TRECHOS DE UM DIÁRIO PERDIDO

Não. Não poderia reclamar da prisão, já que ele mesmo se pôs lá. Estava tão acostumado a se fazer de vítima que estranhava, agora isolado no apartamento, não ter a quem culpar.

Pelo menos o apartamento era seu, assim como a dor e todas as vantagens e desvantagens que têm as raras pessoas que optam por tomar posse de suas próprias escolhas.

Habituado a ser sempre um robô guiado por entidades que agora não conseguia identificar, estranhava – chegava a ficar angustiado – com a escolha de pequenos atos: escovar os dentes ou lavar a louça?

Quando seus pensamentos inimigos se desviavam dessas questões aparentemente irrelevantes (mas angustiantes), se voltavam para o medo, provocado inicialmente por um estalo assustador na garrafa plástica de dois litros de guaraná diet:

– E se essa cadeira meia bamba cair, quem me socorre? E se eu engasgar trancado aqui sozinho? Vou morrer…

Mas também sentia que estava ganhando algo. Apesar de toda a dificuldade, estava se sentindo orgulhoso de conseguir esquentar uma quentinha sua num fogão seu… De sobreviver a um local sem TV nem internet… De usar reticências sem se preocupar com seu estilo… E de escrever ouvindo música clássica, no micro extremamente sem internet, sem ser interrompido, sem lavar a louça nem escovar os dentes, sentindo o nascimento de algo bom no meio daquelas longas frases.

Caso existisse, Deus devia estar sozinho quando criou o universo. Precisava mesmo era se encontrar.

Mudando o tema, tô meio tonto. Puta que pariu, meio tonto. Que merda. Que fiz eu, que me preocupa, que me entontece? Não… Admitir que estou tonto é fortalecer a tontura. Eu vinha vencendo as tentativas dela voltar fingindo que não havia nada. Não há nada. Nada.

Telefone tocou junto com uma piscada de alguém entrando no MSN. Fecho essa janela? Olho o MSN? Atendo?

Arte. Respiro arte… O trabalho aqui se torna cada vez menos. Eu sou arte, pensamento, sentir. Nada de números e vendas e análises…

Sons no corredor. Trânsito lá fora. Preguiça de escovar os dentes depois da barra de cereal (cara demais, aliás, não compro mais). O corredor é que preocupa. Quem pode entrar? O que pode cobrar? Tenho feito tão pouco aqui… Só pode vir um castigo. Já consigo ouvir meu inconsciente. Como se o mundo fosse assim tão lógico: crime e castigo. Um bom título de livro.

Tá ficando abafado. Preguiça de levantar e ligar o ar condicionado velho sem termostato (o máximo ou o mínimo, tudo ou nada, inferno ou céu, a pílula azul ou a vermelha, como eu). Levanto e ligo.

Me pergunto por que suo e o que procuro e procuro… Não, nem me pergunto mais.

Nem me pergunto mais por que não posso ir ao cinema sozinho, ser feliz sozinho. Sei que não vou nem sou.

Pronto, mal escrevi e perdeu o sentido. Releio. Mudar internamente algo ou mudar a vida, o trabalho, a localização geográfica na pátria? Olho a cama. Lençol azul. Chão por lavar. Minhas meias pretas dentro dos sapatos pretos. Cadê a luz?

De volta à angústia. Acho que perceber o que pode ser não adiantou muito.

“Cabe a você decidir o que fazer com o tempo que lhe é dado.”
A frase de Gandalf ecoa novamente em meu cérebro. Desde o primeiro trailer do Senhor dos Anéis que seu efeito foi como o de um soco no meu estômago, um despertar bruto. Minha sensação de estar perdendo tempo… Que só agora acho que compreendo melhor, lendo Schopenhauer. Ele, como Buda, teve que decidir entre o conforto e verdade em certo momento. Buda renunciou à vida de riquezas num castelo para sair pelo mundo e iluminá-lo. E percebo agora, independente de meu caos nos relacionamentos, que não posso ser feliz trabalhando com Administração. Quero é ser, como Schopenhauer (alma irmã que tive o prazer de descobrir), um erudito: ler, ensinar, escrever, aprender… Coisas que me façam achar que tive uma vida quando estiver velho e sem sono.

