e-book Acre Dito (2005) – revisado em 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acre Dito

 

Fabio Rocha

 

 

 

 

Copyright © 2006 por Fabio Rocha – revisado em 2014

 

 

 

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional:

 

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: ACRE DITO

No. Registro da Obra: 347828

Livro: 690

Folha: 488

Data de Registro: 25/7/2005

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

 

 

 

 

 

Título original: Acre Dito

 

 

 

 

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

Endereço eletrônico:

Sobre o autor

 

 

 

 

 

 

 

Prefácio

Lucimara Sumie Hayoama

 

Há algum tempo a internet, grande promotora de tantos encontros fortuitos – alguns bem pouco prováveis, não fosse sua existência – fez cruzar o meu caminho a poesia de Fabio Rocha.

Possuidor de uma poesia incisiva, direta e sintomática, Fabio vem, através de Acre Dito, continuar a provar que é possível, com arte e talento, fazer mais com menos; sintetizar e dizer tudo; condensar, sem perder grandiosidade.

A dialética de Fabio é simples, breve. E bela. Não fica devendo, não sobeja, não necessita de aparas. Tem sagacidade e beleza suficiente para despertar os sentidos do leitor. E tem aí finda sua participação: até o absorto do que vai na alma de cada leitor. Sua escrita não busca conduzir para onde o poeta estava no momento em que o papel tomava vida em suas mãos: seus poemas despertam para um desejo, um pensamento, e então, sutilmente deixam a cena, cessam sua intervenção. Nem um milésimo de segundo antes de ter provocado, incitado, excitado nosso raciocínio ou sentimentos, ou raciocínio e sentimentos. A poesia de Fabio nos faz pensar; não busca conduzir, mas sim ser centelha de profundo alcance. Com algumas idéias nos identificamos, de outras, discordamos. Indiscutível é a harmoniosa comunhão entre as palavras. Seus poemas, seus curtos poemas, percorrem longas distâncias.

“É, você me lê direitinho….” me escreveu dia desses. Se só eu lesse – e entendesse – não haveria tantos elogios à qualidade de sua poesia, e Quintana não estaria certo ao dizer que, quando se lê e relê um texto, e não se entende, pode ser problema do autor. Entendo – penso que, ao menos – o que me conta a poesia contida neste livro. Acredito em Quintana. Logo, o mérito pelo entendimento não é somente meu.

Embora meus comentários possam soar como fruto de opinião parcial devido à amizade existente, é bom que o leitor aqui saiba, que a análise primeira foi feita somente sobre a obra. A amizade e carinho pelo autor vieram tempos depois. Indício é de desvinculação entre obra e autor, o fato de que nem quando nos desentendemos, certa feita, (somos humanos, iguais; e tão diferentes…) e o autor me mandou aos quintos dos infernos (com recíproca verdadeira, porém não verbalizada nem escrita de minha parte), deixei de acompanhar seus poemas quase diários. Como pessoa ponderada (que tento ser, nem sempre com sucesso), na época, o ódio (finito, *risos*) pela figura humana do poeta não influenciou na continuidade de minha apreciação do que assim o merece: sua poesia.

Alguns poemas, como por exemplo, “Acredito” ou “Variações Sobre a Mesma Busca”, nos levam, de maneira realista, a olhar para dentro e para os cantos, e enxergar nesse avesso, por vezes belo ou torpe ou disperso, as mesclas entre o que deveríamos saber de cor, e o que não deveríamos nunca, para nosso bem, dar-nos conta. Fabio utiliza como matéria-prima para sua poesia, uma xícara e meia do que recebe (ou toma) do mundo externo; meio quilo e mais um punhado do que cria e deixa crescer por dentro e; uma dúzia de palavras de encaixe conciso, suficiente para dar a forma e trazer à tona a sua idéia. Por último, na receita agridoce dos seus versos, Fabio acrescenta criatividade, inteligência, senso crítico e talento, generosamente a seu gosto e estilo.

