e-book Vice-Rei (2002) – revisado em 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

Vice-Rei

 

 

 

Fabio Rocha

 

 

 

Copyright © 2002 por Fabio Rocha – revisado em 2014

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: VICE-REI

No. Registro da Obra: 260441

Livro: 466

Folha: 101

Data de Registro: 7/6/2002

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

 

Título original: Vice-Rei

 

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

 

Endereço eletrônico:

Sobre o autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para o amigo e poeta Ricardo Alfaya, que acha tanto no que escrevo tão pouco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por baixo da saia

 

À primeira vez que tive contato com a poesia de Fabio Rocha, percebi o talento incontestável do autor. Isso se deu a partir do site www.falaê.com.br . Ambos éramos colaboradores. A partir das pistas naquela revista eletrônica – para mim, uma das melhores em termos de diagramação – que visitei a página pessoal do autor www.amagiadapoesia.cjb.net, o que foi uma grande descoberta.

 

Muitos há no Brasil talentosos e Fabio é um deles. A internet é a saída para todos nós que trabalhamos com arte pois, até agora, com pouco dinheiro nos fazemos circular em tempo inimaginável até o início da década de 70 e em termos de Brasil, até o final dos anos 80, com complacência e até ontem com realismo.

 

Fabio tem sensibilidade e talento para fazer uso desta ferramenta, se não acessível a toda população, pelo menos à classe média. O site, A Magia da Poesia, muito bem diagramado, diria até que revelando um outro talento do autor, o das artes plásticas, ou quem sabe, desta tão falada poesia visual, chama atenção primeiro por isto: pelo show visual que nos dá em economia de formas e precisão estética. Ao longo do tempo, conheci seus poemas nus. Sem a roupagem rica das cores e da animação cibernética. Estavam lá versos verdadeiros, versos por inteiro. Sem dúvida, sua poesia perde muito sem suas vestes plásticas. No entanto, percebe-se o ente nu, totalmente desfolhado, mas não esfolado. Com o livro que temos aqui se comprova isso. São poemas curtos, à moda atual, tão vilipendiada por críticos nostálgicos de um tempo em que a genialidade parecia ser o comum e o normal nunca existido.

 

Principalmente entre jovens, a poesia tem sido curta. Que queriam os mais velhos? Como debruçar-se sobre epopéias e enormes sonetos com a rapidez em que estamos imersos, na qual nascemos? Seria forçar a mão em busca de um sonho perdido. Mas, que sonho? Quem poderá dizer a época mais profícua para versos? E não houve Safo e muitos outros que em poucas linhas diziam quase tudo? Sem dúvida, muito se perde por julgar um poema pela quantidade de versos, presença de rimas, ou imaginárias missões maiores.

 

Certo é que muitos preguiçosos e orgulhosos de sua ousadia rabiscam palavras de ordem ou de segredos sem notar que o poema curto não é uma regra, não se esgota e nem é uma grande descoberta ou invenção pós-moderna.

 

Se curto porque deva ser curto, que seja, e se está curto porque não está pronto ou nunca estará que se estude e se trabalhe no balbucio primeiro. Esses, que também são muitos, fazem deste estilo, seu estilo, sem notar que ficaram presos no próprio reflexo à maneira de Narciso e nem sabem em que estão afogados.

 

Em Fabio, percebe-se que há um trabalho em constante evolução e seus poemas se fecham no círculo necessário a qualquer projeto. Ele sabe terminar um poema. Eles acabam em si. Eis o ponto crucial de Fabio, o que o singulariza. Realmente temos poemas muito curtos. Curtos o suficiente para nos surpreendermos. Vejamos o poema “Casa”:

 

Quero estar em casa

longe dos olhos alheios,

minhas sombras sempre estranhas

e esses malditos espelhos.

 

Que se pode acrescentar a este poema? Que dizer dele além de: sim, é verdade eu sinto isso. Mas, atenção ao sentido de leve escamoteado pela ausência da preposição “de” nos dois últimos versos: longe dos olhos alheios, minhas sombras… Com a atenção que peço ao leitor, vejo o seguinte: Quero estar em casa/ longe dos olhos alheios, de minhas sombras sempre estranhas e desses malditos espelhos. A preposição pode ser suprimida se presente no início. E se o poeta não a sumprimisse o poema perderia seu valor se não totalmente, em grande parte. No entanto, também se poderia entender os versos últimos como aposto em que olhos alheios seriam as sombras estranhas e malditos espelhos onde o pronome esses reforçasse ainda mais a ira do autor. Sim, esta é uma segunda leitura do poema. Na primeira, uma referência ao resto da população que rodeia o poeta, o mundo e seus obstáculos enormes, a casa como refúgio tranqüilo onde ele pode ser essência e não reflexo, sem espelho, com olho de alma invisível e sensível. No segundo a referência ao grande Outro, na consciência de que o inferno não são os outros, é o Outro disfarçado de outros, como não diria Sartre, porque Lacan ainda não teria difundido sua idéia de Grande Outro.

