A Magia da Poesia – ebook (2000) – revisado em 2014

 

 

 

 

 

A Magia da Poesia

 

 

 

Fabio Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Copyright – 2000 por Fabio Rocha (revisado em 2014 por Fabio Rocha)

 

Registro EDA – Biblioteca Nacional

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: LOBOS

No. Registro da Obra: 163430

Livro: 272

Folha: 68

Data de Registro: 19/11/1998

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

Nome(s) do(s) Autor(es): FÁBIO JOSÉ ALFREDO SANTOS DA ROCHA

Título da Obra: A MAGIA DA POESIA

No. Registro da Obra: 193566

Livro: 332

Folha: 222

Data de Registro: 17/2/2000

Gênero da Obra: POESIA

Obra Publicada: Não

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

 

Diferente das fadas e magos, o livro A Magia da Poesia do poeta Fabio Rocha, utiliza-se somente da palavra, para encantar. “Eternizar um mínimo instante”, assim o poeta define essa magia e a eterniza nas páginas de seu livro, fazendo surgir poemas breves, em sua maioria, utilizando-se de fragmentos de vida, transformando-os em magnetos para o deleite e atenção do leitor.

O poeta segue manipulando a palavra, descrevendo em linguagem contemporânea, suas observações do mundo. Em seu poema “Quem sou” por exemplo, Fabio define-se de forma mística, e, tal como um mago, não retira sua máscara, envolvendo assim seus leitores com um manto poético de mistério.

Surpresas do desconhecido revelam-se em sua poesia causando a sensação requerida quando o poeta apresenta LoBoS, com seu final inesperado, fazendo deste, o ponto alto de sua composição.

Sua poesia é cartola branca de magia e carrega a sensibilidade do poeta, define sua voz em cenas do dia a dia, em experiências retiradas de sentimentos de amor, melancolia e força.

Assim é, que, na arte simples de amar o poeta distribui versos entre doces e amargos para seus amores. Virando-se as páginas do livro, encontra-se em “Divagar” a beleza de sentir que é possível retirar o lado positivo de um momento difícil. Nesta linha segue “Ah, os relógios…”, quando o poeta refere-se ao presente que ganhou, que, mesmo não sendo o seu preferido, serviu-lhe para retirar versos.

Sente-se o bom humor do poeta espelhado nos trocadilhos de palavras, ou seu descontentamento, fixado em sua exposição do mundo social: o turista e o pivete mostrando-nos suas diferentes direções, interrogando-nos sobre soluções e frente à cena de verdade expressa: “Árvores descem, prédios sobem”.

Assim é Magia da Poesia, livro dividido em três partes simples e práticas que o jovem poeta Fabio Rocha, com sua sensibilidade e arte, apresenta ao leitor, confirmando que poesia também é pura magia.

 

Rosa Clement, poeta

Manaus, AM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrever

 

 

Meu corpo se enche de emoções dementes,

como uma taça sob torneiras intermitentes.

 

Se não fosse a poesia,

para onde ela transbordaria?

 

 

 

 

 

 

Férias

 

 

(A Fábio, Eduardo, Suzana e José Ronaldo Neto)

 

 

Lá vai o turista

subindo a ladeira.

 

E corre o pivete

atrás da carteira…

 

Lá vem o turista

descendo a ladeira.

 

 

 

 

 

 

LoBoS

 

 

E a coruja observa.

Na calma noite fria

ela, quieta, espia.

 

Cai a neve molhada

sobre cada pegada

do menino sozinho.

 

Uivos se ouvem longe.

e a lua se enche

de um medo absurdo.

 

O pequeno caminha.

Vai alheio à lua

e a sorte sua.

 

Os lobos se aproximam.

Os caninos cintilam.

O rosnar é só um.

 

O maior é cinza.

Devagar, se aproxima

do garoto parado.

 

O rapaz se ajoelha.

Calmamente, sorri.

Há algo errado ali.

 

O animal nada entende

e como se fosse gente

certa pena sente.

 

É então que o lobo

de olhos amarelos

se deixa acariciar.