Costumo chamar o poeta Fabio Rocha, às vezes em nossas conversas, meu “poeta vivo preferido”. Uma maneira minha de brincar fundindo o que penso realmente com o desejo de agredir – por sofrer a falta – a todos os que nos eram muito antes de nós mesmos, “xingando-os” de mortos. Já se foi ao longe aquele que se negava a ser “casado, quotidiano, fútil e tributável” em seus versos. Também nos deixou o que previa dias que viriam para “premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato”. Pessoa, Neruda e tantos outros… Muitos dos escrutinadores da essência humana (talvez os melhores, Deus me ajude a estar errada) passaram, e se foram; mas Fabio é prova de que eles deixaram, além de raízes firmes, muito de indelével e, graças a isso, três saudações para o alto: a poesia permanece. Clara e intensa. Mesmo que, por vezes,

não raras,

o acre

dite

as regras

insisto em repetir: a poesia permanece. Segue. Mas você não precisa acreditar em minhas palavras. Pode comprovar por si nas próximas páginas.

 

Lucimara Sumie Hayoama

http://lumevagante.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 

 

ACREDITO

 

Fica decidido

a partir desta data

que não sei quem sou

nem o que quero

muito menos como ser feliz.

 

A partir de então

é preciso

recomeçar.

 

Ah, mas tô cansado e tonto e desanimado e tonto e tonto…

 

Acredito ser

minha psicanalista

uma anta

porém

pode ser um deslocamento apenas

ou uma transferência

de quando eu tinha dois meses de idade

e não sabia quem era

nem o que queria

muito menos como ser feliz.

 

Mas era.

 

Fabio Rocha – 18/04/05

 

 

 

AMOR E MORTE

 

Dissolver-se aos elementos

virar árvore, carbono, pensamento

multiplicar-se em nada e paz

morrer….

 

Dissolver-se no outro

tornar-se mais por ser menos

derramar-se infinitamente em infinitos copos

metade cheios

amar…

 

A morte ama o amor:

o amor mata a morte.

 

Fabio Rocha – 08/05/05

 

 

 

AMAR O MAR DE LUCIMARA

 

Da não procura,

o encontro.

 

Um pé atrás

um passo no escuro

um tango argentino…

 

O girar

sem medo

mais perto…

 

O rosto aberto

os olhos tão perto

os lábios de certo…

 

O dormir desperto

(junto junto junto muito junto)

sonho antigo…

 

O silêncio após

a partida…

 

A água tenta nos olhos

água tanta na rodoviágua da partida aquosa…

 

(não

não era um filme dramalhão)

 

O fim-de-semana

foi um poema.

 

Fabio Rocha – 16/05/05

 

 

 

POETA VIVO

 

Estou no casulo

não há apuro

não há ar puro

não será o último

enquanto houver um muro

à mão

por destruir

à murros.

 

Vontade afoita

de espalhar a noite

como rastro de um vôo negro

pelo crepúsculo cortado

que é o outro

afastado

rasgado

morcego.

 

Nego mamíferos mariposas

(dentes trinco porta)

nego tudo

(dentes trinco porta)

negro.

 

Havia um tempo

em que perdia tempo

tentando

entender.

 

Fabio Rocha – 09/06/05

 

 

 

12 DE JUNHO

 

Lá vem mais um dia doze

lá vem o dia menos doce

sem namorada…

 

E continuo tonto

e a vida complicada

mais se complica

psicanalisada…

 

Dar de presente

mar de presente

a um ausente…

 

Tonto

tento nada

tendo nada

no entanto.

 

Fabio Rocha – 10/06/05

 

 

 

 

SPAM

 

Emagreça

dormindo:

morra.

 

Fabio Rocha – 17/06/05

 

 

 

MÁSCARA

 

De quando em quando

em casa

me trago em mim

(água)

uma raiva e uma força

(mágoa?)

irreconhecível.

 

Quase o Batman.

 

Fabio Rocha – 20/06/05

 

 

 

PSICANÁLISE FREUDIANA

 

Agarro a gruta

pela goela

com força bruta

olho em seus olhos

meus:

morte.

 

Dentes trincados

pelos eriçados

um gato que foge

pro escuro

por mais que se aperte.

 

(Seu tempo acabou)

 

Fabio Rocha – 02/07/05

 

 

 

PLANOS DE APOSENTADORIA NO ESCRITÓRIO

 

O teto tá caindo

a velhice chegando

o celular não tocando…

 

A calma tá correndo

o chefe não chamando

o relógio doendo…

 

Fabio Rocha – 08/07/05

 

 

 

SEXXXXXXTA

 

Estatisticamente

sexta-feira é o dia em que mais faço poemas

mas estatística mente.

