AUTOBIOGRAFILHA ALHEIA

JANEIRO:

Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!

Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.

O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.

Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas… Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.

O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.

O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio… Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo… E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda… E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.

Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.

FEVEREIRO:

E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá… e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades… E olha que fiz pública!
Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas
dentro desse maldito sistema…
E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria
poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô… Deve haver mais. Tem que haver mais!
Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco, economizo pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância… vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.

ABRIL:

O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?

Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranqüilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.

Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?

Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever, sair da gaiola…

***

Sanhaços e sabiás cantam mais à tarde que pela manhã. Ou talvez eu ouça mais após o almoço. O pé na estrada de barro é uma sensação boa. O motociclista que passa não me entende. Saio sem carro nem barro. Estrondo estranho o da moto. Estranho eu. Silêncio.

***

O corredor era longo e cinza. Faraônica faculdade pública… Seus passos ecoavam pelas paredes que pareciam infinitas. Ane era triste. Antes de tudo, triste.

Por mais que se escondesse atrás de sorrisos, por mais que falasse, acenasse, circulasse, conhecesse a todos – literalmente todos… Por baixo, era só, e não gostava de ser só.

Da faculdade para a academia, da academia para o estágio, do estágio para casa. Em casa, não havia para onde fugir de si mesma. Por isso, evitava a casa, ia pra barzinho com amigas ou boates sempre que podia. Não se pode parar numa fuga. “Dormir é perder tempo.”, se enganava quase consciente de que se enganava.

Ane percorreu estranhamente vagarosa o final do corredor, quase chegando ao hall dos elevadores. Parou. Voltou-se para a sacada. Pulou. Era tarde.

***

Quando o sol tocava sua pele, o mundo, a vida, tudo fazia sentido. O pé na areia morna era como um fio-terra, eliminando de seu sinuoso corpo toda a energia negativa acumulada durante a semana de trabalho no escritório. Secretária. A seu lado, o namorado olha o mar.

– Me beija, diz ela.

Ele se aproxima.

– Não, não quero qualquer beijo. Quero um beijo total, uma entrega, um toque de almas e línguas…

– Não sei fazer isso. Sei beijar, Andréa. Só.

– Não me basta. Não quero só isso… E pensando bem, não quero mais você.

Olhou para a areia talvez para evitar os olhos dele, estranhamente silenciosos.

– Não me procure mais.

Levantou e foi para casa. Na segunda, largou o emprego. Estava insatisfeita com sua insatisfação constante, total, eterna… Insatisfeita consigo mesma por não tentar mudar, fazer o que gostava…

Hoje Daniela mora em Copacabana, vive na praia e faz o que mais gosta para viver, sem o menor problema ou dilema moral: faz sexo. Só lhe falta um homem que beije com a alma.

***

Que diabos quero eu fazer como esses textos sem conexão e curtos demais? Estou sempre correndo atrás de um romance, pois pode ser que venda (diferentemente das poesias) que acabam virando contos desconexos, curtos e ruins.

Essas estrelinhas seriam capítulos? *** Três para dar sorte:

***

(Fabio Rocha – 2004)

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