Essa força interna que acendeu foi tão forte, junto com a leitura de Schopenhauer, que o fim de semana foi bom pra caramba… Eu lendo e ouvindo música clássica e percebendo que não queria que meu celular mudo tocasse, nem nada futuro, nem nada passado… Feliz. Muito feliz. Fazendo algo que eu adoro: estar com gente inteligente. Passei o domingo com Schopenhauer.

Mas, aí veio o melhor, o sonho… Um dos melhores sonhos de minha vida. Eu flutuava num celeiro ou cabana, à noite. As portas enormes abertas. Abaixo de mim, mais pra trás tinha gente que eu queria defender, lutar junto… E lá fora, pelas portas, a noite negra. E olhos amarelos e vermelhos (muitos) se abrindo e aproximando. Eu vejo uma espada estranha, aberta, sobre mim, vôo até ela, sem medo (com muito mais empolgação do que medo… Eu era forte, coincidentemente, pois acho que me fortaleci sendo eu mesmo e me bastando, sozinho comigo mesmo, durante o dia…). Agarro a espada aberta e junto suas pontas. Vira uma espada com duas lâminas. E bichos (ou homens?) começam a pular das trevas pára a luz da cabana-celeiro. E os corto… Deliciosamente, sou o herói voador com um espada dupla… Deliciosamente acordo…

Hoje vim pro trabalho e a seqüência de músicas da MPB FM me fez, pela primeira vez, chorar no trânsito, cantando bem alto a letra. Chão de Giz me toca absurdamente e nem sei porque.

Praça de alimentação cheia. Vontade de voltar. É da companhia desses seres humanos extremamente humanos que preciso? Barulheira. Tudo cheio e sem mesa. Não. Vou voltar. Vou pra fila do Bob´s pedir hambúrgueres para viagem. Não. Desisto do Bob´s. Insisto em comer no caos. Comida a quilo do Viena. Não há mesas. Dou duas voltas pela praça lotada. Nada. Noto um ou dois olhares de mulheres interessantes. Cogito na hipótese de perguntar se uma delas estava sozinha para sentar junto dela, mas antes mesmo de achar ridículo ou forçação de barra, minhas pernas já me fazem seguir andando. Acho uma mesa. Sento. Como. Barulho. Quente. Esbarram em mim de quando em vez os passantes. Nota mental: comer em casa até a morte quando estiver sozinho. Pedem cadeiras. Deixo levarem. E, para culminar, dois homens perguntam se eu estou sozinho. Digo que sim. Sentam na mesa de 4 lugares. Noto que podia ter feito isso com as mulheres sozinhas nas mesas. Que não é tão estranho. Queria ter comida de novo no prato para fazer, mas não tenho. Peço licença e levanto. Sou educado. Lembro que um deles não pediu licença ao sentar. Deixo minha bandeja com dejetos na mesa. Vontade de comer sorvete, mas não há no Bob´s, o Mc Donald´s fechou e o sorvete a quilo está com filas monstruosas. Ando. Cara de perdido. Pena de mim. Olho pessoas, chão, vitrine, nada que interesse muito. Casas Bahia. Penso que estou tão triste que não quero descontar isso consumindo. Comprar não é ser feliz. E assim adio o prazer novamente.

Volto pra casa, anoitecendo. Desisti da fila do Bob´s. Vou jantar pão e água em casa mesmo. Saio do shopping e vejo Sheila Mello gigante nos outdoors com a bunda empinada. Não é possível a um heterossexual não olhar. Será que não pensam na quantidade de gente que deve morrer no trânsito com uns outdoors assim?