 

Fabio Rocha – 15/07/2005

 

 

 

FASE LEGAL

 

Depois do domingo

vem a segunda

depois a terça

como se não bastasse

a quarta

então o inferno da quinta

trinca a sexta longa longa interminável…

 

Nos dois dias seguintes

aumenta o índice de depressão e suicídio.

 

Tenho pressa constante

mas nenhum lugar para chegar.

 

E no final da vida a gente morre.

 

Fabio Rocha – 21/07/2005

 

 

 

EDIFÍCIO MASTER

 

Trago em mim

o constrangimento

dos elevadores

e a solidão

dos documentários.

 

Fabio Rocha – 24/07/05

 

 

 

CAPITAL

 

Minto tanto

que acre

dito.

 

Fabio Rocha – 24/07/05

 

 

 

DA POSSE

 

Não passe a vida

reclamando:

a vida passa.

 

Fabio Rocha – 29/07/05

 

 

 

ESQUECE

 

Esqueçam meus poemas…

Quero casar, ter filhos, separar, enriquecer, gastar, engordar, emagrecer

e ser feliz vendo a TV aberta no domingo.

 

Fabio Rocha – 01/08/05

 

 

 

RESUMO DE BENS

 

Tenho

um livro de poesia

uma cama de casal vazia

e um celular que não toca.

 

Fabio Rocha – 10/08/05

 

 

 

GUSPE

 

Tenho plena consciência

(quase)

de que escrevo poemas em quantidade

por uma revolta íntima

contra a escrotidão

que é a realidade.

 

Fabio Rocha – 12/08/05

 

 

 

MUDA MUSA MUDA

 

Musa

muda

não te quero muda

nem musa…

 

Tira essa afetação imunda

desce do inalcançável

e vai limpar a bunda

dos filhos que teremos.

 

Fabio Rocha – 17/08/05

 

 

 

MOTIVO DA INTERNET

 

As grandes cidades

unem corpos

e separam almas.

 

Fabio Rocha – 20/08/05

 

 

 

VOU-ME EMBORA

 

Vou pegar

um avião.

 

Tudo confirmado

ajeitado

estou indo

muito breve

logo logo

meros dias

me separam

de pegar

um avião.

 

E voltar.

 

Fabio Rocha – 22/08/05

 

 

 

POEMA INCONSCIENTE

 

Será o tempo

o inimigo derradeiro

e o verdadeiro amigo

o final dos tempos?

 

Fabio Rocha – 24/08/05

 

 

 

A SCHOPENHAUER

 

Um passo atrás

no escuro:

o mundo não me quer

sem muros.

 

Logo

não quero

nada do mundo.

 

A massa

do muro

me fortalece.

 

Amassa

a dor

dos murros.

 

Que prazer

libertário

não esperar

não querer

não precisar

não temer

não me angustiar…

 

O resto é nada.

 

Embainho a espada.

 

Respiro.

 

Basta.

 

Fabio Rocha – 18/09/05

 

 

 

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO MURO

 

Construo o muro:

é solitário.

Derrubo o muro:

tomo porrada.

Está escuro

não vejo nada.

 

Construo, é duro

disco arranhado.

E tudo escuro

na madrugada.

Estou impuro

porta fechada.

 

Construo o muro:

é solitário.

Derrubo o muro:

tomo porrada.

Está escuro

não vejo nada.

 

Fabio Rocha – 06/10/2005

 

 

 

INVENTO

 

Eu sou o vento…

 

De quentes asas

estuprando casas

cochichando orelhas

morte vida abelhas

espalhando a semente

soprando a saia de quem mente

carregando pipas

pólen

vida

prédios postes fábricas

inocentes e culpadas

que se danem as armas

com muitas dores e amores

(não venham falar de flores)

brinco

crio

e mato

o mato dança

corre corre

fogo espalho

brasa

ar falta

asfalto

fogo: fato.

 

Me fortaleço

com o calor da destruição

o caos pelo capital

e você não faz nada para mudar

além de comprar.

 

Não se preocupe com o mundo

que vai sobrar

para seus filhos e netos…

 

Eu sou o vento!

Vou TE tocar.

 

Fabio Rocha – 13/10/05

 

 

 

MAIS OU MENOS

 

Quanto mais coisas tiveres

mais coisas quebrarão

mais te preocuparão

mais te farão comprar acessórios de coisas

ou coisas mais modernas e mais rápidas e mais caras

e assim vai-se coisificando tudo

de mais a mais

sendo um pouco menos.