 

E o menino, devagar

um galho caído no chão

se põe a pegar.

 

Seu grito é sobre-humano

ao atingir o lobo no crânio.

 

Corre a alcatéia apavorada

e a criança tem sua fome saciada.

 

A coruja olha displicente

o garoto partindo, na paisagem inerte.

Nem triste, nem contente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Jardim

 

 

(A Marta, Mário, Ilka e Salvador)

 

 

Do velho terraço cheio de limo,

pedaço cinzento de sua infância,

via as sombras da grande amendoeira.

 

O balanço enferrujado,

as grandes e barulhentas folhas caídas…

Parecia algo intocado, sagrado.

 

Um copo de água estagnado

era visitado

por miúdos pardais sedentos.

 

As amêndoas serviam de giz

para escrever nas paredes

que era um menino feliz.

 

 

 

 

 

 

 

Brilho

 

 

(A Alessandra)

 

 

Sempre haverá

estrelas no céu.

 

As nuvens passam,

as tempestades se acalmam…

 

Sempre haverá

estrelas no céu.

 

Pingue a última gota

de esperança do coração…

 

Sempre haverá

estrelas no céu.

 

E nelas verei teu sorriso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Solidão

 

 

Não estou só.

 

Há ácaros em minha pele,

insetos escondidos em meu quarto,

células estranhas em meu sangue,

vírus em animação suspensa no ar

e sua forte presença

em meu coração.

 

 

 

 

Sentido

 

 

Qual o sentido

de não ter sentido?

 

Nada faz sentido…

Nunca faz sentido…

 

O único sentido

é em frente.

 

 

 

 

 

 

Respirar

 

 

(A Anelise)

 

 

Inspiro o luar, que na poça dança.

A lua nos inspira.

Expiro esperança.

 

 

 

 

 

 

Antena

 

 

Quero captar,

como os Grandes,

a poesia da simplicidade.

 

Engenheiro que não sou,

devo desenvolver a antena

e encurtar o poema.

 

 

 

 

 

 

Medo de amar

 

 

Tenho medo.

De pensar amar alguém

e, na verdade, amar apenas

o que penso que alguém é.

 

 

 

 

Se eu chegasse

 

 

Dia 28:

sexta-feira treze,

sexta-feira fria.

 

O quadro negro

é verde.

Um pássaro, lá fora, assobia.

 

Já choveu,

já parou.

Como tudo, passou.

 

Sala cheia de mosquitos…

Sem sol,

fica tudo esquisito.

 

Pinga ou chora a árvore morta?

Ah, se eu entrasse agora

por esta velha porta…

 

e me encontrasse.

 

 

 

 

 

 

Meio Poema

 

 

À meia-noite,

à meia-luz que vinha das nuvens,

amei em sonhos.

 

Há meia-lua

no meio do céu.

 

Amei a lua

no meio do céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria

 

 

Maria largou tudo.

Partiu como partia os cocos no quiosque.

 

Maria largou filhos, marido.

Sumiu como sumia seu dinheiro no fim do mês.

 

Maria não tinha mais problema.

Dela só sobrou o poema.

 

Maria largou de beber.

Maria largou de fumar.

 

Maria largou o facão,

cravado em sua jugular.

 

Maria foi encontrada

largada perto do bar.

 

Mas essa não era Maria.

Ela ali não jazia.

 

Maria apenas subia

Leve, como num sonho, ia.

 

Maria subia…

Para a paz, para a luz que via.

 

 

 

 

 

 

Lógica

 

 

(A Andréa)

 

 

Estou perdido.

Ela não me quer.

 

Não estou perdido

por ela não me querer.

 

Ela não me quereria

apenas por eu não estar perdido.

 

Mas estar perdido é pior,

com ela não me querendo.

 

E ela não me querer é pior,

estando perdido.

 

Se eu me achar

ela vai me querer?

 

Se ela me quiser,

vou me encontrar?

 

Cansado de lógica,

vou ver o jantar.

 

Não há feijão na panela…

Estou perdido, com fome e sem ela.

