Tudo Pelos Ares – ebook (2001)

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Tudo pelos ares

 

 

 

 

 

Fabio Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

Copyright © 2001 por Fabio Rocha

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional:

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: TUDO PELOS ARES

No. Registro da Obra: 210400

Livro: 366

Folha: 60

Data de Registro: 11/9/2000

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: FÉRIAS

No. Registro da Obra: 224134

Livro: 393

Folha: 294

Data de Registro: 23/2/2001

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

Título original: Tudo Pelos Ares

 

Editoração eletrônica: Fabio Rocha

 

Endereço eletrônico:

Sobre o autor

 

 

 

 

 

PREFÁCIL

 

 

 

Todos sabem que o nosso país não tem especial apreço pela leitura de literatura, sobretudo pela poesia. A arte brasileira por excelência é a música popular. Comprova essa assertiva o fato de que o Brasil é um entre os poucos países cujo consumo da produção nativa rivaliza ou supera a da música norte-americana, que se alastra, mundo afora, por força das grandes indústrias multinacionais que monopolizam a produção e o comércio das artes audiovisuais. Uma das características que contribuem para a vitalidade da música popular brasileira, excetuando-se os gêneros de sucessos fugazes, é a poesia. Isso posto, não temo estar errado quando afirmo que, por paradoxal que possa parecer, o brasileiro gosta de poesia, mas sofre da falta do hábito da leitura.

Contudo é alvissareiro observar que o advento da internet, e a sua massificação, tem resultado na aparecimento de centenas, quiçá milhares de novos poetas, alguns já maduros, outros em processo de aprendizagem, mas a maior parte, felizmente, formada por poetas comprometidos com uma nova atitude, que é a de não filiação às idiossincrasias que caracterizaram as escolas teóricas onde os discursos e manifestos fundavam-se preponderantemente na negação da corrente que pretendiam suplantar, como se a arte fosse uma guerra santa onde um ícone havia que ser derrubado para abrir espaço a outro.

É essa a novidade na nova poesia: há espaço para todos e para a diversidade de formatação poética. O belo já não tem vergonha de ser belo, o sentimento já não se emascula pelo temor do ridículo. As palavras libertam-se das amarras subjetivas que se lhes intentaram submeter com o falso dilema da hierarquização; uma tolice que parecia comparar o idioma a uma sociedade de classes onde designou-se para os adjetivos o papel de párias.

É este bom convívio entre todas as formas e todos os ritmos, este criar o novo, cultivando e cultuando o estabelecido e o eterno, uma outra das características que impulsionam a música brasileira e que agora há de servir à poesia escrita e ou inscrita em qualquer suporte onde a imaginação do poeta se lhe permita expressar.

Entre esses poetas que agora se revelam está o Fabio Rocha, que nos oferece à leitura este “TUDO PELOS ARES”, livro onde se deve buscar a poesia que surge das suas inquietações, da sua acurada observação do tempo e espaço que habita e não o rigor frígido de poemas laboriosamente lapidados em laboratórios de dissecação filológica. Neste livro, mais que o corpo, é alma, a sua alma, que o poeta nos oferece. Deleitem-se.

 

 

Fred Matos, poeta

 

 

PROSA DE ABERTURA

 

 

Considero este um dos melhores livros de autores de nosso tempo que me chegaram às mãos.

O motivo? Difícil dizer de imediato, mas o que me impressionou foi a sintonia de sua poesia, na medida exata, com a época em que vivemos.

Não se trata apenas de ter escapado das armadilhas de tentar reproduzir esquemas recentes já esgotados de fazer poético, mas de ter sido capaz de escapar disso sem escorregar para fórmulas ainda mais antigas e passadistas.

Ler a poesia desse livro é tomar um banho de atualidade. Não no sentido meramente histórico ou jornalístico que a frase possa sugerir, mas também, no sentido estético.

Por outro lado, poucos livros terão recebido um título tão feliz e tão apropriado ao conteúdo que encerra. “Tudo pelos ares”. Mistura de irreverência, crítica e lirismo. Título que sugere vôo, imponderabilidade e frescor. Também, explosão e fragmento. A pós-modernidade, com seu acúmulo total de tudo, explode de repente em seu livro e dos fragmentos que voam pelos ares você realiza notável colagem. Colagem ou reciclagem? Sim, há mais que mera colagem, como já se fez em outras obras. Há um discurso implícito nas entrelinhas que realiza a tessitura desses fragmentos, do qual emerge um novo sentido.

E aqui entra um fator interessante. Em vários momentos, Fabio Rocha mostra, com muita felicidade na escolha das imagens, o paradoxo em que estamos imersos. Somos destruidores do Planeta, mesmo quando pretendemos fazer “o bem”. Pior, e você trata disso com eficácia num poema, somos destruidores até mesmo quando não estamos fazendo nada, quando simplesmente estamos dentro de casa, sentados no conforto de nossa poltrona. Existir é destruir.

