eterno Retorno… Ô conceito difícil (e fascinante). 🙂

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