e-book Caminho a manhã (2002) – revisado em 2014

 

 

 

 

 

 

Caminho a manhã

 

Fabio Rocha

 

 

 

 

Copyright © 2002 por Fabio Rocha – revisado em 2014

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: CAMINHO A MANHÃ

No. Registro da Obra: 273656

Livro: 492

Folha: 316

Data de Registro: 13/11/2002

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

Título original: Caminho a manhã

 

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

 

Endereço eletrônico:

Sobre o autor

 

 

 

 

 

 

Prefácio

 

 

Fabio Rocha é na poesia contemporânea um fabuloso exemplo de como podemos encurtar o verso sem perder a poesia. Com seu incrível poder de síntese, vai sugando nos dias que correm as metáforas que passam desapercebidas aos olhos daqueles que não param para observar um pouco além do óbvio.

Entre a política e o amor, vai deixando o seu legado poético repleto de fortes mensagens, que mereciam ser repetidas ao microfone em alto e bom som. Por vezes romântico, por vezes panfletário. Seu Auto-Retrato como ele mesmo define é incapaz de decifrá-lo (Nas ruas / sou sério / calado / careca. / Na Internet, / sou poeta). É exatamente assim que conhecemos Fabio numa primeira conversa, para só depois descobrir que quando ele diz poeta não é mera brincadeira, tão comum no meio virtual. Autor de 4 e-books e um primeiro livro pela editora Papel & Virtual, a palavra poeta é como uma respiração ofegante que o acompanha no dia-a-dia. Por vezes sério como Drummond (O silêncio salta / faz piruetas e dança, invisível / pelo espaço intransponível / que separa eu de mim.), por vezes repleto de humor como um Veríssimo (Eu não vou falar de mulher. / Olha a seleção / e os problemas de ereção / do Pelé…).

Ler os seus poemas é mergulhar no universo da poesia e da música clássica para poder compreender a grandeza das imagens que cria em seus versos. É querer saber quem são estas tantas mulheres que atravessam sua vida fazendo-o negar as próprias metáforas (Estou farto / de usar as mesmas metáforas / pra falar das mesmas dores… / Quero dores novas!).

Assassino e inquieto, Fabio é incapaz de calar seu verso a qualquer simples aberração que reprove na televisão. E sua arma para cometer o crime é nada mais que um lápis, uma caneta, um teclado. O poeta revoltado joga na cara do povo sua medíocre condição humana (Domingo só tem babaca / fazendo programa / pra babaca assistir / na tv.). Deste modo segue Fabio Rocha, caminhando a manhã e criando asas nos seus leitores para que estes possam cada dia ir mais longe, assim como ele está indo com a sua poesia.

 

Rodolfo Muanis, Outubro de 2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O melhor caminho é o do meio.” – Príncipe Sidarta (Primeiro Buda)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HEGEMONIA – O LEGADO

 

Seguindo a cartilha neoliberal

global-estadunidense

chegamos na beira do caos

ou no quase fascismo…

 

O privado é público,

o público é privado

e o Estado é privada…

 

Eis a nada simples missão

de nossa geração:

 

Estatizar o Estado,

consumir o consumismo,

democratizar a democracia

e reviver a vida.

 

22/5/02

 

 

AUTO-RETRATO

 

Nas ruas

sou sério

calado

careca.

 

Na internet,

sou poeta.

 

29/5/02

 

 

LONGE, LONGE

 

Para Drummond

 

Ando, ando…

 

Bancos vazios

em corredores soturnos.

 

Prédios noturnos

me observam calados.

 

Rostos, vozes

tudo, tudo

longe, longe…

 

O silêncio salta

faz piruetas e dança, invisível

pelo espaço intransponível

que separa eu de mim.

 

Não ouço meus passos

mas não importa

pois nem eu nem cada porta

por que passo

compreende esse trajeto.

 

Seguro

com as estrelas

o peso dos véus,

do escuro

e da ausência

inadmissível

intocável

intransponível

inassimilável.

 

O vento venta

mas venta pouco.

 

Quem dera a paz…

Ventasse mais…

Ventasse mais!

 

E expulsasse

de minha mente enfumaçada

as centopéias indecifráveis

que me fazem não achar.

 

UERJ – 6/6/02

 

 

NÃO FALAR

 

Eu não vou falar de mulher.

Olha a seleção

e os problemas de ereção

do Pelé…

 

Eu não vou falar de mulher.

Quero saber da novela

e se o clone fica com ela…

 

Eu não vou falar de mulher.

Não quero isso

nem o Thyrso.

 

Eu não vou falar de mulher.

Vou ficar sozinho

assistindo o Ronaldinho

correndo, correndo…

 

Como corro de mim.

 

7/6/02

 

 

SOLUÇÃO

 

Quero endorfina na veia

ou conseguir amar

uma mulher feia.

 

7/6/02

 

 

QUASE

 

A loucura me chama.

Chama tão próxima

que quase queimo.