Então, a sua poesia de certo modo realiza o sonho da reciclagem. Nada se perde, tudo se transforma, como em Leibnitz. Porque o título de seu livro, além dos aspectos já relatados, retrata também um medo que subjaz a nosso tempo. Sim, nunca estivemos tão perto de ir pelos ares. Mais que isso. Se pensarmos como Gibran Kalil Gibran, que dizia ser o medo da fome a própria fome, então, já fomos pelos ares. Todos nós somos, de certo modo, Memórias Póstumas de Brás Cubas. E você está lá no meio das nuvens da explosão, colhendo os fragmentos e reinventando-os. Com o espírito da reinvenção *possível*.

Talvez daí a irreverência sempre permeada por um toque de leveza. Não há na sua dicção o soturno canto nihilista, o peso do pesar, o hermetismo simbolista, a exaltação dramática. Também não há, e isso me parece importante frisar, aquele tom um tanto cínico que tem marcado a produção contemporânea mais recente. Em resumo: nem exaltação, nem frieza. Um olhar diferente, especial. E isso, acredite, não é pouco e, igualmente, é muito raro.

 

Ricardo Alfaya, poeta, contista, cronista, ensaísta, editor e jornalista carioca.

 

Para o vento.

 

“Leve, leve, muito leve,

Um vento muito leve passa,

E vai-se, sempre muito leve.

E eu não sei o que penso

Nem procuro sabê-lo.”

 

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

O GUARDADOR DE REBANHOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I – Tudo Pelos Ares

 

 

 

NÃO PISE NA GRAMA

 

 

 

Placa inútil e amarela:

“Não pise na grama.”

 

Amarela

pela ausência de girassóis.

 

Inútil

porque não tenho os pés no chão.

 

 

 

 

 

CREPÚSCULO

 

 

 

Que belas nuvens arredias

nesse crepúsculo dourado.

Longe, a Ave-Maria

vence infinitos telhados.

 

Pardais nos fios, nos prédios, nas casas…

parecem encantados.

Ah, o que se passa

sob esses tetos gelados?

 

No céu, agora há um balão.

Em breve, algo incendiado.

Barulhento e alto avião

me chama ao chão, atordoado.

 

RESPIRÁVEL

 

 

 

Quero tudo pelos ares.

 

Sem bombas,

o fim das certezas de terra,

das durezas de pedra,

das friezas de água,

das ardências de fogo…

 

Quero silêncio respirável.

 

 

 

ARCO-ÍRIS

 

 

 

Que o Senhor nos prometa

não mandar um cometa

bem no nosso planeta.

 

Sim, somos uns macacos…

com poucos pelos e muitos medos.

Mas os mesmos dedos

que apertam gatilhos, fazem partos.

 

Guarde os seus astros.

Se demonstrarmos total incompetência,

nossa criação atômica

não permitirá sobrevivência.

 

 

 

 

VIAGENS

 

 

 

Pela janela,

as luzes coloridas dos ônibus, dos caminhões

mostram sonhos apagados.

 

As casas simplórias, as encostas

lembram dolorosamente

onde não estive – que saudade.

 

O fio (onda negra)

desce, para, sobe,

bate no poste,

desce, para, sobe,

bate no poste.

 

Nós, fios de Deus,

temos que teimar em subir pelos ares

temos que teimar em vencer os postes.

 

GREVE

 

 

 

Tempo cinza que nos embaça.

Sabiá gelado.

 

Tudo perdeu aquela graça.

Vento recortado.

 

O céu é fumaça?

Sonho velho abandonado.

 

Isso um dia passa?

Ah, inalcançável passado…

 

(Eu sabia amar.)

 

 

 

 

ÁGUA VIVA

 

 

 

Eu quero o poema cnidoblasto,

cheio de chatos nematocistos.

 

Que arde como os antigos emplastos,

estranho como os ornitorrincos.

 

Que ignore aqueles verdes pastos

e embriague como vinho tinto.

 

Quero o verso chato enigmático

que cante tudo e nada que sinto.

 

Que se danem o pássaro simpático

e as flores em formato de brinco.

 

 

 

QUADRO

 

 

 

A melhor poesia

é como a paisagem

de costas.

 

 

 

 

GREYS

 

Para Carlos Drummond de Andrade

 

O vidro sujo do carro

faz ainda mais cinza

aquilo a que chamam Méier…

 

Nem o azul do céu

escapa da cor maligna

que em tudo se entranha…

(Poluído e funesto tom!)

Como num filme de Chaplin.

 

Me pego abismado,

ao ver ali as pessoas…

Sem ser filme, novela ou seriado…

 

Como serão suas vidas,

seres cinzas transeuntes?

 

Não tenho veneno,

tomo Coca-Cola…

 

 

 

BELO BELO?

 

 

Para Manuel Bandeira

 

 

O belo – a bunda.

Abunda o belo

padrão.

 

Sem carne, sem pão:

silicone na massa.

Famintos felizes morrerão.

 

Compre, beba, ouça, seja

bunda.

 

Hoje, a beleza

é ainda mais triste.

 

 

CALCULUS

 

 

 

Engenharia

leva qualquer 1

ao limite.