E agora, nesta silenciosa noite de domingo final, ainda com uma calma estranha, como que conformado com a morte inevitável na manhã seguinte, me pergunto, calmamente, que necessidade é essa que tenho de escrever. Forte, muito forte. Supera a falta de um computador em meu ap.

Vi um documentário sobre John Lennon, que tinha um quarto em um de seus imóveis com temperatura controlada para preservar seus casacos de pele, pensei em Drummond, funcionário público da ditadura e me acalmei quanto a trabalhar com Marketing para sobreviver.

Sensação de estar sempre na véspera do dia da educação física no colégio.

Sim, a família tende a cultivar carinhosamente os problemas, dar-lhes afeto e alimento… E viver reclamando deles. Noto alguma semelhança para comigo, mas eu tenho a dádiva do rompante irado de quando em vez… Rompo com tudo.

Simplesmente não sei mais é ficar sozinho. No apartamento, me desespero procurando um filme, pois só um filme me consegue tirar um pouco do semi-pânico, da sensação de não gostar de estar ali, sozinho, sem fazer algo que me dê um mínimo de prazer… Sem companhia. Até a leitura é complicada. E se o filme não for muito bom também é complicado… Eu paro pelo meio, penso em lavar a louça. Não lavo. Penso que deve ter coisa melhor em outro canal… Estranho não ter que ler nada por obrigação (sem mais provas)… Como biscoito doce. Pego o guaraná na geladeira. Mudo de canal. Como. Escovo os dentes. Tento ler. Tempo não passa. Guardo o guaraná pra não esquentar. Acho um filme que começará em meia hora. Como demora a passar meia hora… Tento resistir a comer um pouco de biscoito salgado, para comer junto com o filme. Não resisto e como antes. Pego o guaraná na geladeira. Não lavo a louça. Como talvez tentar tapar o vazio existencial de estar sozinho… Como e escovo os dentes de novo. O que me falta? O que me falta?

No caminho para Benfica, um ônibus escolar, com crianças de colégio público está bem na minha frente. Um grupo me dá adeus. Temo estarem me sacaneando automaticamente (resquícios do medo do ridículo). Mas dou tchau também. Elas sorriem, fazendo sinal de positivo. Faço também. Vou seguindo o ônibus. A viagem parece mais curta. Um mínimo de interação com outro… Ainda tenho resquícios de outros motoristas não entenderem nada. Uma menininha de boné rosa não para de sorrir e dar adeus e parecer feliz com minha resposta. Na certa, a multidão de carros com tímidos não libertos não pode dar um tchau fora do padrão para ela. Ela não pára, aliás. Sinal vermelho longo… Começo a me encolher, olhar pra outros lados… O sinal abre. Passo o ônibus.

O meu silêncio era mais para analisar porque eu estava tão silencioso e me sentindo tão sozinho, triste, magoado… E, com isso, ela ficava mais silenciosa também, e acabou que vi que não adiantava nada me silenciar. Falei então tudo… Ela arrumou desculpinhas pro atraso, pro fim de ano, pra todas as merdas, como sempre. Então resolvi que se ela não me beijasse, se não tomasse a iniciativa, seria o fim de qualquer merda entre nós. Não beijou, a parva, aquele poste que vê filme de arte cheio de gente apaixonada mas não consegue se apaixonar. Não beijou. Merda. Mandei torpedo da ponte Rio-Niterói quase chorando no trânsito (sem conseguir, porém, que as lágrimas saltassem) dizendo que por não me beijar ela tinha me perdido. Ela ainda respondeu que não tinha clima ou outra desculpa e falei que agora, para ela me ver de novo, ela tinha que nascer de novo. Adoro, pelo menos, dar a última cortada depois da merda feita. Mas, como diria Leminski, não quero aprender com esse erro e não errar mais, quero errar mais! Pelo menos estou vivendo!

(Fabio Rocha – 2005)

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