 

7/6/02

 

 

INSETO

 

Para A.

 

Já perdi as contas

dos sonetos que li

de Neruda.

 

E continuo

incerto

quanto ao amor e ao âmbar.

 

27/6/02

 

 

A MARCA DA AMARGA AMADA ALÉM

 

Minhamada além

é quem?

 

Além daqui…

lá, lá, lá no lar

de não sei quem

dorme possivelmente

(cansada de procurar)

minhamada além.

 

Poderia ser Madalena

mas e a rima do poema?

 

Minhamada além

é quem?

 

Ah, se eu soubesse amar…

Ah, se eu soubesse achar…

 

É acima

avante

adiante

além além além…

 

Na noite escura

é a estrela de grandeza dura

que não vem.

 

7/7/02

 

 

PAPEL

 

De todo o silêncio

ouço só o esplêndido

silêncio das árvores.

 

Pois o silêncio de quem fala

e cala

é incompleto.

 

Por isso, ouço o silêncio

distante

das árvores que nunca vi.

 

8/7/02

 

 

PÓS-FÁCIL

 

Para Elaine Pauvolid

 

Aliás,

ver você

poeta e musa

musa e poeta

de vermelho…

 

Aliás,

ler você

entregue ao trago

(cheio de um estilo estranhamente reconhecível)

perdida e achada,

pichando meus muros

nos domingos sozinhos,

afugentando a felicidade,

completa, repleta e secreta

com borboletas, letras e pássaros artesanais,

Deuses infernais

e querendo aprender a mentir…

 

Me fez sorrir

por todo o longo caminho

de volta, sozinho.

 

(Pois me vi

em ti.)

 

16/7/02

 

 

REPETECO

 

Estou farto

de usar as mesmas metáforas

pra falar das mesmas dores…

 

Quero dores novas!

 

17/7/02

 

 

CRISÁLIDA DE CARNE

 

Quase tonto

quase tento

sair.

 

Só não sei como

rasgar o que sou

sem ferir.

 

28/7/02

 

 

TROVÃO

 

Tudo comigo é difícil

porque tenho essa mania

de querer que o impossível

rime com poesia.

 

28/7/02

 

 

NOITE

 

A noite é escura

demais.

 

Preciso de espaçonaves alienígenas,

preciso de Platão, de Aristóteles, de Pitágoras, de Drummond…

preciso de um Deus

melhor.

 

13/8/02

 

 

CAIXÃO

 

A Roger Waters

 

Eu queria comprar

uma caixa grande

pra ter onde colocar

(em ordem alfabética)

as cartas de amor, as fotos, os presentes

e a dor

de minhas três

ex-namoradas.

 

Eu queria comprar

uma grande caixa

para morar

bem longe, sozinho, longe, sozinho e longe…

 

Eu queria comprar

um gigantesco cadeado

pra me fechar pra sempre

e não querer abrir.

 

15/8/02

 

 

TARDE DEMAIS

 

O som do céu é surdo.

O azul, absurdo.

 

Absorto,

observo a letra F farfalhar

o fim.

 

19/8/02

 

 

CAIXOTE

 

Perdido estou.

Perdido vou ficar.

(Com ou sem você.)

 

Não há tempo

(nem vontade)

pra me achar

na vida.

 

Mas o desencaixe

me encaixa

na arte.

 

21/8/02

 

 

TOCAR

 

O telefone não tocou.

 

Ligo a tv.

 

Domingo só tem babaca

fazendo programa

pra babaca.

 

Vejo um ser humano

tocando gaita com o nariz

consciente da babaquice mútua

no meio da tarde.

 

Mas mesmo assim

babacamente percebo também

o telefone mudo.

 

8/9/02

 

 

SOFRER

 

Preciso de

estrume

pro poema

florescer.

 

13/9/02

 

 

GEMINI

 

Ao Moska

 

Quem me separou

de mim?

 

Ergo e destruo pontes

erro aos montes

luto-me esgrima

me me afasto

do que nos aproxima.

 

Cortes múltiplos

mortes súbitas

fendas, muros e murros

sabedoria de burros…

 

Em dia nenhum

dois serão

um.

 

13/9/02

 

 

BAIXO

 

Destampem os ouvidos:

eu não vou gritar meus poemas.

Não quero crescer assim minhas certezas.

(Elas são pequenas e tímidas como eu.)

 

Nem farei piruetas,

ou virarei cambalhotas

para compensar as alegorias poucas dos versos

e as alegrias poucas da vida.

 

Minha poesia tem vergonha

de acordar o sonho do silêncio.

 

17/9/02

 

 

POETETRIX

 

Meu cabelo cresce,

minhas unhas crescem,

minha barba, insistentemente, cresce

e eu não cresço.

 

23/10/02

 

 

TAMBÉM JOSÉ

 

A Drummond

 

Vivemos no concreto

sem comer nada natural

sem beber nada natural

sem ser natural

e querendo preservar a natureza.

 

 

 

 

(Fabio Rocha)

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