 

Integro

a massa que bóia.

 

Em ondas

de fórmulas

decoradas.

 

No mar

de inutilidades,

derivo à deriva,

sem objetivos nem assíntotas no horizonte.

 

Se achasse uma ilha

com um X,

no lugar do tesouro

haveria um Y.

 

 

ORDEM

 

 

 

O velho Erasmo Dias

não se arrepende.

 

Era um homem público

que só defendeu

a ordem

que só cumpria

ordens.

 

(aquela da bandeira?)

 

Nossa vitória

é ouvi-lo falar

o que quiser.

(mesmo essas imbecilidades)

 

 

 

A CIGARRA ATÔMICA

 

 

Para Drummond

 

 

A cigarra atômica

não se contentava em cantar

sem ninguém ouvir.

 

As pessoas passando,

walkmans,

admirando outdoors

engluteados

 

fizeram-na descer

da árvore.

 

Hoje canta na internet,

aparece na TV,

nos jornais

e é ouvida.

 

Cientistas afirmam:

É por causa de uma contaminação por Césio 137 que ela não morre.

 

 

 

SÃO JOÃO

 

 

 

Se Toledo

tivesse tolerado

ter lido

as instruções,

o estalido

não teria matado.

 

 

 

 

 

 

 

DOENÇA

 

Para Manoel de Barros

 

Só lendo Manoel de Barros

é que descobri o que tinha

minha professora loira do primário,

que vivia de olho arregalado

desolhando o distante:

 

Ela tinha lonjuras.

 

 

 

 

 

 

 

HIENAS

 

 

Para o Excelentíssimo Professor de Economia Paulo Márcio

 

 

Os pobres nem sabem

o que podem ganhar.

 

A classe média só pensa

no que pode perder.

 

Revolução? Não.

Melhor ver Malhação

e sonhar com o Jogo do Milhão.

 

Eu aqui sem aula e mudo

e meu Centro Acadêmico

vendendo X-Tudo.

 

Todos só dizem, entre empadas:

não se pode fazer nada.

 

Mas vamos sorrir, tenta…

Quem sabe o salário aumenta.

 

 

 

TAMANHO

 

 

 

Pobre navio

preso na garrafa.

 

Que importa o tamanho?

Lugar de navio é no oceano.

 

 

FORD

 

 

 

Se o Fordismo

inspirou Chaplin,

há esperança

para a humanidade.

 

Pela mesma lógica torta,

há Tchan e Djavan,

mosquito e periquito,

cigarros e Manoel de Barros.

 

A PRAÇA

 

 

 

A praça daqui

tem flores que caem

amarelas.

 

Melhor que todas

em que vivi.

 

Não há

mais bela.

 

A praça sorri

pros pombos de cartolas,

pros velhos ricos pedindo esmolas

e pra quem quer que prace.

 

– A praça que não vi.

 

 

SAIA SAIA

 

 

 

Ah, a sensualidade

dessa sinuosidade

em deslizante cetim…

 

beija os sentidos,

cintilando, seduzindo,

vibrando em mim.

 

Visão na mão de pelo loiro…

Aspiro o áspero suave

sucumbindo no sonho sem fim.

 

 

 

CONDICIONADO

 

 

 

Sim, eu poderia

ficar aqui sentado

sobre minhas vitórias,

derrotado.

 

Mas há alegria

fora do passado.

Quero o ar de glórias

do não conquistado.

 

O vento do incerto

é melhor que o conforto regulado

do ar condicionado.

 

 

 

DESEJO

 

 

 

Almejo

a Lisa.

 

Alcanço

a brisa.

 

Aliso

os alíseos.

 

 

 

LOIRA ECOLÓGICA

 

 

 

Seu eu parecer

não te ouvir

queira não se irritar

por favor.

 

É que fico meio arbóreo

com o verde dos teus olhos.

 

 

O GATO

 

 

 

De quando em vez

esse ser equilibrado

de aparente ausência assimilada,

 

esse eu sério, de óculos, barba,

poucas palavras e sorrisos,

desce da altura medida.

 

A vista míope enturva, escurece.

Dentes trincados não fazem preces.

A lentidão de pernas e braços

destransforma-se em negro gato.

 

Gato ágil que arranha de angústia rouca

tão profundo, tantas vezes, tanta gente…

vai embora num relampejar de luz pouca

e sou eu quem se arrepende.

 

 

 

A VIOLÊNCIA DAS VELAS

 

 

 

Vamos acender as velas

e rezar pedindo que a bala perdida

não atravesse nossas grades, muros e janelas.

 

Sigamos, multidão apática,

com sonhos mediados pela mídia.

Iluminemos essa cultura Iluminista

com fogo em nossas vidas egoístas.

 

20/7/2000

 

 

 

O TREM

 

 

 

O trem

vai rápido.

 

O trem

não segue trilhos

em seus caminhos aéreos.

 

O trem

não tem maquinista,

mas todos somos passageiros.

 

O trem

nunca chega, nunca pára.