 

 

 

 

 

 

Ah, os relógios…

 

 

Ganhei um relógio de ponteiros

em certa manhã fria.

 

Na verdade,

um digital eu preferia…

 

Mas notei a poesia

no som que ele fazia.

 

Com fome, olhei a bússola

e segui pro meio-dia.

 

 

 

 

 

 

Filosofia Noturna

 

 

Cantou, triste, a coruja:

 

“O ferro enferruja,

a madeira dá cupim,

o novo envelhece,

o ouro desvaloriza,

o castelo desaba,

a carne apodrece,

a fama acaba.”

 

Disse o vento, com calma:

 

“Nada é para sempre,

exceto sua alma.”

 

 

 

 

 

 

Tarde

 

 

Minhalma vaga em silêncio.

 

Quer ir sempre

onde não estou.

 

Me chamam pra realidade.

Diga que não vou.

 

 

 

 

 

 

A Magia da Poesia

 

 

A magia da poesia

é encher a lua vazia,

aproximar o tempo distante,

chorar nos ombros da alegria,

eternizar um mínimo instante.

 

 

 

 

 

 

 

 

Azrael

 

 

Galopava a vida,

Azrael em seu sonho.

 

Passavam planetas,

oceanos, cometas…

 

A vida era o Pégaso de um anão

que trotava sem tocar o chão.

 

Havia chão?

Azrael achava que não.

 

Acorda Azrael, bebe Sidra.

Não há sentido no sonho

nem na vida.

 

 

 

 

 

 

 

Férias Praianas

 

 

(A Flávia, Mariana, Roberta e Juliana)

 

 

Colchonetes no chão

Ventilador de teto

Excesso de tempo

 

Sono com sonho

Dia mais longo

Excesso de tempo

 

Jogo de carta

Longe de casa

Excesso de tempo

 

Chuva bem chata

Lama na porta

Excesso de tempo

 

Teto de madeira

Idéia, caderno, caneta

Excesso de tempo

 

(mas é melhor sobrar

do que faltar)

 

 

 

 

 

 

 

Guerra

 

 

Atrás do gatilho

há um medroso.

 

Atrás do espelho,

um mundo novo.

 

 

 

 

 

 

 

Windows

 

 

Ah, por quantas salas passei?

Nelas,

quantos mestres distintos escutei?

 

E meu maior fascínio,

eu sei,

sempre foi pelas janelas.

 

 

 

 

 

 

 

Óculos

 

 

Com a demolição

da casa do vizinho

 

há mais céu

em minha janela

 

e mais estrelas

em minha insônia.

 

 

 

 

 

 

 

Eu

 

 

Eu sou o eu-lírico.

 

Sou aquele que cala

e pela folha fala.

 

Sou aquele que pára

e pela folha dispara.

 

Sou aquele que não se encaixa

e pela folha relaxa.

 

Sou aquele que finge

e pela folha vive.

 

 

 

 

 

 

 

Auto-Biologia

 

 

Meus ouvidos distraídos

não querem ouvir louvor.

 

Meus olhos cansados

não querem ver beleza.

 

Meus dedos cerrados

não querem escrever amor.

 

 

 

 

 

 

 

O dia certo

 

 

No dia em que a mulher de negro

me cobrir com seu xale,

 

Na hora em que a escuridão

inundar o vale,

 

não reguem com lágrimas o capim:

não estarei ali.

 

E coloquem sobre mim

o anjo que não fui.

 

 

 

 

 

 

 

Classificados

 

 

Vendo poema

Qualquer tema

 

Nenhum uso ou dono anterior

Injeção eletrônica sem dor

 

Ar condicionado de fábrica

Quando não está calor

 

Compre o poema novinho

Invista em seu bem-estar

 

Se o poema não andar

Há pedras no caminho

 

 

 

 

 

 

Ela

 

 

Sou cavaleiro sem donzela

e meu escudo é uma tela.

 

Se eu não pensasse nela…

 

Suo frio na capela

se há casamento na novela.

 

Se eu não pensasse nela…

 

Sonho meu que não é meu:

já sonhava Romeu.

