O dia certo

Não era o seu dia.

Imprimira o relatório errado para a reunião mais importante do ano. Despedido. Sem rumo na vida, pegou o rumo de casa.

No caminho, um táxi passou a toda velocidade, determinado, numa poça d’água e encharcou seu terno. Nem se abalou. Continuou andando no mesmo ritmo, olhos voltados para a calçada como que procurando uma solução. Sem dinheiro para se manter, teria que voltar em muito breve para o Brasil…

Subiu automaticamente as escadas que levavam a seu apartamento no primeiro andar e entrou. Sua mulher estava na cozinha, debruçada sobre o fogão, com o encanador a comendo por trás.

Antônio viu toda a sua vida passar diante de seus olhos nos segundos em que os dois ficaram paralisados na ridícula posição, em silêncio, esperando sua reação. Ele, então, do mesmo jeito que entrou, saiu do apartamento, em seu terno molhado.

Subiu os doze andares do prédio pela escada (obviamente o elevador estava em manutenção) e ficou observando a bela paisagem da megalópole na solitária cobertura. Era uma tarde como outra qualquer na vida dos humanos que passavam lá embaixo, pequeninos. A vida era, comprovadamente, uma merda.

Subiu na beirada da cobertura, pronto para dar seu primeiro e último salto ornamental. Um som de avião aumentava continuamente. Ainda indeciso, observou melhor a paisagem, localizando a estátua da liberdade e seu antigo escritório no World Trade Center.

O som das turbinas do avião estava alto demais, e o mesmo passou poucos metros acima de sua cabeça. Estava baixo demais! Traçou uma pequena curva e, como se estivesse em câmera lenta, se espatifou contra uma das torres gêmeas. Exatamente naquela em que ele trabalhava, na altura de seu escritório.

Antônio chorou, pois não era o seu dia de morrer.

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