(nem nas quatro estações)

 

Feliz de quem

aproveita a viagem.

 

 

 

PEQUENA SONATA AO LUAR

 

 

 

Noite.

Deus, sono lento.

 

Aplausos.

Mãos das trevas?

Não.

Gotas pingando nas frias folhas.

 

Edredom.

Sem som.

Sem sonho.

Se alimenta.

Lentamente.

De mim.

 

 

 

DE MAIO DE 1968 AO NEOLIBERALISMO

 

 

 

Os jovens contra o sistema

envelhecem.

 

Seus filhos, sem tempo,

emburrecem.

 

As grafites de Paris

em pichações desfalecem.

 

O sistema, o mesmo sistema

se disfarça, vence e cresce.

 

Descanse em paz, Guevara,

perdoe as preces.

 

Nós, os verdadeiros mortos,

vamos trabalhar.

 

 

 

DA TENTATIVA

 

 

 

Quis fazer um poema triste.

Mas triste estou eu, não o poema triste.

(Celulose com rugas no carpete.)

 

Tentei fazer um verso frio.

Mas frio é esse tempo excomungado, não o verso frio.

(Alvidez alvidrada janela abaixo.)

 

Imaginei um soneto morto

e vi que a folha não respirava.

 

– Medusa, olha essa poesia!

 

Com pena idiossincrática,

deitei a pena esferográfica.

 

(Talvez se eu falasse de lagartixas…)

 

 

 

CULPA

 

 

 

Meus passeios

poluem o mundo.

 

Para ler,

gasto a luz de cidades inundadas.

 

A geladeira

esburaca a camada de ozônio.

 

Banhos longos

desertificam o planeta.

 

Para comer, beber, viver

gasto dinheiro (que nem ganhei).

 

Meus poemas

derrubam árvores.

 

 

 

DISTANTE

 

 

Para Andréa

 

 

Onde a linha amarela

cruza o entardecer

meus sonhos dormem

escondidos

em você.

 

 

 

CÚMULO-NIMBO

 

 

 

Seu dentro

é nublado.

 

Embaço

embaixo

de embaço.

 

Em seus olhos,

persianas e pestanas

persistem em fechar.

 

Mas um vento vem,

vagaroso…

Move leve o sonho.

 

Mostra as cores

sob o cinza, no seu íntimo,

por um ínfimo

instante.

 

Queira Deus que chova.

 

 

 

ENIGMA

 

 

 

O que há nas cervejas geladas?

Murmúrias

de sedes esfarrapadas.

 

 

 

COMO?

 

 

 

Me pedem poemas de amor

e, no lixão, o agricultor,

entre moscas e urubus,

alimenta sua família

com restos.

 

A vida toda plantou e colheu

pros outros.

Agora envelheceu

sem terra.

 

E ele sabe

como o governo come.

 

E ele sabe

que de fora comem nosso país.

 

Ele só não sabe

o que vai comer amanhã.

 

 

 

DOURADAS

 

 

Para Anna Gabriela

 

 

Nessas raias estreitas,

as douradas

por quem mais nadei

eram horizonte.

 

Bati o recorde

atlântico

das mil tentativas

(tiros n’água).

 

Fui tetracampeão

de salto ornamental

no escuro.

 

subi no pódio de mim mesmo,

sem hino, bandeira ou torcida.

 

 

 

 

 

O SER POETA:

 

 

 

Falar da luz

que não se vê.

 

Mostrar o bem

que não se têm.

 

Cantar o amor

sem nem querer.

 

Fazer feliz

e triste ser.

 

 

 

 

 

FOGOS

 

 

 

Os fogos de artifício

em Copacabana,

 

os fogos de míssil

no Oriente Médio

 

iluminam o passar dos anos.

 

Evolução?

Engano.

 

 

 

 

 

QUE HORAS SÃO

 

 

 

Meg Donas nosso

que estás no shopping,

 

amarela e brilhante

seja tua luz,

 

queira deus que haja vacas

entre teus pães,

 

venha a nós essa gordura

assim no Meg Bacon como no Big Meg,

 

não nos deixe

cair em dieta

 

e livra-nos

da batata murcha.

 

 

 

 

LÍNGUA

 

 

 

Pela porta da poesia

entrei pra dentro de um pleonasmo.

 

Vivo, vivia

na língua de tanta gente

que achei doentes

os dentes que diziam “tá errado”.

 

 

 

 

CINZA

 

 

 

O sonho que não realizei

me beija às cinco da manhã.

Só pra me lembrar

que dói sonhar.

 

A cidade do alto, cinza

sob o céu pesado, cinza.

Carros, ambulâncias, helicópteros, sirenes, trânsito, luzes girando,

[pedestres…

pensam que chegam a algum lugar.

 

Ninguém abre os olhos

pras flores abertas.

Aposto que assim são mais felizes.

 

 

 

 

DESAMOR

 

 

 

Enamorados nas românticas gôndolas,

os vejo gônadas.