 

Percebe-se de pronto a personalidade do poeta, uma personalidade tímida e bem humorada como costumamos ser, brasileiros. Manuel Bandeira mesmo triste e choroso é cômico, ou não? Que dizer da relação que teve com Elizabeth Bishop quando esta foi presenteada com uma casa em Petrópolis ao lado de uma mulher como Lota. Bishop o achava típico, como os demais brasileiros, como se vê em suas cartas. Mas, quem está de fora, vê que também ela era típica, falava de versos puros e se torturava por serem tão difíceis. Bandeira deitava na rede, tranqüilo e seus versos falavam das coisas simples do coração. Bishop queria falar dos barcos, do porto de Santos, do encardido que não estava nela, ou se estava, não achava que deveria ser a poesia meio para mudar seu espírito. Bandeira, se falava do coração, de seus sofrimentos de raquítico, não era para purgar-se disso, mas para desabafar, para apaziguar-se e com os versos fazia comunhão com a sabedoria da serenidade do miserável, tirando místico prazer da dor. Bandeira era um poeta brasileiro de versos quase sempre engraçados, apesar de falar de coisas quase sempre tristes e Bishop uma missivista de língua saxônica, cômica, altamente cômica, em cujos poemas se vê um olhar estupefato, e mesmo que não quisesse, com o lampejo das almas sábias, que em tudo vêem um risco de graça.

 

Há humor nos versos de Fabio Rocha, mas é um humor sem intenção, um humor inerente à condição dos frágeis. Ele se mostra frágil em seus poemas, cônscio disso nos versos, sem auto-piedade, apenas mais um dos aspectos de sua poesia e essa fragilidade exposta é que dá a primeira impressão de uma comicidade e de se tratar de um poeta menos profundo. O que é engano enorme. Na releitura de Fabio é que percebemos que o humor, a graça primeira, era apenas um véu sobre o trágico da condição humana, das inúmeras limitações e fascinações a que somos expostos. Vejamos “pressa de amar”:

 

Sou aquele

que chama

pra dançar

e nota

que não tem

pernas.

 

Fabio Rocha é um poeta que levanta a saia. Mas, é preciso que o leitor não tenha pressa em o tragar, nem de o julgar. Ele levanta a ponta da saia. O leitor desnuda o vice-rei cômico, para descobrir uma verve autêntica de poeta que não veio para fazer rir, nem para fazer chorar, mas para fazer arte.

 

Elaine Pauvolid

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEM TIDO

 

Lá fora a lua brilha,

o vento uiva

e pessoas buscam.

 

Ah, eu quero entender o mundo…

 

Ou apenas

fazer um poema profundo.

 

28/12/01

 

 

FILOSÓFICO-RELIGIOSO

 

Por temer a morte,

o homem criou a religião

no oitavo dia.

 

No nono,

com dor de solidão

nas costelas magras,

o homem – esse portento

inventou o casamento.

 

29/12/01

 

 

MODAL

 

Minha irmã diz

que escrevo sempre

o mesmo.

 

Falta pano

nas metáforas

com que visto

o real.

 

30/12/01

 

 

LUGAR DIFÍCIL

 

Por falta do que fazer,

ando.

 

E o silêncio do caminho

me empurra

para dentro de mim,

 

onde sombras de amigos

suspeitos

espreitam

 

e vontades de amores possíveis

vão crescendo e corroendo

estradas sem direção.

 

30/12/01

 

 

CASA

 

Quero estar em casa

longe dos olhos alheios,

minhas sombras sempre estranhas

e esses malditos espelhos.

 

1o./1/02

 

 

ÚLTIMA PRAIA

 

Foi no mar

pensando em amar

que Iemanjá cutucou-me a canela

com um relógio.

 

(E funcionava!)

 

Seus ponteiros bussolavam:

não se acha o amor,

o amor é que te acha.

 

4/1/02

 

 

QUEM É VOCÊ?

 

O amanhã nunca vem…

 

E eu também

não vou além

de mim, refém

do eterno quem.

 

6/1/02

 

 

CENTRO

 

É desse chão cinza

regado de stress

que nascem as estranhas

plantas bípedes concorrentes.