 

Fabio Rocha – 18/10/05

 

 

 

RIMA POBRE

 

A cada três segundos

morre de fome

uma criança no mundo.

 

Fabio Rocha – 23/10/05

 

 

 

TARDE EM BENFICA

 

Sol e frio

passarinhos cantam tristes

em gaiolas escondidas

(extremamente presos)

cantam triste e devagar

lembrando que tudo pode ser

devagar

mesmo em cidades

superlotadas de gente e pressa

noto as formigas

no cimento rachado da calçada torta

lembro da casa de minha avó

caminho

devagar

venta um pouquinho

sol que não faz suar

as casa velhas e mal pintadas

postes enferrujados

as fábricas ainda mais velhas e mal pintadas

funcionários lentos sempre pendurados

nos postes velhos, falando aos velhos telefones

paredes amareladas

um ciclista na contramão assobia e quase me atropela

ainda estranhamente calmo

vejo e ando e vejo e escrevo em minha mente

calma, ainda muito calma, estranhamente calma

venta fraco

e paro pra tomar sorvete.

 

Fabio Rocha – 04/11/05

 

 

 

PASSEI-O

 

“Eu só peço a Deus”

estou imune ao céu crepuscular

“um pouco de malandragem”

estou imune ao som (do oceano e de Cássia)

“pois sou criança”

estou imune à nuvem gigante e rosa

“e não conheço a verdade”

estou imune à estrela pertinho da lua

“eu sou um poeta e não aprendi a amar”

não estou imune aos casais

de mãos dadas.

 

Fabio Rocha – 05/11/05

 

 

 

INÍCIO DE FÉRIAS

 

(Para Débora Hübner)

 

Basta de gritos

Novo Hamburgo sussurra

o vento na taquareira

o tempo lento

os carros poucos

café da manhã sem pressa

companhia

mãos que se tocam

rios que se cruzam

ligações inesquecíveis

duzentos mil desconhecidos (indolores)

são mais que 2 milhões

Novo Hamburgo ensolarado

noite que não cai

pássaros que cantam como lá

pessoas que olham nos olhos

nas multidões menores.

 

Volto a mim

me vejo

me acho

me sou

andando na manhã da cidade

sem precisar fazer um poema

para fazer sentido.

 

Fabio Rocha – 13/11/05

 

 

 

DA POSSIBILIDADE DE UMA REJEIÇÃO PRORROGADA

 

Não venha

me adiar beijos

para um futuro possível…

 

Minha pressa

é uma presa

de minha ira.

 

Não, não nos conhecemos ainda

e, se pensarmos bem

nunca nos conheceremos

mesmo que vivamos

cem anos juntos.

 

O amanhã

não existe

em meu tempo.

 

01/12/05 – Fabio Rocha

 

 

 

POETRISTE 2

 

não sei se durmo

se corro

ou se morro

 

Fabio Rocha – 02/12/05

 

 

 

NOVA ORDEM

 

Não sei onde me lêem romântico…

No sentido romântico nhém-nhém-nhém, flor e amor…

Trago quatro facas e um canivete

na manga esquerda de minha língua

e dois lança-chamas contra a escuridão

do marasmo, da mesmice, da conformidade.

A minha arte arde na tentativa de um soco.

Atiro atrito metralho pelo despertar

sofro, choro, tento mudar

rimar de quando em vez

mas…

 

Fabio Rocha – 06/12/05

 

 

 

NÃO FUI EU

 

Não, não lhe enviei

flores azuis.

 

Não me conheces mesmo…

 

Se minhas,

seriam bonitas

seriam sofridas

e vermelhas

sementes

de dores

e amores

vermelhas

enfeites

cadentes

velozes

vermelhos

e vivos

e quentes.

 

Dúvidas esclarecidas, faça o favor de sumir.

 

Fabio Rocha – 08/01/05

 

 

 

DO NÃO QUERER ACORDAR

 

Marise vistosa

de batom vermelho

lindo lindo lindo

de Sousa

no meu sonho

findo.

 

Fabio Rocha – 19/01/06

 

 

 

CHEIRO MELÓDICO

 

Relaxante descoberta

em pleno 2006:

Paulo Leminski me era

bem antes da minha vez.

 

Fabio Rocha – 22/01/06

 

 

 

CHUVAS DE VERÃO

 

um tiro

dois tiros

tostines

no chão

 

chove

e a cidade

se alaga:

sangue, biscoito e água

 

Fabio Rocha – 01/02/06

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