 

 

 

 

 

MODERNIDADE

 

 

 

ritmo

acelerado

de

vida

curta

como

o

poema

burguer

 

 

 

 

 

LINHA AMARELA

 

 

 

Vejo

na grandeza das pedras à esquerda

Deus.

 

Rádio ligado:

nuvem de melancolia

em música lenta.

 

No túnel, silêncio.

No túnel, escuro.

Há de se acelerar

para o túnel passar.

 

Passado,

o chão molhado

fez, entre ex-carros, quatro corpos deitados.

 

Cai por terra o espiritualismo

e instantâneo medo

ascende no gris.

 

Mas passa logo.

Acelerando divago:

chegar é o que sempre quis.

 

 

 

 

 

CRIAÇÃO

 

 

 

A palavra viva

levantou-se da folha morta.

 

De altura ambígua,

inspirou sua alma.

Se tivesse olhos, os abriria.

 

Ouviu-se: – Viva!

E então não se sabia

se era ordem, celebração

ou se alguém a lia.

 

 

 

 

 

X

 

 

 

Sem mutação,

mutante:

metamorfose

ambulante.

 

De médico e Logan

todo poeta

tem um tempo.

 

Infeliz do estagnado,

cromossomo degenerado.

 

Ri no rio a momentânea sinuosidade de cobra antes do bote.

 

 

 

 

 

ASAS

 

 

 

Não procuro a liberdade que passará,

mas a do pássaro ligeiro.

Nem espero a que virá:

o futuro é traiçoeiro.

 

Sinto as asas invisíveis agora.

Vôo alto, contente.

Se não fosse o vento de outrora

me contentaria com o chão quente.

Não deixarei de ascender na aurora

Pelas aves abaixo, maldizentes.

 

Pouco importa alcançar.

Quero é ser livre para sonhar

sonhos em qualquer altitude.

 

 

 

 

TERRA BRASILIS

 

 

 

Desta terra

regada com suor,

 

coberta de pedras

nos caminhos,

 

cansada de guerras

(invisíveis?),

 

cercada pelos grandes

(invencíveis?),

 

nascem os dons

que perfumam o mundo.

 

 

 

VI UM SATÉLITE

 

 

 

Hoje foi quente.

Jantei galinha

e dispensei a TV.

 

Deitei sob as estrelas,

ouvi o vento balançando as plantas

e o casal de vizinhos brigando.

 

Fui feliz assim,

com muitos verbos,

poucas conjunções

e nenhuma metáfora.

 

 

 

FIM DE MILÊNIO

 

 

 

Caminhava na floresta molhada

e pisei no gnomo, caí na fada.

 

Desesperado,

tentei falar com meu anjo da guarda.

Linha ocupada!

 

Minha lua em aquário

sempre me fez de otário.

 

 

 

INDECISÃO

 

 

 

Sou

a porta entreaberta.

(lua estilizada)

 

Nem aberta

nem fechada.

 

Se a mais leve brisa

me define,

é temporário:

 

Minha chave

não existe.

 

 

 

QUE ANDRA DOR FEZ ANDRADE?

 

 

 

A dor dos dardos da idade

rolou os dados, vergou Andrade.

Resultado: andar.

 

Andar até o fim do dia,

pois vem a tarde.

 

Vem a tarde, Andrade,

com sua antropofagia.

 

Ande como subindo os Andes,

como fugindo do antes,

antes que te coma o fim.

 

(Andando por minha rua, Andrade se ergueu do derrame.)

 

 

 

 

 

A MORTE DA PERNA-DE-PAU

 

 

 

Sinara me ensinara

a sina de Nara,

em cima de varas,

acima de caras.

 

Felicidade o dia inteiro,

simplicidade no passo ligeiro,

velocidade em fazer dinheiro,

longevidade até o bueiro.

 

 

 

 

O NADA

 

 

Para Manuel Bandeira

 

 

Aprendo a fingir aprender

com professores atrasados fingindo ensinar.

Anoto todas as regras

menos a filosofia das janelas.

 

Requeiro petições e memorandos

demorando em diretorias

vazias de humanos,

cheias de burocracia.

 

Todas as pessoas perto, distantes.

Todas as pessoas distantes, perto.

 

Meu todo dia

só se salva pelo não fazer,

único prazer: poesia.

 

 

 

 

 

 

TUDO PELOS ARES

 

 

 

Somos anjos perdidos.

Asas mortas no chão

desde a primeira audição

da palavra impossível.

 

 

 

 

 

ESTRELA DISTANTE

 

 

 

Estou solstício

no espaço cósmico.

 

Não que minha vida seja

especial.

 

É que no ócio

construo veleiros espaciais

para ir, só.

 

 

 

 

HERANÇA

 

 

Para meu pai

 

 

Comecei a ler

pelos olhos de meu pai.

 

Os contos de fada

espantavam monstros no escuro.

 

Mas eu gostava tanto

que acabava o livro e eu não dormia.

 

Ele então partia,

deixando a luz acesa.

 

Cresci.

Aprendi a ler (e a ser) só.