 

Seus frutos são negros

quadrados

tem alças retangulares

e quase nunca caem.

 

Plantas que se movem

sempre

com ou sem vento

com ou sem chuva

com ou sem vontade

com ou sem vida.

 

7/1/02

 

 

QUANDO CRESCER

 

Senhor, eu quero ser mendigo,

esquecer o trigo

e comer o pão.

 

Eu quero não saber do dólar,

só viver de esmola

e ser ermitão.

 

Ignorar o mundo e as letras

e fazer caretas

para o camburão.

 

Sonhar sonhos de ignorância

e só ter a ânsia

de viver em vão.

 

Comer antifrutas sem sumo

e andar sem rumo

pela escuridão.

 

8/1/02

 

 

LADO B

 

Revolução!

 

Tá, e agora?

 

Como

virar

a mesa

sem quinas

sem pés

sem vidro

sem ferro

sem esquerda

sem direita

sem mesa?

 

9/1/02

 

 

OLHO

 

Quanto mais

estudo os Grandes,

mais encolho.

 

11/1/02

 

 

PROLIXO

 

Não é por vivermos em edifícios

que devemos escrever difícil.

Pro leitor, não pro lixo.

 

18/1/02

 

 

VERÃO NO SUBÚRBIO

 

Como se não bastassem

a acidez do sol

e o bafo do asfalto

 

ainda tocam

fogo

nos fundos

dos quintais…

 

e essa música branca

sobe

e arde

a tarde

no pulmão da cidade.

 

22/1/02

 

 

VÊNUS

 

Nesse mundo cheio de chão,

pleno de terra,

busco

o prazer das coisas

comuns.

 

Mas só encontro

vontades

de asas

e

deltas

de Vênus.

 

22/1/02

 

 

SE MEU GOLEM FALASSE…

 

Para Fellipe Cosme

 

Estou chorando vendo João Kleber,

imaginando pátrias sem hinos,

colecionando crepúsculos de ouro

e me regozijando com sorrisos femininos

vindouros.

 

(de amadas distantes desconhecidas desmanteladas – amadas que não vêm)

 

Bailo bailes com minha mão

e nem ouvindo o trovão

meu desejo cala.

 

Sim, tenho e sou mala

mas não viajo.

 

Ralho

e quase não saio.

 

Passa, tempo!

 

Me vicio em novos videogames e RPGs

e me encontro anão

em pontos de ermitão.

 

Tempo voa.

 

Bebo Coca-Cola,

arroto antiglobalização.

 

Sobra tempo.

 

Leio Nietzsche,

pergunto Jesus.

 

Tempo pinga.

 

Minha pele

expele

pus.

 

5/2/02

 

 

SONETO À SOLIDÃO

 

Com amor eu tudo faço

pela minha companheira.

E se vejo a lua inteira

Não me basta um pedaço.

 

E me jogo no espaço

De uma espreguiçadeira

Tendo a alma seresteira

Encharcada de compasso.

 

Essa música de aço

Que eu faço de bobeira

É pra minha companheira…

 

E essa cara de palhaço

E esses versos de terceira

São pra minha companheira.

 

6/2/02

 

 

EXTINTAS ESTRELAS – EXTINTAS

 

A Fellipe Cosme

 

Raros amantes,

amantes pequenos

com relógios imensos,

caros

relógios intensos.

 

Procriam no cinza

cada vez mais alto e alto e alto…

mais longe do céu.

 

Abraçados pelo turbilhão

da população crescente

e anônima

com relógios de nome.

 

Tropeça a noite

sobre tudo e todos,

mas só alguns

semeiam em folhas

alvas

o cheiro de extintas estrelas

de épocas menos poluídas.

 

E inventam melancolias

de quando havia casas vazias,

toques de mão,

amigos irmãos,

terra

e tempo.

 

10/2/02

 

 

CELESTE

 

Para Andréa

 

O meu anjo negro

eu não possuo.

 

Suo

tentando achar

escuridão em anjos outros.

 

E acabo por concluir

que não existem anjos.

 

19/2/02

 

 

A ESTRELA

 

Na plantação vazia

a vastidão arrepia.

Então eu cultivo

a estrela mais impossível.

 

22/2/02

 

 

A SABEDORIA DAS AMENDOEIRAS

 

A Manoel de Barros

 

Quero

não

querer.

 

25/2/02

 

 

DIA DE SOL

 

O vento me soprou

um céu azul cereja

e vi na borboleta

mais Deus

que na igreja.

 

26/2/02

 

 

MUNDO

 

Pego todos os caminhos

que me levam a nada

pois tudo é imundo.

