e-book Alquimia (2004) – revisado em 2014

 

 

 

 

 

Alquimia

 

Fabio Rocha

 

 

 

 

Copyright © 2004 por Fabio Rocha – revisado em 2014

 

 

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional:

 

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: ALQUIMIA

No. Registro da Obra: 323082

Livro: 591

Folha: 242

Data de Registro: 18/6/2004

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

 

 

 

Título original: Alquimia

 

 

 

 

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

 

 

 

 

Endereço eletrônico:

Sobre o autor

 

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

Percebo em Fabio Rocha um “quê de alquimista”. Aparentemente, o poeta não mistura

 

“(…) o limo da árvore

ao lume acima das nuvens

pois chove (…)”

 

como cita seu próprio poema. Mas vejo aquele que mistura palavras, transforma em versos e assim faz surgir poesias de muitos porquês.

 

Seus trabalhos trazem muitas vezes o cotidiano e a realidade de forma crua e espantosamente poética, que nos levam a um mundo à parte. Fato contraditório, mas para Fabio Rocha, possível.

 

Diz em Alquimia que devemos nos apaixonar pelo mundo. Mas várias vezes expressa a idéia e a vontade de amar-se internamente, seguir o próprio caminho, ser Deus, ser o presente, enfim, estar consigo e em si. Apesar deste sentimento, admite que não se basta e por isso se apaixona e ama e escreve. É realista e consegue achar o encanto dos sentimentos e sentidos, expressando-se sem deixar sua escrita melodramática. Ah! E Deus lhe livre

 

“(…) da sexta-feira sábado e domingo

sem uma namorada pra fugir de mim.”

 

Alquimia surpreende quando encontramos, além dos poemas contemporâneos, pequenas histórias e fragmentos de contos apontados pelo poeta como “textos sem conexão e curtos demais”. O que me parecem? Trechos de um romance que ainda virá. Romance que o próprio poeta guarda no punho, sem talvez nem o saber. Acredito em uma prosa envolvente tanto quanto seus poemas e que despertará em seus leitores a curiosidade e o interesse ao ponto de obrigá-los não apenas a ler, mas também a devorar cada palavra em busca de um novo capítulo ou mesmo livro.

 

Débora Linden Hübner

http://www.vidaemversos.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

FERIDA

 

E por que diabos vinhas

massagear-me os pés

que nem doíam?

 

E por que diabos não vens

agora que dóem e os tens?

 

02/12/03

 

 

BALEIA

 

Nos fins de semana

há ainda uma tensão interna intermitente

(agora leve)

que não consigo explicar racionalmente

(ombros em chamas).

 

Como a baleia

(lá no fundo)

sob o gelo ártico

(frio, frio, frio)

sentindo que vai acabar

o ar em seus pulmões.

 

07/12/03

 

 

QUANDO CHOVE

 

A Tanussi Cardoso

 

Quando chove eu chovo e molha a mão do guarda

mas isso é a típica coisa que não importa

pois a chuva chovo lágrima

e a estrada aberta à frente chama a ir adiante – sozinho – olhando as próprias pegadas

chorando a multiplicidade aquosa celeste

caindo sem fundo nem beira

besteira pensar em guardas

besteira guardar algo

tendo toda essa tristeza

lendo toda a crueza de Nietzsche

sabendo que ele tem razão.

 

Ao menos não quero mais mudar o mundo.

 

17/12/03

 

 

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

 

Quanto mais vazia

for a vida nas cidades

mais quentes queimarão

as paixões

nos loucos corações

que não vêem calmamente a novela das oito.

 

Puta que pariu, eu sei o que eu quero

faz anos que eu sei o que eu quero

não há NADA entre mim e o que eu quero

os olhos quentes provam que eu sei o que eu quero

(é por querer que escolhi sem querer este filme).

 

– Eu sou o que quero quando escrevo.