 

Mas herdei até o problema

com as palavras:

 

As que faltam, nos seus silêncios de retrato

e as que sobram, espinhentas, e destroem palácios.

 

Construídos demoradamente, silenciosamente, arduamente

com atos de amor.

 

Levei duas dúzias de anos

para ver que as palavras com espinhos

não diziam o que nós realmente sentíamos.

 

Queria ter herdado

o dom de sentir prazer com as coisas simples,

 

como deixar a luz acesa

para aqueles que amo.

 

 

 

 

 

UTILIDADE

 

 

 

Me falam para produzir,

como se alguém produzisse…

 

Quem produz terra fértil

é a minhoca.

 

Quem limpa a água

é a terra fértil.

 

Quem joga oxigênio no ar?

Algas cianofíceas.

 

E nós, humanos,

o que produzimos

usando a terra,

acabando com a água,

sujando o ar

e adorando a moeda?

 

– Eu quero é produzir pedras.

 

 

 

 

A CECÍLIA MEIRELES

 

 

 

Cantos serenados

cruzam etéreos crepúsculos.

 

Nuvens douradas

pastam perfumes seculares

em seus altos caminhos.

 

Sonhos naufragados

atravessam espelhos, horizontes,

borbulham baixinho:

 

A poesia da rosa

é seu espinho.

 

 

 

 

 

ISSEDÔNIA

 

 

 

Antônia, eu vou pra Issedônia

sentir a brisa de Pasárgada,

vou ver as ondas do mar Jônio

sem descobrir como voltar.

 

Soube que lá tudo é belo,

não há favela nem castelo,

mas se não for o que espero

eu vou continuar por lá.

 

Dizem que lá tudo é na cama,

sem placas “Não pise na grama”,

mas se não for assim bacana

eu vou continuar por lá.

 

Ouvi que lá não há trabalho,

só sexo, siesta e baralho,

mas se for tudo ao contrário

eu vou continuar por lá.

 

 

 

 

CHEGADA

 

 

 

A chuva a luz a Lia acabou

 

Há quanto?

Voltarão?

 

Eu espero

 

No escuro de meu desespero

a esperança é chama oscilante

 

O portão, de ferro melancólico, chora sonoro

O jardim se arrasta ruidosamente em algo

 

Já posso vê-la

de volta

 

A escada triste derrama exata

água pelos degraus em cascata

 

A madeira da porta vibra com o ranger

Abre-se, olhos idem

 

Eu no carpete no silêncio no breu

 

Apenas vento

 

 

 

 

 

 

 

EQUILÍBRIO DISTANTE

 

 

Para Renato Russo

 

 

Na linha fina do horizonte

se equilibra meu equilíbrio distante.

 

Mas quem um dia chegou lá?

Por que quero (logo eu) chegar?

 

Faço poemas

com tais temas

dentro do shopping.

 

Que a perfeição afunde em sua lonjura

e eu ache felicidade em tanajuras.

 

 

 

 

FOTO DELA

 

 

Para Andréa

 

 

Via eu contente as fotos:

formatura de um amigo.

Até que chegou a dela,

de branco, rindo de mim.

 

Foi quando não vi mais nada.

 

Só senti um calor estranho,

e explodiu em meu silêncio

num velho vulcão distante

a vontade de a ter.

 

 

 

 

 

 

 

 

ENGENHARIA ELÉTRICA UFRJ

 

 

Para Walton e Vagner

 

 

Meus dois amigos

derrotaram números

com garra

de adamantium.

 

Surfaram em ondas eletromagnéticas

apenas para acabar, muitas vezes,

afogados em teorias.

 

Mas integraram volumes

em cinco dimensões

sem se entregarem…

 

Ralaram as mãos nas Físicas (e suas leis),

sujaram a alma nos motores (sem ouvir RPM),

eletrocutaram esperanças nos circuitos (algumas morreram),

perderam um pouco de fé nos fios (efeito Joule?),

sistematicamente comeram o pão que o Basílio amassou

[(maldito seja).

 

E agora a recompensa,

a vitória, a conquista, o papel derradeiro:

engenheiro.

 

 

 

 

VOCAÇÃO

 

 

 

Meu avô

queria ser aviador,

piloto mesmo.

 

Não conseguiu.

Algumas vezes foi visto em sua juventude

olhando o nada com a vista cansada.

 

No fundo, bem

que quero voar também.

Porém sem avião.

 

Minha aeronave anemofílica

é a palavra etílica.

E eu nem bebo…

 

Mas leio sonhos aéreos,

que os ventos ventaram

e ventarão.

 

E passo a vida

a dar passos

sem pegadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II – Férias

 

 

 

 

 

 

 

E ATENÇÃO:

 

 

 

Devo comer este bife mal passado

tentando esquecer que vai me engordar,

o colesterol ruim,

a vaca louca,

os triglicerídeos,

a vaca louca,

que pode ter cisticercos,

a vaca louca,

o coliforme 157,

ou ainda,

a vaca louca.

 

Devo mastigar esta alface sem pensar nas planárias,

beber esta água sem sentir o vibrião colérico na garganta.

