COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS

O quarto está claro. Luz branca, como uma cozinha. É bom estar num lugar claro numa noite tão fria. A luz parece afastar qualquer ausência. O som da chuva batendo nas folhas lá fora convida à introspecção. Leve. Calmo. É hora de começar um romance.

***

Escolhi o caminho errado em algum ponto… Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse o que custasse. Ana me falava o dia todo sobre coisas que não interessavam minimamente. Cor de cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara… E eu sabia que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de Ana, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa. Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Ana é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu não dava. Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio.

– Você que acabou com o sorvete de morango, Felipe?

– Ana, quem mais poderia ter sido?

– Felipe, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!

Era assim que ela tentava diminuir-me, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem pra comprar sorvete de morango… E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete era para a empregada.

Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Ana foi pro quarto e se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite do subúrbio carioca.

***

Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não conseguia sobreviver disso, nem aturar Ana, meu sustento.

Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos “pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga que agora parecia se abater sobre mim… Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa esfriava a minha frente.

Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista de comprar mais e mais… Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não consegui…

Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais. E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam as estatísticas de desemprego.

Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das máquinas de xerox.

Ah, leitor… Esse Felipe que sempre valorizava o ócio, a contemplação… Que criticava o uso atual da expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”… Queria se libertar. E teria que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em troca apenas de um maldito salário.

***

Ana, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.

Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.

Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os pensamentos fluírem, se misturarem… No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a posição de yoga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela imbecil.

Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?

Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.

E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia, guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim, como exigir qualquer coisa?

Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.

***

Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Ana e vi a vizinha manca subindo. Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando ostras no quintal da casa da Ana. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer “Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha nosso vizinho falecido. Eu não compreendia e concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio, não lembro onde. Ana agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Felipe, comia.

Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, nesse frio ferrado que está fazendo ultimamente.

***

A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.

Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título para ele… Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem sentido.

– Opa. Felipe? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?

Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era fiscal, odiava seu emprego e cismou que eu devia ser funcionário público, que teria mais garantias… Eu era bem preparado, tinha uma faculdade e passaria fácil em algum, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não conseguira. Depois disso ele sempre dava uma reclamada da vida e, por algum motivo estranho, eu sempre acabava falando demais da minha própria vida pra ele. Ele dava uns conselhos óbvios que me irritavam, mas eu sempre falava demais, reclamava demais, me colocando numa situação de alguém que parece querer ouvir conselhos. Quão complexas as relações humanas… Tio Sávio começou a aconselhar e ouvi. Senti um desconforto por ter que ouvir aquilo e desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Eu até que gostei de falar com ele. Sempre gostava, no fundo. Não sei, racionalmente, o porquê.

Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Ana me pareceu menos sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir como espírito de Deus. Coitada.

(Fabio Rocha – 2004)

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