 

06/01/04

 

 

AUTO PREDOMÍNIO PRESERVATIVO (OU SOBRE O AMOR LIVRE)

 

Não, não é preciso

concentrar a paixão

num só ser alheio

(prisão

onde a gente

se desaprende

e se prende)

 

A vida é plena

o tempo é curto:

apaixone-se pelo mundo.

 

06/01/04

 

 

O ÚLTIMO SAMURAI

 

Sonhei com a lâmina

que vi na sétima arte

lágrima.

 

À tarde, pétalas de flores rosadas

planaram lentamente

sobre minha ira.

 

Nem que seja para a morte

é preciso ir em direção ao certo

e amar cada passo.

 

18/01/04

 

 

SOL E CÉU

 

Fazer cada pequena coisa

perfeitamente

requer tempo e paciência

que temos em alguma árvore perdida.

 

Ouço suas folhas.

 

19/01/04

 

 

SEM TÍTULO

 

Chove lá fora.

Foda-se o mundo.

 

Dentro de mim, um silêncio profundo

imita as artes musicais

em plenitude instantânea com a palavra ainda não escrita.

 

A arte imita

a vida?

 

Não,

a arte cria

a vida.

 

Sem data

 

 

VELHA DÚVIDA

 

Para Gi

 

Da procura vem

o encontro.

 

E quando

se dá o roçar

de asas de almas

devo deixar trancada

pelos traumas

a gaveta incandescente

das paixões

das dores ardentes

dos lábios quentes tocados

do passado

ou viver o presente

e abrir?

 

21/01/04

 

 

DESESCRITÓRIO

 

Meu templo budista são estas paredes geladas

do escritório estreito que não largo

a ameaça do telefone em silêncio

eu me procurando eu me procurando

sem entrar direito nem escapar de vez

sem saber se saio ou agradeço pelas correntes

e a conta corrente que se enche mês a mês.

 

21/01/04

 

 

BANDEIRA DO JAPÃO

 

A lâmina salva

a letra exata

do ciclo vazio.

 

Espadas de Samurais

guardam almas.

 

Escrever é mais.

 

25/01/04

 

 

MISSÃO

 

Palavras borbulham

no dentro.

 

Lava lava algo interno

mas leva tempo

para sair.

 

Fogo:

dragão que voa

e só voa

quando toca

outro.

 

Está na palma da tua mão

a missão.

 

BH, 05/02/04

 

 

TRILOGIA EM UM ATO

 

Alguém ri em meu sonho

alguém ri de meu sonho.

 

Há cordas segurando punhos fechados

sangue em palavras trancadas no armário

escrita sagrada

a palavra morta

uma ou duas espadas

três ou quatro portas…

 

escrevo abrindo e cravando

tentando e tentando

achar o que já é.

 

Alguém ri em meu sonho

alguém ri de meu sonho:

eu.

 

20/02/04

 

 

INEVITÁVEL

 

Mãos vermelhas.

 

O caos arranha a calma

no íntimo, entanto

danço com o demônio

sob a luz do luar.

 

Venta a ira.

 

Crave a vida em minha alma

vinte e sete espadas:

não evitarei

a vigésima oitava.

 

Fogo.

 

Sem arma possível ou armadura plausível

fortaleço o etéreo

com o canto do aço

e levanto da sombra de sangue

sorrindo.

 

21/02/04 

 

 

SERÁ ELA?

 

Que seja o amor romântico uma invenção ortodoxa para nos fazer sofrer…

Eu creio no amor romântico e na dor nada silenciosa que ele traz.

Pois não me basto.

 

23/02/04

 

 

CARNAVAL

 

Ando do quarto pra sala

da sala pro quarto

nada na TV

ninguém na internet

tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé

faço flexões, abdominais, ando na esteira

mato o invisível com o nunchaco e a katana

tomo banho

compro um filme na TV a cabo

ando pela casa

ninguém na internet

tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé

leio um romance

o telefone não toca

tento não comer biscoitos recheados de chocolate Nestlé

e não ligar para alguém que eu possa me arrepender

então ligo para quem nem quer atender

e como os calóricos biscoitos

para poder me culpar de algo

com guaraná Antarctica, que é nacional

e venho escrever mastigando

o guaraná estalando

e minha vó sofrendo lentamente na CTI do hospital.