 

Devo ignorar este mosquito que me morde – com listrinhas na

[bunda,

possível portador da dengue tipo 3,

que pode ser mais grave para quem já teve a 2 ou a 1.

 

Devo inspirar sem sentir o gás carbônico,

piorando o efeito estufa.

 

Devo parar de suar, no ar condicionado,

sem a culpa de destruir a camada de ozônio.

 

Devo passar estes dias a esperar o telefone tocar

tentando me convencer de que estou bem,

que estou de férias

e que não estou esperando você ligar.

 

 

Apesar de estar em casa,

ajudando a destruir o mundo,

esperando o telefonema sagrado

e absorvendo informações demais.

 

 

 

 

 

 

JANEIRO

 

 

 

O dourado vence o vermelho

no dia nascente.

A revanche: o crepúsculo.

 

Verão.

Estação de sonhos e ócio.

Já cheira a saudade

antes de esquentar.

 

Provo as bênçãos

dos bons arcanjos

em trajes de banho

sobre a areia branca

 

e a irregularidade

dos horizontes

das cidades

do interior

da alma.

 

 

 

 

 

 

PARA MANOEL DE BARROS

 

 

 

Seu Nhonhô

morava no silêncio

e tinha cabelos de nuvens.

 

Era irmanado das águas paradas

e de quando em vez libélulas

punham ovos em sua cabeça.

 

Sua voz tinha falha de crostas

e vulcões invisíveis expeliam o nada por suas ventas.

 

Da última vez que o vi

estava árvore.

 

Quando foi cortado,

se cercou de cinza

e desandou a falar

sem dizer.

 

 

 

 

 

 

VIAGEM

 

 

 

A casa era uma estranha

na chegada.

 

Após o primeiro banho,

o primeiro silêncio

e o primeiro poema

nos tornamos cúmplices.

 

Aposto que em uma semana

serei um pouco casa.

 

E, na despedida,

meio que vou ficar

e meia casa vai viajar.

 

Ponta Negra – 1º/2/2001

 

 

 

 

 

CANTO NA PRAIA

 

 

 

Andorinhas

em bando,

 

namorados

na praça,

 

os amigos

falando,

 

os cachorros:

desgraça.

 

Tantas ondas,

tantos plurais

e a cigarra,

no singular,

canta.

 

(no plural morreria)

 

Ponta Negra – 1º/2/2001

 

 

 

 

 

PERENE

 

 

Para Camões

 

 

O mar:

constante fúria espumante.

 

Desfaz penhas

(teimosas e duras)

em areia molhada.

 

Piso tatuís,

gaivotas cortam o ar

e sinto na palavra escrita

a perenidade do mar.

 

Ponta Negra – 2/2/2001

 

 

 

 

 

 

A FOTO

 

 

Para Mariana

 

 

O mar fala.

O mar repete.

Tento sentir o que.

 

Talvez seja

para não pensar.

 

Uma menina pergunta:

– Senhor, que horas são?

Falo dois números e me pergunto

quando virei senhor.

 

Talvez por isso

esteja de relógio na praia

e não entenda a graça

das cambalhotas infantis na água.

 

De tanto

olhar sentir ouvir

enormes ondas,

entendo a grandiosidade do momento.

 

Uma família fotografa o crepúsculo.

O mar diz que não caberá na foto.

 

Ponta Negra – 2/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MONTES

 

 

 

Os urubus não estão baixos,

nós é que estamos altos.

 

Trepados na terra vermelha,

motorizados por entre matos,

procurando poesia nas alturas.

 

Mas alturas há aos montes…

 

E poesia não é paisagem.

 

É o bicho que entra pelo vidro do carro

e assusta,

é a vertigem na beira do despenhadeiro,

é a cobra imaginária dos caminhos,

é o não chegar.

 

Ponta Negra – 2/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PICOLÉ DE MANGA

 

 

 

É verão

Como picolé de manga

 

A praia arde

Como picolé de manga

 

A água dourada no entardecer

Como picolé de manga

 

(um pessimista dirá

que vou engordar)

 

Ponta Negra – 2/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

POSSIBILIDADES

 

 

 

Ler é aumentar as chances

de que minha seta

acerte a palavra,

a certa.

 

Ponta Negra – 6/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BÚZIOS OU NADA

 

 

 

A rua que dá no ócio

é de pedras irregulares.

 

Na chegada posso

sentir o cheiro dos mares.

 

Mas fazer o nada

é difícil empreitada.

 

E as revoluções industriais,

a cada onda, cada vez mais

complicam sua produção.

 

Habituados a correr demais,

desaprendemos a andar na contramão.

 

(Pegar sol é pegar sol, não é nada.

Dormir é dormir, não é nada.

Nadar é nadar, não é nada.)

 

Para reaprender

preciso escrever.

(A família dorme: não temos TV.)

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

QUADRO SUPERIOR ESQUERDO

 

 

 

.

 

Ah,

a vela,

a chama.

 

A vela-chama.

 

A vela chama ao mar

em belos tons de vermelho.

