MORPHEUS

Despertou quase lembrando de um sonho estranho. Algo a ver com um livro numa livraria, com capa bege, que amigos haviam recomendado e que parecia realmente bom pela contra-capa. Justamente essa história contada na contra-capa é que ele não conseguia lembrar agora desperto. Parecia tão boa e simples. Queria fazer dela seu romance. Baseado em sonhos reais. Mas não lembrava. De qualquer forma, foi escrever:

A cidade era bege. O tempo era incerto. As janelas fechadas escondiam o clima. Acordou. Não precisava de despertador. O primeiro pensamento foi o de organizar seu dia. Fez planos detalhados, levando em conta as três refeições e o dinheiro que carregaria com ele, já pensando nas probabilidades de assalto nas áreas que percorreria e os horários mais vazios para pegar o metrô. Parou de escovar os dentes e percebeu não haver água. Cuspiu e teve que suportar aquele gosto de pasta de dente persistente na boca. E ver aquele cuspe branco pegajoso vencendo a gravidade e o brilho de sua pia tão limpa. Não suportou. Com papel higiênico, limpou a pia. Até brilhar novamente. Foi se vestir, sem ter que escolher sua roupa, pois, para isso mesmo, ele só tinha o mesmo modelo e cor de camisas e calças: para não perder tempo escolhendo. Ao tentar abrir o armário, a maçaneta fica na sua mão. Não abre. Seu coração dispara. Sente uma presença maligna no quarto, ao notar tanta coisa saindo de seu controle. Calor. Destrava uma janela. Não abre. Suor. A porta. As quatro trancas da porta. Pingos no chão limpo. Destranca todas as trancas. Vira a maçaneta. Mas a porta, magicamente, não abre. Fica como que presa pelo lado de fora. Estaria a casa soterrada? A caixa de ferramentas. Treme. Derruba a metodicamente arrumada caixa de ferramentas em cima da cama. Chave de fenda. “Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo.” Alavanca na porta. Escapole. Dedo cortado. Dor. Medo. Sangue. Não abre. Força. Chão mais sujo ainda. Vontade. Reza ao Deus de sua avó. Calor. Insistência. Abre. Um passo pra fora, de cueca. Respiração tentando se acalmar. Luz estranha, bege. Sombra estranha em torno. Olho pra cima. Um piano me mata.

(Fabio Rocha – 7/7/2007)

2 respostas

  1. Parabéns, Fábio, pelo texto “Morpheus”. Uma linguagem lúcida, enxuta, gostasa de ler. Um final primoroso. Gostei muito. Gilson Corrêa

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