 

– Quem pensa? Ela ou eu?

 

 

 

 

 

 

Matinal

 

 

Nem o sol vence a bruma inerte.

É tão cedo que até o vento dorme.

Como você quer que eu desperte?

Morfeu tem um poder enorme…

 

 

 

 

 

 

Tarde Gris

 

 

Quero achar no fundo de minha rinite

algo que justifique

o inverno.

 

Por mais que espirrar irrite

não chega a ser um inferno:

 

lá é quente.

 

 

 

 

 

 

Média

 

 

O Maracanã é o novo Coliseu.

Sonho meu?

Quem dera fosse.

 

Jogos via satélite,

amor via internet…

 

Via pessoas,

vejo consumo.

 

Queria viver a vida,

mas a mídia

fica no meio.

 

 

 

 

 

 

Urbanização

 

 

A madeira

Molda

O concreto

 

Árvores descem

Prédios sobem

 

A madeira

Sente

O martelo

 

O que era vida

É casca de pilastra

A apanhar

 

 

 

 

 

Soneto Onírico

 

 

Ednaldo é um perneta,

capitão do Potiguá.

Que vontade que ele tem

de vencer o Guarará.

 

E de tanto subir serra

com vontade de ganhar,

dicionário deu-lhe asas

para os sonhos alcançar.

 

Mas me disse Astrobaldo:

– Sonho besta o do Ednaldo!

E eu tive que calar.

 

Se o leitor achar medonho

o poema ou o sonho,

o convido a escalar.

 

 

 

 

 

 

Vitando

 

 

Hoje eu quis violar o vôngole,

com a vontade das virilidades vazias de virgens vigárias.

Queria eu que o verso vomitório alimentasse o voro dos voventes.

Mas ninguém comeu o versuto versudo.

 

E o vozeamento que ouvi

não foi volúpia…

Foi o vurmo dos vunjes,

no cume do vuvu.

 

Vermina a vérmina nos vernáculos.

O vermelho veementemente verdece, verdeja…

Como verduras em vergôntea.

Verga a vergamoteira, vazia de vergamotas, com a ventaneira.

 

Talvez vuzar o vulgar, essa velhacagem,

me tenha feito vulnerável.

Talvez o verso versicolor e vulnífico

tenha se voltado contra minha voz dessa vez.

 

A vuva víride verticiliflora no vale vulcânico

tem o caule volubilado?

Ah, volteaduras de vocábulos vazios…

Vã chance de fazer uma volatina…

 

Não sou volapuquista!

No vale não há voçoroca!

Vociferarei enquanto viver.

Pois a vida não é vitrescível.

 

Viva a viciosidade dos videocassetes!

Viva as vicissitudes das viagens!

Vacas vivas, somos vítimas

Da volúpia dos violões e das vozes veludosas.

 

 

 

 

 

 

Pontos Cardeais

 

 

Meu amor é plenilúnio.

Meio branco, meio azul.

 

O problema é o infortúnio:

vou pro norte, ela pro sul.

 

 

 

 

 

 

Trova

 

 

Foi tentando fazer trova

numa noite mal dormida

que sonhei com a canção

cantada por minha vida.

 

 

 

 

 

 

 

Sinal

 

 

Vermelho pare

e verde siga.

 

A segurança

é coisa antiga.

 

(No caos urbano

fenece a vida)

 

A igualdade:

lenda falida.

 

(Na pressa vã

esvai-se a vida)

 

Nunca há paz,

sempre há briga.

 

(O tiro errado

acerta a vida)

 

Na ambulância,

uma ferida.

 

(Na correria

acaba a vida)

 

Vermelho pare

e verde siga.

 

 

 

 

 

 

 

Patins

 

 

No cinema,

Al Pacino

 

No armário,

a pátina

 

Na verdade,

eu patino

sobre minhas teorias congeladas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Borboleta

 

 

A lagarta e a crisálida

A lagarta é a crisálida

 

A larva

Alarga, alarga, alarga…

 

Borboletra.

 

 

 

(Fabio Rocha)

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