 

O homem é muito pequeno, é nada

perto da vela cheia de ar e esplendor.

 

Mas parece maior, pensando brilhar no leme.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

O TORTO

 

 

 

Há um peixe torto

pintado num prato

pendurado numa

parede bem reta.

 

Ainda bem.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

LONGE

 

 

 

Disseram que a praia era perto…

mas longe mesmo é a noite

que não cai sem uma TV ligada.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

O FANTASMA

 

 

 

Hoje o fantasma de Seu Nhonhô

passou por mim.

Mas ventava tão alto que não o vi.

Assim sendo, não pude lhe escrever meus silêncios

nem recordar tudo que não fiz.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

SÍNDROME DA CHEGADA

 

 

 

As casas de praia, montanha ou nada

são sempre decepção na chegada.

 

Se fôssemos para Pasárgada,

no primeiro dia me perguntaria:

– Por que não fiquei em casa?

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PELA ESTRADA AFORA

 

 

 

Olho pro papel

e lembro que deixei cair

versos não escritos

pela estrada toda.

 

Nunca mais vou achá-los.

Mas quem sabe

alguém que passe…

 

Agora,

aqui,

instalado,

confortável,

caneta destampada,

folha em branco…

 

E esses casais de namorados

namorando, namorando, namorando

nada me dizem.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VENTO FORTE

 

 

Para Mario Quintana

 

 

O vento aqui não pára.

 

Nem um segundo,

nem um pouquinho.

 

Ah, se eu fosse moinho…

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEVEN

 

 

 

Fiz sete poemas em meia hora

mas a TV continua sem pegar nada.

 

Agora

vou beber água.

 

Búzios – 11/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

KAFKA

 

 

 

Todo caminho leva

à rua das pedras,

onde a beleza ganha.

 

Queria mais olhos e pernas

pra ver as belas e desviar das pedras.

Resumindo – virar aranha.

 

Búzios – 12/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOITE NA RUA DAS PEDRAS

 

 

 

Maria farinha

de lado caminha

devagar, calminha.

 

O barco balança

devagar, não cansa.

 

E eu rimo mal.

 

Búzios – 12/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FÉRIAS

 

 

 

O céu tem mais estrelas

o silêncio, mais grilos

as horas, mais tempo

os amores impossíveis, mais brilho.

 

Búzios – 12/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

ALVO

 

 

 

O sol a pele doura.

Mas só dura até a dureza

que é o cotidiano da vida fordista.

 

E tudo embranquece.

 

Búzios – 12/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

FAMÍLIA

 

Para meus pais e minha irmã

 

Regularmente,

algum bicho

morde mamãe.

 

E ela irrompe pelos cômodos

como trotando um jegue de tamancos

dando rodopios de voz

e distribuindo culpas.

 

Meu pai canta ou assobia.

 

Minha irmã pergunta.

 

Depois de uns duodécimos temporais

tudo é calma.

 

As famílias são fascinantes.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

PLACA

 

 

 

Procura-se alguém

que ame com certeza.

 

Interessados

entrar em contato

para breve discussão filosófica

pelo telefone vermelho.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

SOPRO

 

 

 

Não sei o que me deu hoje

que não durmo e faço poemas.

 

Talvez a noite esteja insone

e me sopre versos pelo escuro.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

ORGANIZAÇÃO CEREBRAL

 

 

Para Walter Cabral de Moura

 

 

Decepção amorosa?

Por favor pegue este número,

entre na fila a sua direita

e aguarde ser chamada pelo alto-falante

para um poema.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DAS NEGATIVAS

 

 

 

E novamente não durmo

por algo que não é

e talvez nunca seja.

 

(Decepção amorosa número 32, dirija-se ao balcão azul.)

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

INÍCIO DE UM ROMANCE POLICIAL

 

 

 

Eram sete e meia.

A polícia tentava isolar o local.

Mostrei a carteira de poeta e passei.

O crepúsculo, morto, vertia sangue pelo céu.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 A.M.

 

 

 

Nem sinal de sono.

 

A pele coça (queimada),

ouço (no silêncio) a maldição do Tchan,

escrevo sem parar (quase três da manhã).

 

O universo conspira insônias lá fora.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESTINO

 

 

 

A cigana leu minha mão

e não viu que escrevia poemas.

 

Pediu vinte, dei dez.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DELÍRIO

 

 

Para o hipopótamo de Brás Cubas

 

 

Há um ar de ave

na algibeira das costelas de porco

que como como se fossem

voar.

 

Búzios – 13/2/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SAÍDA DE BÚZIOS

 

 

 

Parou o vento.

 

O silêncio ensinava o orvalho

a pingar da relva…

 

Foi quando a TV funcionou e partimos.

 

Cheios de melanina

e lembranças argentinas.

 

 

 

 

 

 

 

CORTE

 

 

 

Tenho sorte.

Ao menos tento forte

(mesmo que não acerte)

fazer do ócio, arte.

 

O tempo curto – corte.

 

Sem vida – morte.

 

 

 

 

(Fabio Rocha)

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