 

5/3/02

 

 

DA AGRESSIVIDADE DA BELEZA

 

Há belezas

que ofendem

as fendas

dos olhos.

 

No seu equilíbrio

de curvas e cores

parimos faltas.

 

5/3/02

 

 

PÊNDULO

 

Caminho no campo florido

ouvindo gritos de revolta.

 

Na palma das mãos,

louvor e sangue.

 

O sol que brilha

esfria minha alma.

 

Tropeço em preces

mas a pressa empurra.

 

Vago e divago

entre

dentro e fora.

 

(Me falta uma espada

pra cortar espelhos.)

 

Onde começo eu

acaba o mundo.

 

14/3/02

 

 

ESPADA

 

Eu sou o imbecil

com uma bandeira

branca no meio da guerra

 

que costuma levar

espadas

em passeatas

pela paz.

 

Se me deixam,

choro em nascimentos

e rio em funerais.

 

Meu rio

não quer

a_mar.

 

E

vence

a gravidade.

 

15/3/02

 

 

VICE-REI

 

Eu sempre estendi as mãos

para as borboletas…

 

Abria os braços

para o passado saudoso…

para o futuro sonhado…

mas nunca tocaram em mim.

 

Hoje, fiquei imóvel

e uma pousou no meu pé.

 

19/3/02

 

 

MIL E UMA NOITES

 

Minha boca

já se encheu

de línguas…

 

Meu esqueleto

escaleno

já se esforçou tanto

em camas e lustres…

 

Mas minhas mãos

mendigam ainda

em peitos

em busca

dum coração.

 

30/3/02

 

 

DELIVERY

 

Somos nazistas alienados

contribuindo semicegos

para os campos de concentração

de renda.

 

Criamos necessidades de consumo

inúteis

matando chances e gentes

ainda mais cegas.

 

Quem tem olhos,

tem bolsos

cheios

e milhões

de vendas.

 

5/4/02

 

 

POESIA SOCIAL

 

Sou Sísifo,

mas fraco.

 

A pedra

não move.

 

Espero

mais mãos.

 

14/4/02

 

 

METAFÍSICO

 

Eu sou o último tombo

o filho único da espada

o fim do eterno retorno

a vida e a morte, mais nada.

 

16/4/02

 

 

A LÍNGUA DA PAIXÃO

 

Para Anne Caroline

 

Soltem meus braços!

 

Deixem-me berrar

aos sete ventos

que a vida é boa…

 

que há línguas

como a tua…

 

e que amar

não rima à toa.

 

21/4/02

 

 

PRESSA DE AMAR

 

Sou aquele

que chama

pra dançar

e nota

que não tem

pernas.

 

27/4/02

 

 

BARBA

 

Eu queria ser feliz

e falar de futebol

mas me interessam

idiossincrasias e cnidoblastos com nematocistos.

 

Não presto.

 

27/4/02

 

 

SUPER EGO

 

Um bom motivo

para a tristeza latente

em minha felicidade descrente

talvez seja esse relógio duro

a segurar meu punho

e a ameaça duradoura

das gravatas borboletas atrasadas vindouras

ao pescoço ainda livre.

 

Quem sabe não é por isso

que os músculos de meu rosto

em protesto

doem

quando rio

sem querer

em festas

de família.

 

3/5/02

 

 

A OSCAR WILDE

 

Sim, talvez eu devesse

assistir a essa maravilhosa

aula (cópia de livro em giz)

e assim perder

a peça de Oscar Wilde

de graça no anfiteatro B.

 

Só que…

 

UERJ – 7/5/02

 

 

PORQUE AS ANDORINHAS DE CHUMBO NÃO VOAM

 

Não crêem.

 

7/5/02

 

 

MATA

 

A Oscar Wilde

 

O homem

mata

o que ama

porque ama

o que acaba.

 

7/5/02

 

 

PSI

 

Se grito

ou falo baixo

não me acho:

procuro demais.

 

7/5/02

 

 

DO FIM

 

Para Anne Caroline

 

Suas lágrimas seguraram a minha raiva.

Meu orgulho segurou a minha lágrima.

Minha mão segurou a sua, pela última vez.

 

Fui tentar me sentir seguro no carro,

e liguei o rádio…

 

Pensei: “Tudo menos aquela música agora…”

E foi justamente a que tocou.

 

Aumentei o rádio e olhei o carro adiante

com o símbolo do Batman

simbolizando pra mim: siga em frente.

 

Não segurei a risada…

 

Pois nessas horas é que acho Deus

e acho Deus engraçado.

 

 

(Fabio Rocha)

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