 

24/02/04

 

 

OPÇÕES

 

Os tentáculos

do sistema

me envolvem

me abraçam…

 

Tenho espada.

 

Fugir é fuga?

Ficar é fuga?

 

Não tenho pressa…

 

08/03/04

 

 

ADEUS, EMPREGO

 

Cortei.

 

Basta agora

embainhar a espada

e ouvir o deslizar do tempo

sem as agruras de semear o vindouro.

 

Sem medo e sem

semeadura:

prazer no presente.

 

12/03/04

 

 

MEDO E CAPITAL

 

Bebe, come e engorda

o capital do medo.

 

O berço balança

com explosões terroristas

e crianças fuzilando crianças

nas escolas da Liberdade.

(com as armas de pais com medo em suas casas trancadas)

 

O capital

bebe do medo

come do medo

engorda do medo.

 

Caem prédios, explodem trens:

magros loucos desorientados facínoras fanáticos fascistas…

 

Façamos seguros…

Seguro-saúde, seguro do carro, seguro-desemprego, seguro da casa…

Façamos seguros, que o pânico tem família para criar

e cair nas mãos do amanhã não é seguro.

 

O medo está com obesidade mórbida.

E quanto maior, mais come.

 

O medo vende jornal

dá ibope

deixa mais medo em cada um

e se enche de dinheiro amedrontado

para poder comer ainda mais

e dividir menos.

 

17/03/04

 

 

LIBERTAS

 

Ouço o Réquiem de Mozart

e cuspo culpas

cristãs

acumuladas

repetidas

e ensinadas

cruz abaixo.

 

Não, eu não participei

nem gozei

no pecado original

ou na Santa Inquisição.

 

Não tenho

o ouro

do Vaticano.

 

E nunca ofereci

a outra face

pra uma porrada certa.

 

11/04/04

 

 

APONTAR

 

O que é o louco

sem o olho

do outro?

 

17/04/04

 

 

CONSELHO LIBERTÁRIO

 

Tome cuidado

com o cuidado.

 

24/04/04

 

 

LIVRO

 

Um livro bom é espelho

aonde a gente se vê:

é o caminho do meio

de quem escreve e quem lê.

 

25/04/04

 

 

ROLANTES

 

Sentado à mesa do shopping

com um poema no palato

constato:

desconhecia

que desconhecia

tanta gente.

 

(E ainda quero comprar uma caverna.)

 

26/04/04

 

 

ESCREVER LAVA

 

Geralmente é quando leio

que o silêncio crepita distante.

 

É preciso então parar.

Prestar atenção:

 

Uma folha em branco

para conter a luz

antes que se perca

no escuro labirinto do momento.

 

Sinto

no ar seco

a invisibilidade

a que aspiro.

 

E na catedral inexistente

acendo uma vela imaginária

com a palavra.

 

27/04/04

 

 

MULHER DE CAMISA BRANCA E VERMELHA NO SESC DE MADUREIRA

 

Mesmo com todo esse Budismo

ainda consigo

me apaixonar pelo impossível.

 

15/05/04

 

 

AUTOBIOGRAFILHA ALHEIA

 

Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!

Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.

O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.

Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas… Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.

O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.

O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio… Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo… E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda… E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.

Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.

 

 

QUERIDO DIÁRIO

 

E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá… e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades… E olha que fiz pública!

Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas dentro desse maldito sistema…

E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria

poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô… Deve haver mais. Tem que haver mais!

Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância… vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.

 

 

MINHA SOLIDÃO DELICIOSA

 

O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?

Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranquilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.

Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?

Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever…

 

 

(Fabio Rocha)

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